A partir da leitura da crónica Lula, a IURD e Bolsonaro: como se ganha e como se perde uma eleição no Brasil (Observador, 06/10/2018) muitos leitores consideraram exagerada esta minha ideia de que a religião é (um)a força política determinante no Brasil. A realidade é esta: a laicidade brasileira (separação entre Estado e religião) existe apenas na teoria (Constituição) e é tema de estudos dos cientistas sociais; na prática ela não existe. Então vejamos.

Desde o século XVI, início da formação do país, o poder político estava centrado na Igreja Católica, através do acordo com o próprio Estado, primeiro monárquico-colonial e depois republicano. A situação de monopólio (político e de salvação das almas) da Igreja Católica muda radicalmente na década de 1980, com a enorme expansão dos movimentos evangélicos pentecostais, nas populosas e empobrecidas áreas metropolitanas, e a entrada maciça no panorama político brasileiro, defendendo uma pauta fortemente conservadora.

Lula é eleito e reeleito presidente do Brasil, em 2002 e 2006, respetivamente, graças ao determinante apoio dos evangélicos e da IURD, em particular. Justamente por causa da aproximação aos evangélicos, Lula começa a perder votos entre os católicos. Na sua estratégia de manutenção do poder na esfera do Partido dos Trabalhadores, em 2008, o presidente Lula toma uma decisão bastante polémica: a assinatura da Concordata entre o Brasil e a Santa Sé/Vaticano, visando justamente recuperar o apoio dos católicos.

Coincidência (ou não), Edir Macedo publica, no mesmo ano da assinatura da Concordata, o livro Plano de Poder: Deus, os cristãos e a política. Utilizando (e abusando de) uma base teológica-bíblica, fala abertamente sobre o plano de poder da sua igreja (IURD) e dos seus aliados evangélicos: governar o Brasil e fundar um ‘projeto de nação’ (evangélica).

É altura de falar da terceira personagem da nossa trilogia: Jair Messias Bolsonaro. Destaco o nome do meio – Messias, ‘o que tem o desígnio de salvador’; neste caso, da nação brasileira.

Enquanto Lula detinha o poder (2002-2016) — através dos seus mandatos e incluindo os da Dilma — Bolsonaro, eleito deputado federal em 1991, praticamente engatinhava na política. Ele torna-se um fenómeno político e mediático somente em 2017, através das redes sociais, principalmente, devido à sua frontalidade (para os opositores, falta de sentido cívico e de Estado), frases ultraconservadoras, contra as minorias (étnico-raciais, sexuais) e atitudes populistas e de extrema-direita, que criaram grandes polémicas e, por isso mesmo, o catapultaram para um patamar mediático mundial nunca visto no contexto brasileiro. No sentido weberiano, assim como Lula e Edir Macedo, Bolsonaro é um líder carismático, capaz de gerar amor ou ódio, mas com capacidade de atrair/influenciar multidões. O atentado sofrido no dia 06 de setembro, em plena campanha política, concretiza o desígnio de messias-mártir; a eleição estava garantida.

Do ponto de vista religioso, Bolsonaro é uma figura dúbia: católico, mas batizado nas águas (em Israel) e casado na Igreja Assembleia de Deus. Com isso, faz o pleno: recebe apoio tanto dos católicos como dos evangélicos, os dois maiores ramos religiosos (cristãos) do Brasil.

Mas qual é a relação de Bolsonaro com a IURD? A partir de 2016, com o processo de impeachment de Dilma, facto aliado aos escândalos de corrupção, envolvendo o próprio Lula (preso em abril deste ano), o PT entra em declínio em todo o país. Desta forma, enfraquecido politicamente, é compreensível que Lula perca o seu poderoso aliado: Edir Macedo. O líder da IURD, seguindo rigorosamente o guião do seu Plano de Poder, na fase final da campanha, abandona Lula e declara publicamente (a 30 de setembro) o seu apoio a Bolsonaro.

Estarei a sobrevalorizar o poder de Edir Macedo? Para se ter uma ideia da importância da IURD hoje, esta igreja possui no Brasil cerca de oito mil templos e dois milhões de fiéis (religiosos e políticos). Para além da igreja, Macedo lidera um enorme complexo empresarial e um vasto império de comunicação social, com destaque para a Rede Record de Televisão. Não podemos esquecer que, no dia 04 de outubro, enquanto decorria o debate na Globo, entre todos os candidatos à eleição para presidente, a Record cedia um espaço precioso para uma entrevista exclusiva, dando a Bolsonaro uma enorme projeção política entre os 147 milhões de eleitores. Conforme realçou a Folha de São Paulo (05/10/2018), a relação Record-Bolsonaro é uma versão brasileira da relação Trump-Fox News (ver também o artigo de Chapola, Venturini e Charleaux, publicado no Nexo Jornal (06/10/2018). Tal vem reforçar a ideia de que Bolsonaro é um decalque de Trump, outro fenómeno das redes sociais e das fake news.

O leitor poderá estar a perguntar: de onde vem o enorme poder político das igrejas evangélicas, em geral, e da IURD, em particular? Muito dinheiro para financiar campanhas (próprias e de aliados) e uma eficiente capacidade de mobilização dos 40 milhões de fiéis — prática denominada de ‘voto de cajado’. A frente parlamentar evangélica em Brasília, que também já oficializou o apoio a Bolsonaro, tem quase a metade dos deputados federais da Câmara e quatro senadores; portanto, um enormíssimo peso político para utilizar como moeda de troca para obter leis favoráveis, cargos em órgãos públicos, verbas, etc.

Conforme os resultados mostram, apesar do forte movimento de mobilização nas redes sociais denominado #EleNão, Bolsonaro ganhou a primeira volta com 46% dos votos – um número esmagador. Agora é esperar pelas estratégias de coligação – na verdade, troca de votos por cargos públicos, nomeadamente ministérios – entre Bolsonaro e Haddad. Tema para mais uma crónica sobre a relação entre religião e política no Brasil…

Professor de Sociologia da Universidade da Beira Interior