Segundo Nietzsche, «mais vale fazer mal do que pensar abjetamente». É sempre o pensamento que está na génese do mal que atenta contra a condição humana, das suas manifestações latentes às mais severas. Daí o filósofo ter transformado as preocupações morais na essência do seu pensamento.

Seria desafiante imaginar Nietzsche na atualidade, um tempo em que o abjeto moral, e o abjeto intelectual que dele deriva, tomaram conta de instituições de referência e fazem gala em se expor no espaço público.

Tais considerações resultam da leitura de um texto sintetizado num conjunto de interrogações.

O que provoca tanto desconforto perante o mero pronúncio das palavras ‘colonialismo, escravatura, racismo’? Porquê tanta dificuldade em olhar para a história com sentido crítico? Esperavam o quê? Que os descendentes dos povos escravizados e colonizados adoptassem sem pestanejar uma narrativa que não só não reflecte a sua experiência e memória colectivas, como silencia e invisibiliza a sua história?

O detalhe da autoria da frase e texto não é relevante, tendo em conta que os argumentos expostos constituem a síntese mais-que-perfeita do padrão mental de sociedades que se deixam guiar pela trilogia moral progressista, Colonialismo, Escravatura e Racismo. Trata-se do Cavalo de Troia do Ocidente apontado ao aniquilamento das réstias dos fundamentos do conservadorismo, em tempos simbolizado por Salazar na trilogia Deus, Pátria e Família.

Os grandes referentes morais que modelam as nossas mentes, ou meta referentes morais, aqueles dos quais derivam as trilogias em causa e demais valores que orientam o quotidiano dos indivíduos, resumem-se ao confronto entre a autorresponsabilidade e a vitimização, uma e outra fundadas em pressupostos históricos, culturais, identitários, sociais e geográficos distintos. Importa considerar uma das teses de Jordan Peterson, a que sublinha que as sociedades que descuram o absoluto moral estão condenadas à miséria e, a seu tempo, à dissolução.

Significa que quando somos confrontados com grandes referentes que orientam a ação humana cujos pressupostos, significados e consequências são antagónicos, só poderá existir um lado certo e é apenas esse que possui valor moral. O lado antagónico será necessariamente o lado do Mal. Ou seja, a orientação moral da ação humana não se guia pelo relativo.

A frase em análise é claríssima na hipervalorização da (autor)responsabilidade dos povos ocidentais. Tal postura moral normativa não instigaria patologias sociais se o seu conteúdo não impusesse, necessariamente, o inverso aos povos não-ocidentais. Para centro-americanos, sul-americanos, asiáticos ou africanos, assim como para as minorias das diásporas que deles derivam, sobra apenas a radicalização da orientação moral inversa, a da vitimização.

Será difícil encontrar um presente moral mais envenenado desde que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso. A instabilidade social e política, a incapacidade de se afastarem da miséria e da criminalidade ou, na menos perversa das possibilidades, a submissão dos povos a ditaduras são tanto mais acentuadas quanto mais as identidades não-ocidentais têm sido pressionadas a aderir aos valores morais que a elite intelectual e académica progressista e esquerdista lhes impõem a partir do Ocidente.

A trilogia moral progressista, Colonialismo, Escravatura e Racismo, constitui o símbolo do moral e intelectualmente abjeto no sentido nietzschiano da expressão. Nem é difícil comprová-lo.

Começo pela palavra-chave Colonialismo. Qualquer conceito apenas será moral e intelectualmente válido se possuir validade universal, isto é, quando for aplicável a tempos, espaços e contextos sociais distintos de forma a garantir a unidade do género humano. Acontece justamente o contrário quando se recorre ao conceito de colonização para caracterizar a presença romana ou árabe na Europa, porém à medida que os europeus transitam de colonizados a colonizadores, e se avança para o século XX, o mesmo tipo de fenómeno histórico e social passa a ser adjetivado com o «ismo», de colonialismo.

Do nada, sai da cartola um crime contra a humanidade apenas porque os sujeitos históricos, e espaços territoriais aos quais o conceito se aplica, mudam. Como qualquer crápula hábil em recorrer a um bom advogado para extorquir uma indemnização em nome da sua vitimização existencial, é isso que está em causa na palava colonialismo. Recusá-la liminarmente é um princípio básico de dignidade moral e lucidez intelectual.

A segunda palavra-chave da trilogia progressista é Escravatura. Ao contrário da anterior, em si a palavra possui uma forte carga moral. Todavia, a moral transfigura-se no seu contrário quando o conteúdo da palavra fica limitado a uma arma mental apontada à culpabilização dos ocidentais (brancos) e à vitimização dos africanos (negros). Tal propósito é claríssimo na frase e texto citados.

Além dos mínimos óbvios – como não terem sido os europeus os inventores da escravatura mas o que puderam termo à prática, as identidades brancas não terem sido historicamente imunes à condição da escravatura ou a omissão das pesadas responsabilidades dos árabes –, entre outros argumentos que João Pedro Marques tem clarificado neste jornal, falta acrescentar dois.

