Um post de Bernardo Silva este fim-de-semana causou grande celeuma por essa internet fora. Sim, leu bem, um post. Não um golo, ou os três que o português marcou no sábado, mas uma publicação numa rede social. Muitas pessoas sentiram-se ofendidas com o post do jogador português por alegadamente ter uma conotação racista. Na sua página no Twitter, Bernardo Silva colocou uma fotografia do colega de equipa Benjamin Mendy e uma fotografia de um boneco de uma marca de doces, sugerindo que as suas caras eram muito parecidas. Mendy levou a publicação como brincadeira e assim o demonstrou no comentário que fez à fotografia, mas a indignação demonstrada pelos utilizadores na caixa de comentários levou o português a apagar a fotografia, tendo depois comentado no Twitter “Nem posso fazer uma piada com um amigo nos dias de hoje… Estas pessoas…”.

É do conhecimento geral que os dois jogadores são muito amigos e é frequente ambos brincarem um com o outro nas redes sociais. Porque é mesmo isso que eles fazem, brincam, gozam um com o outro, “picam-se”. Porque são amigos. Registemos este facto porque não deve ser menosprezado para se entender esta situação. No post de Bernardo Silva não há maldade nem uma tentativa de inferiorização quer do seu companheiro de equipa, quer da sua etnia. Sou contra todo o tipo de discriminação e inferiorização de qualquer raça, etnia ou religião. Mas, perdoem-me os ofendidos, não é (foi) este o caso. Tratou-se de uma brincadeira inofensiva entre dois amigos.

Infelizmente este é só mais um caso da ditadura do politicamente correto. Porque as pessoas, cada vez mais, se ofendem. Não sei se têm demasiado tempo livre ou se simplesmente querem dar uso ao “microfone” de opiniões que são as redes sociais. Mas esta censura é, acima de tudo, um atentado à liberdade de expressão. O Ricardo Araújo Pereira, pessoa pela qual tenho uma admiração tremenda, diz algo que subscrevo inteiramente. O humorista diz que as pessoas têm o direito de se sentir ofendidas. O problema, diz ele, é que as pessoas acham que têm o direito a não ser ofendidas. E por isso, quando se deparam com algo com que não concordam ou que não gostam, fazem uso do seu “direito” de se sentir ofendidas para crucificar a pessoa em questão e, não poucas vezes, exigir que esta retire o que disse ou apague o seu post, tudo em nome do politicamente correto.

É perigosa, muito perigosa esta submissão da sociedade a uma máscara de justiça e luta pela igualdade quando isso acontece através do silenciamento daquilo que não nos agrada ou que não é o que nós pensamos. Pior ainda quando isto acontece devido a interpretações erradas e, estas sim, verdadeiramente racistas, de uma simples brincadeira entre amigos.

Um exemplo prático. O meu avô paterno era judeu. Por esse motivo, nunca gostei de piadas ou sátiras que fizessem pouco dos judeus, apesar de até saber várias. Isto dá-me o direito de exigir que ninguém faça este tipo de piadas? Não. Porquê? Porque as pessoas têm o direito de satirizar este assunto, tal como qualquer outro, e eu tenho o direito de não gostar. Agora, a minha liberdade não me dá o direito de calar quem pensa ou sente de maneira diferente da minha.

A liberdade de expressão foi algo muito difícil de conquistar, todos sabemos. Não o estraguemos pela simples mesquinhez de não saber lidar com a diferença, ou pior, pela soberba de achar que temos o direito de impor aquilo que se deve ou não dizer. Uma sociedade verdadeiramente democrática e livre jamais se pode submeter a esta ditadura do politicamente correto.

Dito isto, também acho que pessoas com a exposição mediática como a que Bernardo Silva tem, devem medir bem aquilo que dizem publicamente, seja através de que meios for. Uma vez que tudo o que fazem é alvo de escrutínio por parte de quem os segue, a polémica, a insurgência e as pessoas ofendidas estão mesmo ali ao virar da esquina. E, com isto, quase se esqueceram que Bernardo fez um hattrick neste fim-de-semana. Trivialidades…