Desculpem: mas eu acho que não nos queremos transformar! Porque queremos “mudar tudo” sem mexer em nada. Porque alimentamos a ideia de que “começar de novo” e começar “do zero” são quase a mesma coisa (o que vicia os dados do jogo e exigiria que qualquer mudança precisasse que morrêssemos para se nascer de novo). Porque aquilo que nos falta em humildade nos sobra em convencimento ou em vaidade. Porque cultivamos a ideia de que a velocidade dos dias não está com contemplações com o tempo que leva a que uma pessoa se transforme. Porque somos medricas e imaginamos que qualquer transformação vem equipada com uma sobretaxa do género: “Para pior, já basta assim”. E porque transformarmo-nos dá trabalho. Demora tempo. Não se faz sem dor. Exige perseverança e tenacidade. E não se faz à margem da dúvida e do medo. Logo, não nos queremos transformar. Ponto!

Ou, talvez melhor, achamos que já não iremos a tempo. Que já “morremos” para isso. De certa forma, reconhecemos que há um “tarde demais” num desejo como esse. Ou assumimos que colocar-se a esperança numa transformação estará ao nível de uma dádiva divina, da intercedência duma ”fada-madrinha” ou duma prenda do Pai Natal. Ou é equiparável a um prémio de lotaria. Mas nada em que valha a pena acreditar! No resto do tempo, falamos do modo como os outros (!) parecem inconsequentes, fazem figuras tristes ou repetem os mesmos erros. Assumimos, nos dias melhores, que precisamos de parar para pensar. No entretanto, quando nos perguntam como vamos, repetimos o mesmo: “Um dia de cada vez”. Ou ficamos pelo “vai-se andando”, que tem parcerias com o tédio e com o enfadonho. Ou, quando nos interpelam sobre uma data, em particular, deitamos mão ao habitual “passou-se…”.

É por isso que uma festa de início do ano tem qualquer coisa de publicidade enganosa. Não que as festas devam ser taxadas como “produtos de luxo”. Não! Uma festa traz a comunhão entre pessoas que parece estar a tornar-se numa “espécie em vias de extinção”. Mas porque um ano novo — que é a única ocasião do ano em que falamos de desejos, por mais que a sua concretização se coloque sobre outrem e nunca seja assumida por nós como uma escolha à boleia da determinação de um “Eu quero!” — parece ser vivido como a oportunidade de pôr o conta-quilómetros a zero. Serve para contar os desejos. Para se abrir uma garrafa de champanhe. Comer as passas, uma a uma, em cima de uma cadeira. Distribuir abraços e beijos. Mais o barulho das luzes. Mas, depois do ritual, a banalidade dos dias volta a ser o que era e as transformações ficam para “outra vida”, claro. Estamos fartos da vida que temos. É o que parece.

E depois?… Há sempre o burnout para justificar as transformações de que fugimos. Não que o trabalho não canse; cansa. Mas serve como desculpa conveniente: falarmos da exaustão que ele nos traz é “fórmula” possível de dizermos, por outras palavras, que a vida nos cansa. E isso é mau!

É por causa deste lado preguiçoso de fugirmos das transformações que as mudanças “descartáveis” estão na ordem do dia. Mudar é uma versão muito minimalista de uma transformação. Muda-se do dia para a noite. Do negativo para o positivo. Das sombras para a luz. Ou do soturno para o optimismo. Mudar funciona como um restyling. Ou como um lifting. Tudo permanece por transformar; mas ninguém nota.

Porque é que resistimos à mudança e faltamos à verdade quando se trata de assumirmos a nossa transformação (que são só o que nos torna mais humanos)? Porque somos um “belo” exemplo de inteligência artificial. Porque imaginamos que as transformações se constroem a sós, ao género de “um homem contra o mundo”. E porque fugimos de pensar. E, no entanto, são as transformações que nos devolvem ao respeito. São as transformações que nos resgatam para o orgulho (que representa uma vitória sobre nós) e nos afastam da vaidade (que é uma “vitória”
sobre os outros). E são as transformações que nos devolvem ao amor. Logo, entre fazer uma festa e propor-se mudar tudo (num registo de “ano novo, vida nova”) ou fazer da próxima quarta-feira “o primeiro dia do resto da sua vida”, ponha mãos à obra e comece por perceber o que lhe falta para que a sua vida tenha “a sua cara”. Abra-se para as “obras”. Comece! Transformar-se leva o seu tempo. Mas nada do que é verdadeiro na vida se constrói de uma hora para a outra. Bom Ano Novo!