Mesmo que o ano de 2020, que trouxe o início da pandemia do novo coronavírus, já esteja a chegar ao fim, as comparações com a gripe espanhola, que ocorreu em 1918-19, continuam a ser feitas. Numa publicação de Facebook que se tornou viral, assinala-se o seguinte: “A pandemia mais grave da história foi a gripe espanhola de 1918. Durou 2 anos, em 3 ondas de contaminação com 500 milhões de pessoas infectadas e totalizando 55 milhões de mortes. A maioria das mortes ocorreu durante a segunda onda de contaminação.”

Post viral alega que segunda vaga da gripe espanhola foi mais grave por causa do relaxamento da população.

O autor acrescenta ainda, mesmo sem apresentar informações detalhadas, que “a população tolerou mal as medidas de quarentena e de distanciamento social” e que, “quando ocorreu a primeira saída pública” do confinamento, “a população começou a alegrar-se nas ruas, abandonando todas as medidas de precaução aprendidas”. Ou seja, de acordo com esta publicação, a consequência foi óbvia: “Milhões de mortes.” Portanto, o que se pretende dizer é que é preciso ter cuidado com o relaxamento social e alívio de medidas, porque, caso contrário, o resultado pode ser igual ao da gripe espanhola. A publicação chegou as 2,4 mil partilhas. Trata-se, no entanto, de uma publicação enganadora.

“Houve cerca de 50 a 100 vezes mais mortes na segunda onda, em comparação à primeira, e a informação disponível não permite validar o impacto de eventuais mutações do vírus.” Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise da Covid-19 da Ordem dos Médicos, começa por levantar algumas dúvidas ao Observador relativamente ao que é escrito naquela publicação de Facebook.

Por isso, Filipe Froes deixa algumas hipóteses que podem explicar o aumento de casos nessa segunda vaga da gripe espanhola, que não estão diretamente relacionadas com o relaxamento das populações relativamente às medidas sanitárias necessárias para prevenir a propagação da doença. A primeira pode estar relacionada com o fim da primeira guerra mundial, que promoveu “o regresso das tropas, o que aumentou muito a transmissão e originou muitas cerimónias e festejos que potenciaram a transmissão”, explicou Filipe Froes. Depois, outro dos fatores pode ter sido “a fadiga pandémica da população, agravada pela guerra e pelo impacto social e económico”, o que, aliado ao “desconhecimento da causa — neste caso, do vírus”, aumenta essa mesma fadiga.

Outra das hipóteses está relacionada com o próprio clima em que decorreu a segunda vaga, semelhante ao que se sentia no hemisfério norte quando ocorreu a segunda onda do novo coronavírus: “Foi durante o outono/inverno, com mais frio, o que facilitou os contágios e a sobrevivência viral”, conta. Convém ainda referir o desconhecimento científico relativo ao vírus em questão. “Ocorreram mutações virais, mas o seu impacto é difícil de avaliar porque nessa altura não havia meios necessários para deixar essa tarefa para as gerações vindouras”, finaliza.

Já o Professor José Sobral, historiador, investigador do Instituto de Ciências Sociais e autor do livro “Centenário da Gripe Pneumónica: A Pandemia em Retrospectiva”, não conseguiu responder às perguntas do Observador, mas enviou dois textos escritos por si, que clarificam as informações falsas difundidas pela publicação original. Num dos textos, publicados pela revista Visão a 14 de abril deste ano, o professor explica que, em relação à gripe espanhola (ou pneumónica), “a maior do século XX e a mais importante que atingiu a Eurásia desde o século XIV”, não há um consenso relativamente aos mortos nem à sua origem. Os números estarão entre os 50 e os 100 milhões de mortos. Ou seja, o autor da publicação que se tornou viral não poderia usar o número de 55 milhões de mortos de forma tão exata (e sem sequer citar a fonte dos dados) quando nem a comunidade científica chegou a um consenso sobre o tema.

No entanto, e citando outros autores especializados no tema, José Sobral escreve que existiram três vagas da gripe espanhola, tanto a nível mundial como em Portugal, sendo que a segunda foi a mais grave, “por ter ultrapassado em mortalidade qualquer experiência epidémica anterior das populações”. Quanto à altura em que ocorreu, José Sobral também esclarece: “A pandemia não deflagrou no inverno, mas na primavera, e alcançou a sua maior intensidade no outono, tendo uma contagiosidade extrema e um período de incubação rapidíssimo”, lê-se no documento.

Ainda nesse artigo, José Sobral confirma alguns dos dados partilhados por Filipe Froes para justificar a velocidade do contágio, especialmente em Portugal: “Mobilidade interna, como a militar, devido à circulação dos soldados mobilizados num país em guerra; mobilização agrícola, devido às deslocações dos trabalhadores rurais para as fainas sazonais no Douro e no Sul; balnear, com a movimentação para férias e estâncias termais; e marítima, pelos transportes por mar”, escreve.

Conta ainda que não houve consenso científico à volta da verdadeira origem da gripe espanhola e que várias medidas que adotámos em Portugal para combater a Covid-19 também foram aplicadas nessa altura, como o uso de máscara, a lavagem frequente das mãos ou o isolamento profilático. Em Portugal, um país pobre, a sofrer as marcas da guerra, e com pouca intervenção estatal por falta de dinheiro e sem uma rede de saúde pública alargada, houve, no entanto, muita reticência em fechar estabelecimentos culturais e comerciais como agora, ainda que algumas instituições tenham mesmo chegado a encerrar, como o Parlamento.

