O dr. Costa aproveitou a remodelação do governo para estreitar laços familiares. No Twitter, Nuno Sá (que desconheço em absoluto) deu-se à trabalheira de elaborar um gráfico com as relações de parentesco entre governantes nacionais e regionais, deputados e funcionários da câmara de Lisboa. No final, exausto após considerável gatafunhada de nomes e setas, confessou já ter desistido de actualizar o gatafunho e já se ter perdido sobre quem é quem. O prof. Marcelo, que no fundo aceita tudo, acha que tamanha promiscuidade advém do “mérito próprio” dos envolvidos. É uma perspectiva. Uma segunda perspectiva entende que o favoritismo é uma miséria típica dos trópicos, um descaramento digno da Coreia do Norte ou uma garantia de fidelidade habitual na Camorra. A minha visão é como sempre intermédia e moderada.

Basta contemplar as carreiras, as proezas, as caras e, haja misericórdia, o aspecto das personagens em causa. Se fizerem muita questão, contemplem os resultados. É evidente que o governo – e respectivas metástases – é uma calamidade, uma anedota sem graça que, à conta da inépcia, da manha e de ambições pelintras, não tarda devolverá o que sobrar do país aos braços do FMI ou, se os alemães se aborrecerem, de Deus nosso senhor. Para qualquer pessoa medianamente civilizada, pertencer a semelhante bando constitui uma mancha no currículo insusceptível de apagar através de uma lixa tipo 40. Seria um embaraço, uma fraude íntima, uma traição à consciência: ninguém com um pingo de vergonha aceitaria o convite. Por coincidência, sucede que o dr. Costa também jamais convidaria alguém assim, preferindo distribuir o “prestígio” (digamos) por irrelevâncias de escassos princípios, as exactas irrelevâncias que sentaria para jantar lá na sala – na presunção de que a habilidade do primeiro-ministro para negócios imobiliários lhe permite uma mesa do tamanho de um hangar.

E isso é bom ou mau? Ambas as coisas. É mau porque não é bom estarmos nas mãos de gente tão deplorável. É bom porque não é mau que a peçonha fique limitada a uns poucos eleitos (ou nomeados, para sermos rigorosos). Na sua infinita – e assaz discutível – sabedoria, o povo explica as vantagens de duas cavalgaduras se juntarem para uma vida em comum: assim só se estraga uma casa. Se ainda não foi possível restringir o executivo aos parentes consanguíneos ou afins do dr. Costa, eventualidade que eu defenderia com empenho, a verdade é que se realizaram amplos progressos no sector do nepotismo. Neste momento, o enxovalho de partilhar o ranço do governo só estraga seis ou sete casas. Claro que estas serão responsáveis por estragar, por diferentes vias, os milhões de casas restantes. Mas esse é assunto com o qual os portugueses estão, ou deviam estar, familiarizados.

Notas de rodapé

1. Em entrevista à conhecida publicação Azul-Ericeira Mag, o conhecido “eng.” Sócrates discorre acerca da terra que recentemente adoptou como sua: “Eu gosto deste mar bravo, forte da Ericeira. Há quem prefira os mares mais calmos e quentes, o que não é a minha preferência. Eu gosto dos mares fortes, agitados, ameaçadores! Não tomei ainda banho neste mar, mas gosto da Ericeira nos dias de Inverno”. Afirmou o ainda mestre em Ciência Política que a vila convida à “introspecção, à reflexão, ao passeio e à contemplação”. Deste paraíso, onde “introspecta”, reflecte, passeia e contempla, o ex-arquitecto (estilo contemporâneo) só lamenta “alguns exageros arquitetónicos que foram cometidos nas décadas de 80 e 90” que “não são de muito bom gosto”. No geral, porém, o popular escritor garante que aquilo está repleto de “identidade” e de “sentadas nos bancos a lerem livros e a olharem para o mar”, proezas dificílimas de realizar em simultâneo e propiciadoras de uma “fuga”, rumo a “um certo equilíbrio interior e a convivência connosco próprios”. E tudo isto “por acaso”, jura o pioneiro das ventoinhas em Portugal: “Vim porque o meu primo tinha aqui uma casa desabitada e me convidou a vir viver para aqui. E eu aceitei. É uma boa casa, aprazível”. O primo, que recebeu a casa de um empresário angolano também arguido na Operação Marquês, “é muito querido”. Mas não tanto quanto o “eng.” Sócrates.

2. Morreu Arnaldo de Matos. Certos democratas achavam-lhe graça, sobretudo desde que o sujeito desatou a disparar insultos para os antigos camaradas ou para os eternos concorrentes das fascinantes catacumbas marxistas. Eu não. O tom burlesco e desprendido não escondia, muito pelo contrário, o que ali estava: um fanático que, se pudesse, despacharia um mundo de “inimigos” a tiro – ou método pior. Na hora da morte, o prof. Marcelo chamou-lhe “um defensor ardente da liberdade”. Por acaso, era exactamente o oposto: como de costume, o prof. Marcelo falhou por pouco.