Salvo porventura a história da formação da «frente popular» que começou a ser preparada algumas semanas antes das eleições de 2015, a fim de tomar conta do governo caso a coligação PSD+CDS não tivesse a maioria absoluta, a história mais mal contada do regime democrático português é a da Caixa Geral de Depósitos. Se fossemos a ver, essa história começou mal e, habitualmente, o que torto nasce tarde ou nunca se endireita. A verdade é que a história começa com a estatização da banca no 11 de Março de ’75, na qual o sindicato dos bancários teve papel decisivo. Depois das reprivatizações dos anos 90, a CGD tornou-se o bastião da socialização da economia – promovida pelo PCP, controlada pelos sindicatos e aplaudida pelos grupúsculos esquerdistas – ficando para sempre na dependência do Estado, o que significou na prática a sua governamentalização e, a partir de certa altura, pura e simplesmente, a sua partidarização.

Foi assim que se chegou, no tempo de Sócrates, à transformação da CGD em «banca privada» dos clientes do PS. Aquilo a que pudicamente hoje se chama as «imparidades» da CGD são os milhares de milhões de euros literalmente oferecidos a uma escassa clientela de alegados grupos económicos, desde a Leda de Leiria ao Berardo do CCB, que nunca tencionaram pagar os calotes ou que deixaram de ser capazes de o fazer quando foram atingidos pela crise de endividamento que eles próprios promoveram – PS, CGD e os seus clientes – e que a recessão mundial de 2007 engoliu para sempre.

Muito antes disso, porém, o «controle sindical» havia já feito da CGD um monstro burocrático que o país pagava desde que se inventou o «crédito bonificado» para salvar os especuladores imobiliários e os construtores civis, criando sucessivas «bolhas» desde o 25 de Abril, como aquelas que levaram às bancarrotas de 1978, 1983-85 e 2011. A única desculpa para o papel deletério que o PS desempenhou nesse conluio com os sindicatos e nessa conspiração contra os «pagantes» é que o PSD e o CDS não se portaram muito melhor!

O que os mais velhos recordam, quando Cavaco chegou ao poder em 1985, é que os funcionários do Estado e os reformados da Caixa Geral de Aposentações, outro feudo do chamado «sector público», eram todos pagos em cheque pela CGD, com um dia de dispensa para ir receber o ordenado… Que maravilha! Só mais tarde, com a maioria absoluta de Cavaco, é que os funcionários foram autorizados a transferir os pagamentos recebidos da CGD para outros bancos… mas mediante uma percentagem que ficava para a benemérita instituição.

Várias décadas mais tarde, fui pessoalmente obrigado a reabrir conta na CGD a fim de receber a pensão desse outro feudo do «sector público» que é a Caixa Geral de Aposentações, podendo todavia transferir a reforma para o banco que quisesse… mediante óbolo aos estimáveis funcionários das beneméritas instituições públicas! Não foi há tantos anos como isso: foi desse modo que o corporativismo estatal salazarista se perpetuo para gáudio do sindicato dos bancários e para apoio clientelar aos sucessivos governos!

Finalmente, depois da remota esperança que o país chegou a acalentar de que a vetusta instituição corporativa da CGD iria ser, porventura, vendida à privada, a fim de aliviar as dívidas impagáveis dos cúmplices de Sócrates, o inopinado acesso da «frente popular» ao poder mudou tudo. Além da TAP e das dezenas de outras empresas-ditas-públicas, cuja dívida não parou de aumentar acima de 32 mil milhões de euros há seis meses atrás, ficámos também a saber que a CGD – esse «mealheiro» do PS – iria ser «revertida» em favor dos sindicatos e do governo, pela módica soma de 5.000 e muitos milhões de euros, para mais e não para menos, a pagar pelos contribuintes portugueses como de costume. Para ter a certeza de que o poder dos sindicatos não seria posto em causa, já foram previstas muitas centenas de milhões de euros a fim de compensar o sempre adiado encerramento de algumas sucursais da Caixa e do despedimento dos respectivos funcionários!

Desde então para cá, esta história mal contada perdeu qualquer vislumbre de verosimilhança. Sucederam-se convites milionários a milagrosos banqueiros da «privada» que iriam resgatar a CGD dos seus antigos vícios clientelísticos mas depressa o primeiro-ministro e os seus acólitos traíram as expectativas dos banqueiros, abandonando-os às feras esquerdistas coligadas com a «direita». Entretanto, vão buscar dinheiro não se sabe onde para calar os «lesados do antigo BES», quando já se sabe que a venda do «Novo Banco» aos especuladores internacionais não pagará sequer aquilo que o chamado «fundo de resolução» lá enterrou: qualquer coisa como 5 mil milhões…

Para culminar o inenarrável chorrilho de invencionices, a «frente popular» esqueceu tudo o que havia dito de pior acerca do Dr. Paulo Macedo, antigo gestor do Fisco e ministro da Saúde do governo da crise, coberto de insultos pela auto-designada esquerda, a fim de fazer dele o novo salvador da CGD… Confesso que uma história tão mal contada como esta não me esclarece quanto aos motivos que levaram o antigo ministro da «direita» a aceitar este presente envenenado, mas parece-me improvável que aquilo que começou tão mal, há tantos anos, ainda venha a acabar bem…