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Emmanuel Macron

A Rússia não deve servir para desresponsabilizar dirigentes franceses /premium

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Estes acontecimentos são mais do que uma prenda natalícia para o regime de Putin, mas na sua origem está a incapacidade de os dirigentes dos países democráticos de dialogarem com a sociedade

Afirmar que é o Kremlin que está por detrás dos “coletes amarelos” significa desresponsabilizar os dirigentes franceses da grave crise social e política que o país atravessa, mas, por outro lado, é perigoso não querer ver que Putin pretende tirar proveitos dos confrontos em França.

As suspeitas de que Moscovo poderá estar na origem das desordens em Paris e noutras cidades francesas foram levantadas, nomeadamente, pelos serviços secretos ucranianos (SBU) com base em fotografias onde se vêm dois dos manifestantes franceses com uma bandeira da República Popular de Donetsk, região separatista do Leste da Ucrânia que é apoiada pelo Kremlin. Segundo Kiev, esses franceses desenvolvem, há muito tempo, actividades a favor dos separatistas pró-russos.

Depois, voltou-se a falar da alegada utilização das redes sociais por parte do regime russo para atiçar e radicalizar o movimento dos “coletes amarelos”. Jean-Yves Le Drian, ministro dos Negócios Estrangeiros francês, comentou essas suspeitas com cuidado: “Estou ao corrente desses boatos… Esperemos pelos resultados da investigação. Não vou julgar enquanto não existirem factos confirmados”.

É sabido que o regime de Vladimir Putin tem excelentes relações e, nalguns casos, financia forças europeias de extrema-direita, nomeadamente a Frente Nacional de Marine Le Pen, e isto tem várias explicações.

Se analisarmos bem as práticas e programas políticos do Kremlin e da extrema-direita, elas muito semelhantes, tendo como traços comuns, por exemplo, o nacionalismo, a xenofobia, etc.

(É verdade que Vladimir Putin é popular também entre a extrema-esquerda, nomeadamente no Partido Comunista Português, mas isso, além do nacionalismo russo já citado, deve-se ao facto de os comunistas verem nele um “anti-imperialista” e “antifascista”, um aliado na destruição da União Europeia, um apoiante dos regimes socialistas de Cuba, Venezuela, Nicarágua, etc.).

Quanto aos financiamentos, Marine Le Pen não se esforçou muito para os esconder.

E no que respeita à utilização das redes sociais pelos serviços secretos russos com vista a imiscuir-se nos assuntos externos de outros países, esta acusação já não é nova e deveria merecer muita atenção.

Dito isto, seria, porém, infantil pensar que o Kremlin se expusesse abertamente na organização das manifestações que começaram com protestos e reivindicações justas em França, mas que ficaram irremediavelmente manchados pela destruição e pilhagem de cafés, restaurantes, lojas, bancos, etc. Nem o Arco do Triunfo escapou…

Estes acontecimentos e o seu alastramento a outros países da União Europeia são mais do que uma prenda natalícia para o regime de Putin, mas na sua origem está a incapacidade de os dirigentes dos países democráticos de dialogarem com a sociedade e não se preocuparem com o “entupimento” dos canais de comunicação civilizada entre o poder e os cidadãos.

Não devemos ter ilusões de que o enfraquecimento e a desintegração da União Europeia são dos objectivos prioritários da política externa russa, embora considero tratar-se de um grave erro estratégico da parte do Kremlin. Por isso, os dirigentes da UE têm de estar atentos às manobras de Putin com vista a conseguir os seus fins, mas, principalmente, dar uma nova vida à integração europeia, que tenha em conta as necessidades e anseios dos cidadãos e, desse modo, trave o passo a populismos extremismos..

As utopias totalitárias, que tantas mortes provocaram no século XX, voltam a bater-nos à porta e toda a atenção é pouca. Por isso, não nos deixemos levar, por exemplo, pela cantiga de que o fascismo, nazismo e comunismo são “mais civilizados”, “mais modernos”, “mais higiénicos” em termos de forma de realização do poder. Não serão.

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