A ululada popularidade do partido Chega nos círculos estivais da moda faz-me recordar a famosa anedota do PREC, do grupo de senhoras residentes da Lapa ou da Estrela que, com roupas caras e golas de peles, vociferavam na célebre manifestação socialista da “Fonte Luminosa”: “Se isto não é o povo, onde é que está o povo?”.

Com efeito, o Chega não é popular, no sentido de uma ampla e transversal pertença castiça, de uma emanação natural e virtuosa do povo/povo. O Chega é tudo menos isso. É popularucho, por um lado, no sentido de que dá voz a violentas reivindicações de protesto tradicionais, do tipo do taxista encostado à porta do carro, da pena de morte porque sim, à castração química, porque não. Do “pôr os ciganos no seu lugar”, ao discurso moralista do “eles comem tudo”, que tanto serve para verberar a corrupção (realmente, menos no futebol…), como a redução do número dos deputados à balda.

Mas ao mesmíssimo tempo, deploravelmente, não passa de uma pura encenação em curva, desenhada por uma certa elite da direita dos interesses, descabelada, cínica, manipuladora, mediática e com muito dinheiro. Digna dos donos disto tudo. Uma direita dos interesses cujo mordido e fatal ADN vai a par de um histórico e mesmo trágico desinteresse ético e cívico, v.g, no que à política e bem comum diz respeito.

O Chega, na verdade, é um puro produto de marketing, pensado, gerido e ” vendido” de forma profissional. Caro, portanto. Não nasceu na Rua da Betesga, nas periferias sem futuro e abandonadas a si próprias, mas nalgum escritório citadino de alta roda, com as câmaras de TV sempre muito perto. Uma narrativa demasiado velha em Portugal, onde a espontaneidade virtuosa, maxime na vida política, é rara como dobrões de ouro e morreu solteira. Vai nessa linha, obviamente, o número de casino da falsa candidatura de Ventura à Presidência da República. Financeiramente caríssimo, pois então.

Mas trata-se de uma projecção feita de modo clínico, a marcar territórios de voto. Sem um programa ou projecto social e politicamente válidos, senão absoluto jogo de bastidores. Uma farsa que deve ser denunciada e combatida, porque o povo que trabalha, sofre, é explorado e ainda acredita não merece logros, nem a sua vida confundida com tácticas televisivas de apanha a bola.

Nesta perspectiva, ainda que com todos os tiques e defeitos do candidato, a par das suas grandes qualidades, a (re) candidatura de Marcelo é transversal e verdadeira. Popular nesse bom sentido último de olhar ao bem comum , e portanto, a única que pode servir (muito) melhor o interesse de fundo de Portugal e dos portugueses. Que já não podem com a geringonça e que a querem, finalmente, escrutinado e fiscalizada. Uma empreitada para um Presidente a sério.