Nestes dias é difícil, se não mesmo impossível até, ouvir falar mal de Jorge Jesus. Goste-se ou não do seu estilo, o treinador português fez algo que era impensável mas possível, difícil mas atingível, épico mas alcançável. Neste momento, seja qual for a cor do seu clube, qualquer português não consegue deixar de admirar e elogiar JJ, assim como de sentir estas conquistas um bocadinho como suas também. A verdade é que Jorge Jesus não é/foi um treinador consensual em Portugal, mas a dimensão do que atingiu no estrangeiro fez elevar bem alto a nossa bandeira, um feito que os portugueses não esquecerão e pelo qual lhe estarão muito gratos.

Sim, nós portugueses tendemos a criticar os nossos quando cá estão mas somos os primeiros a celebrar as suas conquistas fora de portas. Muitos benfiquistas podem ter atravessada a sua saída para o rival da 2ª Circular no verão de 2015, mas não tardaram em demonstrar a alegria e o orgulho pelo que Jorge Jesus conquistou este fim-de-semana. Este fenómeno de patriotismo é transversal a todos os portugueses, creio, encontrando paralelo no caso, por exemplo, de Cristiano Ronaldo. Os mesmos que o criticam por acharem que na seleção não dá tanto como nos clubes, são os mesmos que vibram com os seus feitos nos outros países, os golos, as fintas, os troféus conquistados, no fundo, tudo o que nos faz sentir orgulho em ser português.

Porque, acima de tudo, foi isso que este fim-de-semana trouxe: “devolveu-nos” o orgulho em ser português. Não estou a dizer que esse orgulho não existe dentro de cada um de nós, mas anda demasiadas vezes adormecido numa letargia em que, parafraseando Bruce Wayne em Batman Begins (2005), são necessários exemplos dramáticos para dela sair. Uma pessoa pode ser admirada ou odiada, enaltecida ou esquecida, mas a sua obra não é passível de ser apagada e é um facto sem argumento contra.

Deus quer, Jesus sonhou, a obra nasce. Festejam os brasileiros, orgulham-se os portugueses. E não é para menos. No sábado, Jorge Jesus ofereceu ao Flamengo um troféu que lhe fugia há 38 anos, conquistando a Copa Libertadores, a Liga dos Campeões do continente sul-americano, com o golo da vitória a surgir aos 92’, um minuto anteriormente fatídico para o treinador. Menos de 24 horas depois, conquistou o Brasileirão sem precisar de entrar em campo, após a derrota do Palmeiras frente ao Grémio.

Mas por que é que isto nos toca tanto? Por que razão nós portugueses vibrámos tanto com estas duas conquistas? Porque somos pessimistas crónicos, desconfiamos do nosso valor, da nossa capacidade e, não raras vezes, tememos assumir a dimensão do nosso pequeno país. Porque, de pequeno, só mesmo a dimensão geográfica e em termos relativos. O futebol, mais do que outras áreas, pela sua exposição mediática e alcance global, tem permitido elevar a bandeira portuguesa ao mais alto nível e tem-nos dado a todos razões para ter bem vivo o orgulho de ser português.

Quando chegou ao Rio de Janeiro, muitos disseram que Jorge Jesus era “só mais um”. Tem razão o português quando disse que não era só mais um e que o provou a todos, desde os que o criticaram aos que o receberam de braços bem abertos, qual Cristo Redentor. JJ enfrentou muita desconfiança aquando da sua chegada ao Brasil, sobretudo da parte de comentadores desportivos, que posteriormente engoliram as suas palavras e fizeram um mea culpa. E se da final da Libertadores não é preciso avivar a memória de como esta foi resolvida, é importante lembrar que Jesus chegou ao Brasileirão a oito pontos do primeiro lugar e lidera agora com mais 12 pontos, tendo-se tornado no primeiro treinador não brasileiro a vencer o Campeonato Brasileiro.

No Brasil, dizem os “torcedores” que Jesus não tinha um grupo tão bom desde os apóstolos. A Europa chama por Gabigol, Bruno Henrique, De Arrascaeta, Gerson e Arão, assim como o Brasil chama pelos treinadores europeus. Foi assim com José Mourinho em Inglaterra, foi assim com Manuel José em África e será assim, provavelmente, com Jorge Jesus no continente sul-americano, principalmente no Brasil. E isso não é dizer que o treinador brasileiro é incompetente, longe disso, é apenas o afirmar do treinador português num país onde este era visto com desconfiança e até algum desprezo.

Jorge Jesus mudou de continente mas não mudou o seu estilo: obcecado com o trabalho, rigoroso no planeamento, extremamente exigente com os seus jogadores, focado no detalhe numa busca incessante pela perfeição e a ocasional calinada no português, tão identificativa como genuína. Os seus jogadores agradecem-lhe, os seus pares reconhecem-lhe a qualidade, os comentadores metem a viola no saco e os adeptos idolatram-no. Aquele que um dia caiu de joelhos, tem hoje um clube e um país a seus pés. E para nós portugueses, isso só pode ser motivo de orgulho e admiração.

Evoco as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa em junho de 2016, quando recebeu a seleção de futebol antes da partida para França, onde viria a sagrar-se campeã da Europa um mês mais tarde. No momento da despedida, o Presidente da República não pediu à equipa a vitória no Europeu mas sim que os jogadores fossem aquilo que sempre são: os melhores. E é por isso que estou grato a Jorge Jesus. Porque conseguiu, com as suas conquistas deste fim-de-semana, lembrar-nos a todos nós, portugueses, que quando queremos, quando trabalhamos e quando somos persistentes, podemos ser tão bons ou melhores do que todos os outros. Obrigado “mistê” e continue a (re)lembrar-nos do orgulho que é ser português.