David Cameron ganhou uma maioria inesperada há duas semanas, mas as celebrações já acabaram. Na Cimeira de Riga desta semana, começou a renegociar com os seus parceiros europeus a relação do Reino Unido com a Europa. O referendo é agora inevitável e deverá ser mesmo antecipado para a primeira metade do próximo ano. Mas os riscos serão enormes e Cameron poderá perder tudo. O primeiro-ministro está entre, de um lado, uma minoria conservadora que nunca ficará satisfeita com um acordo e votará em qualquer caso contra a Europa.  Do outro lado, estão os seus parceiros europeus que nunca darão tudo o que Londres pedir. E o compromisso será muito difícil, não vale a pena ter ilusões.

Com o referendo, Cameron arrisca-se a perder a sua maioria – e se perder o referendo, terá que se demitir. Mas os riscos são ainda maiores. Arrisca-se igualmente a perder o Reino Unido. Se o referendo resultar no abandono da União Europeia, a Escócia organizará um novo referendo sobre a independência. Como afirmaram os responsáveis do Partido Nacionalista Escocês, “havendo uma mudança significativa da natureza constitucional do Reino Unido” (leia-se, abandono da União Europeia), “será legítimo organizar um novo referendo”. E poderá não ser apenas a Escócia. Convém recordar que os partidos unionistas da Irlanda do Norte são fortemente pró-europeus. Conseguirá o governo conservador, com o referendo, tudo aquilo que os “Tories” sempre combateram o fim do Reino Unido, a independência da Escócia e a unidade da Irlanda?

A partir desta questão, entende-se tudo o que Cameron está a pedir à Europa. O Primeiro Ministro britânico, pretende que os seus parceiros europeus o ajudam a lidar com a minoria anti-europeia do seu partido e, simultaneamente, a garantir a unidade britânica. A possibilidade de vencer o referendo depende inteiramente da boa vontade dos outros governos europeus para chegarem a um acordo satisfatório. E é aqui que residem as dificuldades. Nenhum país pretende que o Reino Unido abandone a União Europeia, mas por que razão irão os governos europeus criar mais problemas internos para ajudar Cameron a resolver um sarilho que ele criou – ou que não foi capaz de solucionar?

A maioria dos líderes europeus está à frente de partidos onde existem sectores que também não gostam da União Europeia. Imaginem que Hollande pretenderia renegociar a relação da França com a União Europeia porque muitos socialistas não concordam com o mercado único ou com o Euro? E assim sucessivamente em muitos outros países. Seria a consagração da uma União Europeia a la carte. Por outras palavras, a fragmentação da Europa.

O caminho para um acordo entre Londres e as outras capitais europeias será muito mais difícil e complicado do que se julga. Tudo isto pode acabar mal, quer para o Reino Unido, como para a Europa. É extraordinário como Cameron arrisca tudo por causa de uma questão – a Europa – que aparece em décimo lugar nas prioridades da maioria dos britânicos.