E de novo o continente europeu enfrenta o abismo, em estranha contemplação. O único frenesim é o que move os abastados povos da Europa (com excepções, eu sei) a procurar na net as próximas férias; a dirigir-se para os locais de veraneio em cada oportunidade, por autocarro aéreo (vulgo low-cost) ou em veículo próprio quando tem à mão de semear um aprazível resort (Algarve); a consumir freneticamente em ocasiões festivas, como o Natal, feriados, dias disto e daquilo, nos saldos e sempre que têm saldo na conta bancária.

Prever catástrofes nunca tornou ninguém popular, sei-o bem. Mas é uma responsabilidade, por uma razão principal: é que as catástrofes podem ser evitadas. Como tantas no passado, que podiam e não o foram. E se não o foram, em muitos casos, não foi por falta de aviso.

As guerras mundiais. Angola em Março de 1961, o Curdistão, a Palestina, o Ruanda. A crise dos refugiados. E tantas ocasiões recentes, para não falar do passado. Tragédias evitáveis; e se não foram evitadas, muitas vezes, é porque os intransigentes da normalidade, os que rejeitam a lei de Murphy, mas também a das probabilidades e, a mais importante de todas, a lei do bom senso, recusam ouvir as vozes de quem avisa, com fundamento e preocupação. Com razão.

Já escrevi sobre o assunto. Os leitores recordarão os comentários a desvalorizar os alertas, ocasionalmente com sarcasmo, ou pior; pior, claro, são o silêncio e a indiferença, causados naturalmente pela escassa autoridade da minha voz. E por isso, com a devida vénia, aqui ficam algumas ideias retiradas de um extraordinário livro recente de um dos maiores historiadores do século XX, Ian Kershaw. O título português é “À Beira do Abismo”, mas prefiro o original: “To Hell and Back: Europe 1914-1949”.

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Começa com a Grande Guerra, termina com o princípio da construção da União Europeia. Neste artigo, se tiverem a bondade de me acompanhar, tentarei comparar o comparável.

1914, primeira metade: Europa e EUA viviam uma “idade de ouro”. Todos os países “participavam na livre circulação de bens e capitais no quadro de uma economia capitalista interligada e global” (Kershaw). E quase toda a gente confiava na “continuação da estabilidade, da prosperidade” e da paz. E ainda que o caminho para o inferno estivesse já então aberto (começaria a ser percorrido em Agosto), as classes abastadas do Ocidente, as elites europeias, diziam que não era nada e chamavam de mau agouro as poucas vozes que falavam de Abismo.

Vários elementos, diz Kershaw, foram a um tempo causa e consequência da autodestruição europeia; ei-los, em todo o esplendor do seu ressurgimento nos dias de hoje. Ou não?

1. A explosão do nacionalismo étnico-racista, ou “étnico agressivo”, expressão de Kershaw. Promoveram-no a falta de prestígio nacional, a competição económica e os novos Estados-nação a leste, com importantes minorias étnicas, fonte de perturbação. Esse elemento reaparece hoje por toda a Europa sob forma de nacionalismo radical – de extrema-direita – associado a questões étnicas, rejeição da imigração e das comunidades estrangeiras, com uma nova retórica nacionalista proteccionista, oposta à concorrência económica.

2. As exigências irreconciliáveis de revisionismo territorial entre as duas grandes guerras, com a contestação generalizada das fronteiras – agravada pelas alterações decididas em Versalhes após a 1ª Guerra -, estão hoje curiosamente mais localizadas a Ocidente; ligam-se a aspirações nacionalistas seminais – casos de Espanha, RU e Itália, mas não só – e são outra fonte potencial de problemas políticos.

3. O terceiro factor assinalado em “To Hell and back” é a “terrível luta de classes”, de que a revolução bolchevique foi a um tempo mecha e explosivo. E pronto, pensarão os leitores, está quebrada a analogia. Não me parece, pois em todos os fenómenos eleitorais inesperados recentes, com súbita proeminência de líderes e partidos extremistas, radicais ou fora do sistema (Brexit, Áustria, Islândia, EUA, etc.), há um elemento comum: a rejeição do sistema, dos partidos e políticos que o compõem. É a revolta das populações rurais contra as elites urbanas, dos não possidentes contra os beneficiários do sistema; o tempo é de conflitualidade, e um espaço público virtual violento, sobretudo na web, alimenta propostas políticas inconsistentes e radicais. A terrível luta de classes ”vintecentista” não difere muito da nova luta entre os detentores do poder e o crescente número de cidadãos, “empoderados” pelo acesso ao espaço público virtual, aspirando a esse poder.

4. A crise prolongada do capitalismo no primeiro quartel do século XX. Basta evocar 2008 e a crise ainda vivida para demonstrar mais uma flagrante e assustadora semelhança entre os tempos do fim de há cem anos e estes tempos de chumbo que vivemos.

Não sou catastrofista. Acredito que ainda podemos evitar a tragédia. “Vejo uma catástrofe maior do que o poder do homem a pairar sobre a Europa” disse, segundo o historiador, o chanceler alemão Theobald von Bethmann-Hollweg. “A grande catástrofe seminal” do século XX, como lhe chamou George Kennan, serviu à Europa e aos EUA para mudar, criando um sistema económico global baseado na regulação e na supervisão; a Europa uniu-se em torno de um mercado e de princípios comuns; e o Ocidente protegeu-se através de uma capacidade de defesa na NATO. Até o Mundo na sua inteireza se associou numa organização comum, frágil mas fundamental para tratar em conjunto os problemas globais (a ONU, claro).

Pois de repente estão em causa a liberdade de livre comércio, livre circulação e livre estabelecimento regulados (ie. globalização); a UE corre riscos de fragmentação; a NATO é posta em causa; e a ONU volta a ser irrelevante. Já vimos este filme, há algumas décadas (eram outros os actores e as instituições, claro, mas na essência não foi muito diferente).

Será possível que os homens e mulheres do Ocidente não tenham aprendido a lição? Que aceitem tranquilamente o regresso dos espectros, a emergência das ideologias da morte, a destruição ou menorização da liberdade e dos princípios a que chamaram seus e acarinharam como a quintessência do progresso e da civilização? Resistir é possível, evitar o regresso ao passado é possível, lutar contra a demagogia, o populismo e a estupidez do racismo, da xenofobia e do nacionalismo radicais, é possível. E não, não é uma retórica de esquerda, nem de direita, nem de qualquer espectro político, é apenas um grito de alma cível e amante da liberdade, da inteligência e do valor intrínseco da civilização ocidental.

Caros leitores: a resistência começa em cada um de nós. E se o pior suceder, se os extremismos vencerem, se o mal triunfar, resta o conselho do poeta Dylan Thomas: “Não entreis mansamente nessa boa noite/que a idade antiga arda e brade no final do dia/clama, clama, contra a morte da luz”(“Do not go gentle into that good night/ old age should burn and rave at close of day/Rage, rage against the dying of light”).

Para que se ir ao Inferno for inevitável, tenhamos a força de alma que nos permita regressar.