“Imagine ter que ir para a fila pela 3.ª vez para meter uma cena que não funcionou na 1.ª, nem na 2.ª vez.” A sugestão surgiu numa publicação no Facebook em clara referência à vacina contra a Covid-19, como é possível comprovar nos comentários, onde vários utilizadores da rede social discutem o tema.

É preciso recuar ao início do mês para contextualizar a situação: depois de vários países terem aprovado a terceira dose da vacina, no dia 9 de outubro a Direção-Geral da Saúde anunciou que iria começar a ser administrado um reforço da vacina contra o novo coronavírus a idosos com mais de 65 anos e residentes em lares.

Contudo, a própria DGS, em declarações ao Observador, assegura que é “incorreto” dizer que a terceira dose está a ser administrada “porque as doses anteriores não surtiram efeito”.

“Como em qualquer vacina, a eficácia do esquema vacinal primário é dinâmica, e, embora este esquema tenha gerado uma proteção elevada durante vários meses, existe a necessidade de realizar reforços, de modo a manter essa proteção elevada”, explica fonte da autoridade de saúde.

Fact Check. Vacinas não protegem contra a infecção, transmissão e mortes por Covid-19?

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Ou seja, “o nível de proteção da vacina ao longo do tempo vai depender muito da resposta imunitária das pessoas” e, tendo em conta o conhecimento que existe até agora, é possível dizer que esta “é mais limitada em doentes imunossuprimidos e em pessoas idosas”, o que justifica a opção inicial da DGS, não havendo ainda certezas sobre se este reforço poderá ou não estender-se a mais cidadãos. “Não há ausência de proteção, mas sim uma diminuição dessa proteção”, assegura a fonte da DGS.

A DGS recomenda ainda que haja uma dose de reforço “no caso das pessoas em que se verifica esta diminuição”, para que a proteção imunitária volte ao “nível ótimo”.

Os dados oficiais da análise ao nível de eficácia das vacinas contra a Covid-19 que estão a ser administradas em Portugal também contrariam a tese defendida no post. Como o Observador já escreveu, sendo certo que nenhuma das vacinas oferece uma proteção a 100% contra o novo coronavírus, os dados de um estudo  conjunto da Direção-Geral de Saúde e do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, divulgados a 8 de outubro, dão conta do seguinte cenário: em Portugal, foram detetados um total de 43.751 casos de infeção em pessoas que já tinham o esquema vacinal completo — um valor que representa 0,5% do total de pessoas vacinadas com as duas doses (8.603.453) em todo o país; além disso, registaram-se também 467 óbitos, dos quais 345 em pessoas com mais de 80 anos, entre os cidadãos com o esquema completo.

Isso significa que, em comparação com os casos entre pessoas não vacinadas contra a Covid, existe um risco de hospitalização cerca de três a seis vezes inferior; e o risco de morte é duas a quatro vezes menor nas pessoas com vacinação completa do que nas pessoas não vacinadas.

Conclusão

É falsa a ideia de que a terceira dose da vacina contra a Covid-19 esteja a ser administrada porque o esquema vacinal composto por duas doses “não funcionou”. A DGS explica ao Observador que este reforço foi aprovado para idosos e doentes imunossuprimidos porque, nestes casos, a imunidade é “mais limitada”. Além disso, a autoridade de saúde realça que a proteção da vacina não é estanque e vai depender da resposta imunitária de cada pessoa ao longo dos tempos. Os dados oficiais também mostram que quer o risco de hospitalização quer o risco de morte entre as pessoas com vacinação completa são inferiores aos de quem não recebeu qualquer das vacinas disponíveis.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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