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Férias

As férias da estalajadeira

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A casa encher-se-ia de filhos, netos, cônjuges, namoradas, sobrinhos, parentes e sobretudo os omni-presentes "amigos". É verão, estamos em férias e celebra-se acima de tudo a família.

1. Primeiro foi o caracol do Bordalo. Era grande e pesava, não foi fácil. Quatro braços para o arrastar para porto mais seguro que o jardim, com a casca de cerâmica luzindo ao sol de Julho, tal como pela primeira vez, há anos atrás, olhei um igual, em casa de José Pacheco Pereira, e foi amor à primeira vista (com o caracol).

Seguiu-se a retirada da águia de ferro (comprada nos idos de oitenta a um escultor belga num inextricável misto de paixão pelo Benfica e amor à arte) e depois levou-se a grande cigarra que nunca conseguiu ter formiga por companhia como eu teria ambicionado, porque o escultor (da cigarra) não era afeiçoado a formigas. Com este “habitat sobre relva” devidamente removido, puderam montar-se as balizas, anunciadoras da iminente aterragem dos netos em A-dos-Negros e passar ao acto 2.

Fazendo camas e outras camas que saem por de baixo dessas; trazendo o berço da garagem (há um novo bébé este ano!), verificando tendas e lanternas do acampamento dos mais novos que havia de ter lugar, instalando a rede de vólei no tanque de rega (em boa hora um dia “transformado” em piscina por mor dos bisavós dos netos), enchendo dispensas e frigoríficos até ao tecto (acto sempre falhado porque ambos, por definição, logo “desenchem”.) E, claro, respirando fundo. Muito fundo, antes do mergulho no caos. Mesmo que apetecido, adorável, terno — e claro que é isso tudo — o caos anunciava-se: viria para ficar.

Ou seja, iam, numa palavra, começar as férias. Comigo vestida de “estalajadeira”.

2. A casa encher-se-ia de filhos, netos, cônjuges, namoradas, sobrinhos, parentes e sobretudo os omni-presentes “amigos”, nacionais e estrangeiros, de uns e outros. Sempre sem data fixa de chegada nem de partida, o que desnorteia qualquer pequena, média ou grande dona de casa. (E, por maioria de razão, uma estalajadeira.) Sempre famintos e sempre largando atrás de si um caudal de toalhas de praia, havaianas, mochilas, telemóveis, chaves, iPads, brinquedos avulsos, bóias, livros, revistas, jornais, jogos e outros díspares objectos por vezes também misteriosamente abandonados para todo o sempre, no sitio onde pela primeira vez foram largados (alguns lá jazem até hoje).

Fazem-se e desfazem-se camas a alta velocidade, avança-se com 32 graus centígrados para lavandarias superlotadas quando a máquina de lavar se cansa de vez de engolir tanto turco, tanto lençol, tanta t-shirt; abrem-se e fecham-se estonteantemente frigoríficos, há biberons em lugares insólitos, descobrem-se legos nas banheiras e os depósitos dos nossos carros estão normalmente sempre vazios.

Enfim, arruma-se, corre-se, organiza-se (ingloriamente) o caos.

A Ney, doce baiana a quem tanto devemos, começa a cozinhar incontáveis pastelões de picados, rolos de carne, pastéis e tutti quanti, a ponto de por vezes eu temer que ela própria se transforme num rolo de carne, de tantos fazer. Mas, não fora ela…

Com líquida fluidez, o dinheiro some-se dos bolsos enquanto o tempo (quem diria, em “férias”?…) está sempre em contagem decrescente para ir ao super, à praça, ao aeroporto levar e trazer os membros da tribo, à farmácia, ao parque, aos jornais.

Curiosamente, vive-se em estado de “emoção à flor da pele” e, por razões certamente sazonais, eleva-se com espantosa facilidade o tom de voz: de repente, é como se o grito substituísse o verbo, e a gritaria equivalesse a uma amável conversa familiar. Coisas do ócio, talvez.

É também um tempo onde, mal “abrem as férias”, eu passo automaticamente a ser conhecida por “ninguém”: “Então, ninguém comprou manteiga?” (a frase é normalmente acompanhada pelo virar de sete, doze ou dezassete cabeças na minha direcção); “Ninguém viu que acabou a fruta?”; “Ninguém pode ir ao mercado do peixe hoje?”.

Noutra versões, a estalajadeira também se chama “alguém”: “Alguém pode ir a Lisboa buscar o Vasco que chega de Viena?”; “Alguém traz as meloas da praça?”; “Alguém pode comprar bolas de pingue-pongue?” (Sub-entendido: as outras já “desapareceram”.)

Por aí fora, por aí fora, que é verão, estamos em férias e celebra-se acima de tudo a família, que é coisa séria e prioridade forte. Mas que isso não nos iluda sobre a efectiva alteração da ordem que passou a vigorar nas nossas casas, nem nos faça achar normais os altíssimos decibéis da vozeraria que incessantemente vêm da mesa, dos mergulhos, das (recalcitrantes) idas para o banho dos pequenos, das acaloradas discussões politicas dos grandes.

Acredito que, em maior ou menor grau, muitas mulheres vivem e convivem nas suas férias (?) com este — como dizer? — singular “estado de sitio” e só por essa espécie de “universalidade” o descrevo: quase como uma homenagem, certamente com alta solidariedade.

3. Manda porém a justiça e a seriedade intelectual (e qualquer das outras seriedades, de resto) que se diga que nunca me abalançaria à empreitada que aqui conto não fora a inesgotável capacidade do “patriarca da casa” em participar, tomando parte activa nas coisas, todas as coisas. Tão depressa frequentando assiduamente supermercados, como cozinhando, consertando ou ensinando a colónia balnear em que logo pela manhã se transforma a piscina, a “saltar do cabanão”, supremo feito que origina medalhas de prémios.

Um acolhedor e agregador patriarca, amando a família antes de todas as coisas e percebendo o poderoso significado de um clã familiar unido, como elemento aglutinador de tudo. Percebendo sobretudo como a família pode ser o melhor ponto de partida para filhos e netos poderem levantar voo para a vida. O melhor dos voos.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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