Entre tantas travessias, batalhas e confrontos a que Ulisses esteve sujeito enquanto retornava da guerra de Troia, o mais desafiante foi resistir aos encantamentos das Sirens. As Sirens eram mulheres atraentes que seduziam as tripulações, desta forma conduzindo os barcos para as rochas e penhascos que eventualmente os iriam destruir — os cantos das sereias eram ilusões, mas as suas consequências não. A tragédia que assola a Grécia é um pérfido remake, ao estilo neo-realista italiano, dos poemas épicos de Homero.

Numa situação de desgaste e exaustão, tal como a que assolou os combatentes que retornavam a casa, os gregos cederam aos cantos das sereias. Cederam ao populismo demagógico. Cederam às promessas do fim da austeridade. Cederam a um futuro utópico que não requer esforço ou contenção, que não requer sacrifícios, que não requer o estoicismo dos seus antepassados, apenas o dinheiro dos restantes europeus. E sem condições ou obrigações — ou assim cantaram as sereias do Syriza.

E o navio afundou-se. Em menos de 6 meses, a Grécia transitou de uma situação estável em que registava já um tímido, mas crucialmente positivo crescimento económico, assim como um crítico saldo primário orçamental, para o caos económico e social. Multidões de pensionistas à porta dos bancos, que estão fechados. Controlo de capitais, entretanto foragidos. Salários e pensões em risco de não serem pagos. Uma economia paralisada pela incerteza. Tsipras e companhia transformaram o mau no péssimo, mostrando que é sempre possível ficar pior.

É o desfecho deste caso grego que marcará indelevelmente o projecto europeu, mas no sentido oposto ao que tem sido sugerido. A permanência da Grécia na Zona Euro, e não a sua saída, abriria um perigoso precedente com elevado risco moral. Isto é, provaria que o discurso populista, as promessas vãs e a quebra das regras de um projecto comum são ferramentas negociais eficazes. Aberta a caixa de Pandora, o que impediria os restantes países de adoptarem a mesma postura combativa sempre que uma regra não lhes convenha? Provando que é possível por em causa as pedras basilares, o que impediria o Podemos ou a Frente Nacional de as levantar? É na permanência da Grécia na Zona Euro, e não na sua saída, que fica em causa o projecto europeu.

Não tenho particular afinidade pela saída, mas reconheço-lhe o imperativo. A Grécia deverá sair da Zona Euro para que o projecto Europeu, em toda a sua dimensão, não fique irremediavelmente em causa. A saída convém a ambas as partes. Convém aos restantes países, que assim fecham um péssimo precedente que daria legitimidade moral a posições de conflito. Mas convém fundamentalmente à Grécia, que, muito para além do dinheiro e de uma renegociação da dívida, precisa de profundas reformas estruturais que lhe permita recuperar competitividade que perdeu face aos seus pares, e pôr termo ao vício do endividamento. E, infelizmente, é politicamente mais fácil recuperar alguma dessa competitividade com a desvalorização real dos salários e pensões através da subida dos preços e desvalorização cambial do que através de reformas profundas. É mais fácil manter défices orçamentais imprimindo moeda (monetizando-os). É mais fácil baixar os preços através da desvalorização cambial do que através de significativas reformas que tornem as empresas mais eficientes. É mais fácil manter os vícios, o clientelismo, a desorganização e as promessas do que erradicá-los.

Todas estas medidas, que mais não são do que uma austeridade em esteroides, encapotada, que não permite proteger os mais vulneráveis, são, contudo, mais fáceis de aceitar, especialmente quando os gregos já foram seduzidos pela narrativa protonacionalista do «nós contra eles». Mais um canto da sereia que sempre enlevou as populações. A história repete-se. Não por infortúnio, mas por descuido.

Professor da Universidade do Porto, doutorando em economia da saúde