Por um lado, a associação entre negro e escravo não é um fenómeno de África. Veio de fora para dentro do continente. Foi nas Américas que tal associação foi historicamente sedimentada. Os negros feitos escravos foram aqueles que saíram de África, sendo que os que ficaram, ao menos em parte, não ignoram terem sido responsáveis ou, no mínimo, coniventes com a transação violenta de outros africanos negros como eles.

Tal equivale a pais que vendem os filhos. O problema é o de nos tentarem convencer que, num trauma moral dessa dimensão, o filho vendido como escravo fica limitado a incompatibilizar-se com o comprador e, na sua eterna inocência, lamentará a desgraça do seu querido papá e da sua adorada mamã que lucraram com a transação permanecendo no lar. A interpretação da escravatura imposta pelas diásporas negras das Américas e da Europa, tuteladas pelos ocidentais progressistas, tem suprimido parte essencial dos pressupostos morais do fenómeno, razão para o seu prazo de validade se ter esgotado.

O meu longo trabalho de campo em Moçambique, entre 1997 e 2015, nunca me permitiu atribuir relevância ao fenómeno da escravatura quando concebido de dentro para fora do continente africano.

Por outro lado, contra as lógicas do estado tradicional africano em que o poder incidia sobre as pessoas, e apenas de modo indireto sobre o território (daí não se ter consolidado a ideia de fronteira territorial entre os africanos, isto é, na sua tradição o centro geográfico do poder poderia mover-se consoante a mobilidade no espaço do seu titular), a presença efetiva dos europeus em África a partir de finais do século XIX impôs, de fora para dentro, transformações morais e civilizacionais profundas.

Há muitos séculos que os europeus se orientavam pelo princípio do poder ser exercido sobre um território delimitado, o estado territorial centralizado, e apenas de modo indireto sobre as pessoas que nele habitavam. Era assim na Europa cristã desde a Idade Média (séculos V-XV) em que o poder passou a ser fundado na propriedade da terra, uma vez que os cristãos pertenciam a Deus.

Tal rutura na associação entre a noção de condição humana e a ideia de propriedade foi introduzida pelos colonos europeus em África desde finais do século XIX, e apenas a ignorância confunde trabalho forçado e escravatura. Os impactos foram profundos na ultrapassagem da escravatura enquanto fenómeno civilizacional dependente de contextos nos quais a lógica do poder incide diretamente sobre os indivíduos. Em África, a escravatura não teria funcionado como funcionou se tivesse sido incongruente com as lógicas do poder ancestral africano que se mantiveram autónomas, e relativamente estáveis, até ao século XIX.

Em suma, o contacto quotidiano direto entre africanos e europeus, no plano da moral social e em muito por causa da questão da escravatura, acabou por ser muitíssimo favorável ao progresso moral e civilizacional de África.

A última palavra-chave da trilogia progressista é Racismo. Tal como historicamente foi instituído, o racismo foi deixando de existir à medida que fechou o ciclo do nazismo, da discriminação racial formalmente instituída pelos estados ocidentais, da colonização europeia, da Guerra Fria ou do apartheid na África do Sul. O que hoje acontece é como se as pessoas do século XIX tivessem continuado a utilizar a palavra «escravatura» quando o fenómeno se transformou em «racismo», apenas porque o objeto de discriminação negativa continuou a ser o mesmo, os negros. Acontece que as pessoas do tempo de Nietzsche foram bem mais lúcidas do que nós hoje ao ajustaram o conceito ao real então vivido.

Dada a sua inapagável carga histórica, o termo racismo nunca se libertará do pressuposto emotivo e afetivo que transformará o branco sempre em carrasco e o negro sempre em vítima. A rigidez mental desse tipo de conceptualização conduz à perda de capacidade analítica, uma vez que o sentido da vida vivida nunca está em estado de repouso e, com o tempo, por si mesmo o real encarrega-se de desfiliar o rótulo do conteúdo. O problema é o das elites bem-pensantes insistirem em aprisionar o sentido da vida vivida no presente numa fórmula discursiva do passado que substitui o racional pelo místico.

Na dúvida, experimente-se, por hipótese, ser branco na África de Sul ou cristão no Irão. Hoje os conteúdos das relações inter-raciais, inter-religiosas ou interétnicas não se confundem com qualquer passado, pelo que não conseguiremos captar com eficácia e justiça a sua natureza enquanto insistirmos em conceitos anacrónicos, como o do racismo. A recusa deste quando aplicado ao presente (não ao passado) constitui uma pré-condição do regresso dos povos do Ocidente à sanidade mental.

As consequências históricas e sociais da trilogia moral progressista – Colonialismo, Escravatura e Racismo – traduzem-se na imposição às sociedades de orientações morais e intelectuais abjetas quase impossíveis de combater por nos faltar a lucidez e a frontalidade de um Nietzsche. Ler hoje o filósofo oitocentista e, depois, tentarmos compreender o mundo em que vivemos dissipa dúvidas sobre a regressão moral, intelectual e da liberdade no Ocidente. Assustador o suficiente para mudarmos de vida.

Autor de Um século de escombros – Pensar o futuro com os valores morais da Direita (clique na capa para aceder a parte do conteúdo).