O não encerramento das feiras e das peregrinações pode, por isso, ter sido, “um meio importante de contágio”, como escreve José Sobral noutro artigo intitulado “Duas Pandemias: Um Esboço comparativo entre a ‘Pneumónica 1918-19 e a Covid-19”. Na segunda vaga da pneumónica (aquela que é referida pelo autor do post, ainda que sem especificar a que país se refere), Portugal acabou por encerrar escolas e até universidades, como a de Coimbra, contrariando um pouco a vontade do diretor-geral da saúde da altura, Ricardo Jorge. “Ricardo Jorge não só pensava que não havia salvação daquele vírus no isolamento total como entendia que não se podia levar a vida económica ao colapso”, escreve o historiador. Ou seja, não foi tanto a população que acabou por desrespeitar as medidas. Foi mais a decisão política de não confinar a população e prejudicar a atividade económica que pode ter facilitado o aumento dos números — uma estratégia que também se verificou, por exemplo, nos Estados Unidos da América, em 2020, e que fez com que fosse dos países mais afetados pela pandemia atual.

Não há, portanto, provas concretas de que existiu um relaxamento da população naquela altura, nem que isso levou a um aumento exponencial dos casos. Houve contestação e cansaço, mas houve outros fatores envolvidos. A falta de informação sobre a pneumónica, bem como a censura em torno do vírus — por se entender, politicamente, que a guerra era mais importante — também ajudam a explicar o aumento dos casos. “Em 1918, o diretor geral de saúde, Ricardo Jorge, queixava-se da falta de informação sobre a epidemia, bem como da prevalência de uma falsa imagem da benignidade do vírus na primeira vaga pandémica da primavera de 1918 — pois a gripe [era] vista como uma doença comum e, em grande medida, não nociva, não obrigando à sua notificação nos EUA, por exemplo”, lê-se no artigo do historiador.

Ainda que medidas como o isolamento social tenham sido impostas e promovidas em diversos países, é verdade que houve contestação da população em relação às medidas aplicadas, como o uso de máscara. Como se lê num artigo do canal História, nos EUA houve contestação social e até militar, já que a principal razão para o uso daquele material de proteção individual era evitar que os soldados que regressavam da guerra fossem contagiados. Foi, inclusivamente, criada a “Liga Anti Máscara” em São Francisco.

O conteúdo desta publicação de Facebook foi também verificado internacionalmente, pela AssociatedPress, por exemplo, que o considerou falso, principalmente porque o vírus sofreu várias mutações na segunda vaga e foi sobretudo por isso que se tornou mais mortífero.

A agência de notícias começa por confirmar que foram infetadas, de facto, cerca de 500 milhões de pessoas, segundo dados do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA. Na primeira fase, o impacto não foi severo, mas a segunda onda, que surgiu em diferentes continentes, vitimou cerca de 40 milhões de pessoas durante o outono, só no hemisfério norte — um dado confirmado por Anton Erkoreka, diretor do Museu Basco da História da Medicina, à AFP. Já a terceira vaga, que só chegou no início de 1919, não foi tão fatal como a segunda. Quanto à “culpa” da população, a AFP diz que não é verdadeira. “Isso não faz sentido. O vírus mudou, tornou-se muito mais letal, existe até uma minoria de virologistas que acredita que existiram dois vírus totalmente diferentes”, afirmou John Barry, autor do livro “The Great Influenza: The Story of the Deadliest Pandemic in History”, à AFP. Por fim, outro dado que ajuda a clarificar a intensidade desta segunda onda — e que também é referido por José Sobral — é o facto de a população jovem-adulta ter sido muito afetada.

A AFP confirma também que a gripe espanhola surgiu num contexto de guerra, onde a censura sobre a pandemia imperou — menos em Espanha, país que decidiu ficar de fora do conflito mundial, daí que se tenha cunhado de “gripe espanhola”. Por outro lado, ainda que algumas medidas sanitárias tenham sido aplicadas, incluindo em Portugal, há autores que defendem que não chegou a ser declarado nenhum confinamento obrigatório na primeira vaga, como é o caso de Freddy Vinet, professor da Universidade Paul Valéry, em Montpellier, e autor do livro “La grande grippe 1918, la pire épidémie du siècle”.

A fotografia que se vê na imagem também não representa a gripe espanhola. Retrata, na verdade, uma moda feminina que surgiu durante a guerra das Balcãs, que ocorreu entre 1912 e 1913, e é creditada à Süddeutsche Zeitung Photo.

Conclusão:

É verdade que a gripe espanhola matou entre 50 a 100 milhões de pessoas e é verdade que foi mais letal na segunda vaga, mas esse número não está diretamente relacionado com um suposto relaxamento da população após o desconfinamento — ainda que tenha sido registada alguma contestação em diferentes países. Existem diferentes motivos para que a segunda vaga da pneumónica tenha sido mais grave: maior fluxo migratório, regresso das tropas que estiveram em combate na primeira guerra mundial, o clima em que ocorreu (outono/inverno) e a possibilidade de o vírus ter sofrido mutações mais letais. Há até uma minoria de virologistas que acredita que existiram dois vírus diferentes.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

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