Dr. António Costa, na minha qualidade de português, condição de que não abdico pois aprendi que a naturalidade acontece, mas a decisão de ficar é individual, venho agradecer-lhe o facto de não ter sido selecionado para fazer uma pergunta ao executivo a que preside, no evento que comemora os dois anos geringonciais.

Um agradecimento que, como poderá constatar, não resulta do facto de saber que há muitos portugueses a quem as duas centenas de euros de prémio de participação fazem mais falta do que a mim, malgrado ainda não ter sido ressarcido dos cortes feitos pelo Governo anterior e que V.ª Ex.ª ainda não teve tempo de corrigir. Afinal, o que são dois anos de governação, embora numa conjuntura de vacas gordas, face à herança recebida, e às quase nulas taxas de juro?

É possível que se sinta incomodado com o meu agradecimento e a sua modéstia o leve a recusá-lo. Talvez até, novamente em nome da qualidade anteriormente referida, recuse qualquer responsabilidade no ato e me aconselhe a agradecer à Universidade de Aveiro ou à Aximage Comunicação e Imagem Lda, as duas entidades que, segundo julgo saber, receberam, respetivamente, 36 750 e 19 000 euros para que a realização do evento fosse possível.

Porém, nessa eventualidade, quero dizer-lhe que continua a ser V.ª Ex.ª, Senhor Primeiro-Ministro, o destinatário do meu agradecimento. Passo a explicar porquê.

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Na verdade, foi o Governo a que preside que foi o pai da ideia. Por outro lado, a curiosidade é uma caraterística que me acompanha desde pequeno. Uma mania que a vida se tem encarregado de exponenciar. Por isso, seria para mim um sofrimento ter de optar apenas por uma questão. Afinal, por culpa da curiosidade, há tanta dúvida que me assiste e que, estou certo, só V.ª Ex.ª me poderia esclarecer. Senão vejamos.

Gostaria, por exemplo, de saber os nomes de vários dos seus ministros. É que andam tão desaparecidos que quase só são avistados quando há agitação nas ruas ou os telejornais abrem com catástrofes. Talvez seja por isso que já li ou ouvi dizer que o ministro da Educação do seu Governo tinha sido substituído pelo Presidente de um dos sindicatos de professores.

Por falar em professores, ficaria satisfeito se me explicasse a questão do descongelamento dos escalões e da progressão na carreira. A falta de clareza dos esclarecimentos que ouvi não dava para levar um aluno à oral. Era chumbo garantido. A menos que fosse substituído por passagem administrativa.

E sobre a saúde? Poderia, pelo menos, elucidar-me sobre as razões e os procedimentos a acautelar na deslocalização do Infarmed para o Porto, depois da derrota da candidatura da Invicta – estranha contradição – a sede da Agência Europeia do Medicamento? Como acredito que o caso da legionella ainda estará em fase de inquérito, não o incomodaria com o assunto. Nem sobre o tempo de espera – e de desespero – nos hospitais ou sobre o desinvestimento no Serviço Nacional de Saúde. Um serviço em que só não faltam doentes.

Da mesma forma, não o questionaria sobre a forma como está a evolucionar o processo de reconstrução daquilo que foi devorado pelos incêndios. Deixaria isso para outro dos selecionados que estivesse mais dentro da temática. A exemplo das contas do orçamento ou dos fundos europeus. Ou da sustentabilidade da Segurança Social. São demasiados números e zeros para a minha capacidade. Não quero incomodar o seu otimismo, mas confesso que estou apreensivo.

A nível regional, é claro que não poderia deixar de o interrogar sobre a base das Lajes. É uma matéria que acompanho com perplexidade crescente. Ando confuso porque, no que concerne às contrapartidas dos Estados Unidos, o ministro dos Negócios Estrangeiros diz uma coisa e o Presidente do Governo Regional diz exatamente o contrário. Será que algum deles tem razão neste cor-de-rosa a dois tons?

Açores que lembram o mar. Um ativo que o seu executivo só parece valorizar a nível da retórica. Um absurdo que, diga-se, já vem muito de trás.

Muitas mais seriam as perguntas – as questões são como as cerejas – que lhe teria de fazer. É que, a juntar à curiosidade, há algo que me incomoda de forma atroz: as meias-verdades. Algo em que a sua geringonça se especializou.

Como vê, Dr. António Costa, foi uma sorte eu não ter sido selecionado. Por isso, peço-lhe que aceite os meus agradecimentos.

Professor de Ciência Política