Começou no mês de outubro. Alguns dias frescos começaram a despontar. Pegamos, contrariados, alguns casaquinhos leves. Talvez um lenço no pescoço também fosse oportuno. Mas algo dentro de nós ainda dizia “imagine, até ontem ainda era agosto, impossível já ser a hora de agasalhar o colo, não é nada além de um alarme falso, podemos sair de manga curta”.

Alguns griparam. Outros amanheceram com dor de garganta. Outros com o nariz escorrendo. Havia um solzinho que ainda nos convencia de que o frio estava razoavelmente distante. Mas não estava. Outubro foi passando com um estranho aspecto chuvoso e, muitos de nós, seguimos insistindo na canela de fora ou no sapato sem meia.

Mas quando chega novembro, já aprendi que “ou vai, ou racha”. Winter is coming, como diria John Snow com seu ar de pesar. Muitas almas ainda gritam um discurso de esperança: “calma aí, o inverno só começa em dezembro, ainda não precisamos tirar as pantufas do armário, muito menos as malhas de lã. Botas, nem se fala. Bastam uns tênis. E aquele lenço no pescoço que nos negamos a usar em outubro é suficiente agora. Nada de cachecol, pelo menos até a semana do natal.”

Almas traiçoeiras, essas. Foi assim que eu peguei uma das piores gripes da minha vida, no ano passado, quando, num domingo ensolarado saí para almoçar com um casaco leve, que se revelou tão eficiente contra o vento frio quanto uma saída de praia feita de crochê. Nunca mais caio numa cilada dessas. O preço a pagar acaba por ser alto demais. Não estou disposta.

E essa troca de guarda roupa, de roupa de cama e de pijama do verão para o inverno é realmente um pouco dramática. É quase como uma derrota: baixar as armas e assumir que não há mais nada que possamos fazer. E, honestamente, o inverno até tem seu charme. As castanhas quentinhas, as luzes natalinas. O problema é a sua duração. É admitir que as sandálias que são confinadas ao guarda-roupa em outubro, só voltarão a ver a cor das ruas em maio, com algum otimismo.

Não, definitivamente não é fácil trocar o chapéu de sol pelo chapéu de chuva (ou, como se diz no Brasil, trocar o guarda sol pelo guarda chuva). Também não é propriamente agradável trocar a cerveja gelada por um chá de camomila. Mas, tudo bem. Ainda bem que a vida é cíclica.

Admitamos que o inverno já chegou. Sim, ainda é outono. Mas o frio já está aqui. Só não admite quem não quer. Ou quem está disposto a pegar uma daquelas tenebrosas gripes que duram 15 dias. Já passei dessa fase. Que sejam bem-vindos os roupões, os aquecedores, as sopas e as meias de lã. Tem muita gente no mundo que daria tudo para ter uns desses. Não sejamos assim tão mal agradecidos.