Yourcenar escreveu que a morte, para a matar, precisaria da sua cumplicidade. O Bernardo Sassetti partiu há oito anos sem ter dado o seu consentimento para o esquecimento. Muito pelo contrário, deixou filhas e família, amigos e seguidores, obra e memórias em abundância.

A sua marca permanece ativa e a originalidade arrebatadora com que tocava, compunha, desenhava e fotografava continuam intactas. Diria que o seu génio criativo se revelava na paixão com que se entregava a tudo o que fazia, mas de forma especial aos outros, aos que amava. E transparecia na intensidade com que se dava à música, com que tocava o seu piano e o seu público.

Tinha uma inteligência fulgurante e uma capacidade de abarcar o inabarcável. Acreditava que conseguia chegar a tudo aquilo com que sonhava e vivia na exaltação urgente de fazer acontecer. Muito mais do que as conquistas passadas, interessavam-lhe os projetos do futuro. Sempre projetado para a frente, até na forma como se debruçava sobre as teclas ou o papel, dependendo das horas do dia e da noite. Dotado de uma mente prodigiosa, era exemplar na simplicidade e na humildade, mas também na ética e nos valores com que praticava a sua arte.

O olhar do Bernardo atravessava-nos (continua a atravessar) por ser cheio de curiosidade. Era um olhar que se detinha, que nos via por dentro e se interessava pelo que era nosso. Parava para observar em profundidade, para reparar, para absorver até ao mais ínfimo detalhe. Muitas vezes não fazia comentários, apenas via, ouvia e apreciava. Era muito transparente e conseguíamos perceber as suas impressões e intuições.

Sabemos que todo o universo onde se inscreve a ação humana é incerto e frágil. O Bernardo não escapou à regra e a sua fragilidade tocou-nos para sempre. A sua vida intensa e breve diz-nos muito sobre a nossa própria efemeridade. Nada dura, nada em nós e à nossa volta é eterno, e se até o mármore esculpido pode voltar a ser pedra, e o homem a ser pó, para que serve a existência?

Na ausência e na distância percebem-se melhor certas coisas. Conseguimos ler, nas vidas dos que nos marcaram, que todos nos construímos através de milhões de provas e provações. Vemos, como num espelho, que nos edificamos na incerteza, no pavor e na superação. Fazemo-nos mulheres e homens na adversidade, muito mais do que na facilidade ou nas certezas da felicidade. A lei universal é sempre a da fragilidade e nem sempre se consegue um equilíbrio.

Todos sabemos que não escaparemos da morte, da ausência, do esquecimento, mas há quem eleve a sua existência muito acima do que é mundano e terreno. A vida de cada um desenrola-se entre a imensidade dos nossos erros e a grandeza das nossas realizações, é certo, mas pessoas como o Bernardo atestam mais sobre o esplendor do que sobre a miséria humana.

Num tempo marcado pela cultura da imagem, pelo peso do sucesso e pelo valor do dinheiro, a maior ambição do Bernardo Sassetti parecia ser a de estar à altura de responder à sua demanda interior. Como se entre ele e o seu público existisse sempre uma plateia imaginária onde se sentava um juiz ora brando, ora severo, a quem ele secretamente respondia.

Quem conheceu bem o Bernardo e teve a felicidade de o ter na sua vida continua a ouvir o eco da sua voz e a rir com as suas gargalhadas. Alheava-se facilmente dos barulhos do mundo porque tinha o dom de criar outros sons e fazia-nos descobrir novos patamares. Tinha uma necessidade vital de expandir a sua existência e a dos que o rodeavam. Passava horas infinitas a compor, a arranjar, a tocar, a desenhar e a pintar.

Queria sentir-se inteiro no mundo, absorver a vida, transformar tudo em música, beleza e luz. Também por isso fotografou muito para lá dos limites possíveis. Deixou um espólio de quatro milhões de fotografias, imagens criteriosamente captadas e catalogadas, pois não fazia nada por acaso.

Consciente de que a felicidade não estava nas coisas materiais, nos bens adquiridos, vivia numa busca incessante por tudo o que vibrava e pulsava. Sentia que o conhecimento libertava a sua mente criativa, mas precisava constantemente de emoções e sensações. Assim como acontece com o ouvido absoluto, também a sua atenção e os seus interesses eram totais.

Desconcertante, era muitas vezes demasiado humano e aparentemente banal, mas todos reconhecemos que era um génio (é infinitamente mais fácil o reconhecimento retroativo). Tinha dons, talentos e poderes maiores do que os da maioria, tocava de forma sublime, dobrava-se sobre o piano, tocava nas teclas, fechava os olhos e elevava a alma ao céu. Graças ao Bernardo Sassetti vimos e ouvimos o que de outras maneiras não poderíamos ver nem ouvir.

Num mundo em que é fácil ficar imune ao espanto, o Bernardo deixava-se fascinar pelos outros, pela natureza e, de forma particularmente amorosa, pela beleza de cada uma das suas filhas. Adorava as perguntas que lhe faziam e as coisas que diziam. Afetuoso, era muito terno com elas e procurava formas extraordinárias e criativas de lhes responder. Sabia que cada uma trazia consigo uma versão mais que perfeita da mãe e do pai. Deslumbrava-se com esta combinação de talentos e divertia-se com a originalidade de cada uma.

A vida e a morte são um grande mistério, um insondável mistério que não nos cabe desvendar, mas apenas atravessar, vivendo com a consciência de que “metade é ciência e a outra metade é fé”, como escreveu Novalis.

Amanhã, o Bernardo faria 50 anos e a Beatriz Batarda vai participar no encerramento das conversas “Eu Cá Tu Lá”, onde se fará uma homenagem simples, mas muito sentida.  A partir das 21:45 todos poderemos assistir em direto a esta conversa entre a Beatriz e o músico Pedro Moreira, moderada pela Matilde Secca, através da página “A Tempo”, no Facebook, ou no Youtube.

Comecei e acabo com uma citação, desta vez de Harold Bloom:

“É difícil viver sem a esperança de um encontro com o extraordinário”. O Bernardo foi e continuará a ser, para mim e para muitos, esse encontro com o extraordinário.