Para conhecer um pouco do Brasil, ou ter uma pequena ideia sobre a essência do povo brasileiro, é preciso ler, estudar muito sociologia e antropologia, conhecer (a) história; lamentavelmente, é o que mais faz falta ao Brasil hoje.

Há várias obras que nos ajudam nesta (inglória) tarefa: Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, é uma delas: com base num mito indígena da Amazónia, retrata o ‘anti-herói sem nenhum carácter’, figura folclórica, representante do povo brasileiro, fruto da mistura do branco português com o nativo-indígena e com o negro-africano.

Recomendo vivamente ao ‘Coiso’, seus aliados e eleitores, o estudo das obras que são indispensáveis para se entender e criar um outro Brasil: Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala (1933); Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1936); Caio Prado Júnior, Formação do Brasil Contemporâneo(1942); Celso Furtado, Formação Econômica do Brasil (1959); Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes (1964); Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro (1995); e, para atualizar a leitura, a excelente obra-síntese de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, Brasil: uma biografia (2015).

Como rege a história, a terra onde viria a ser o Brasil foi achada/descoberta/usurpada (depende do ponto de vista) pelos portugueses, no início do século XVI, no contexto dos Grandes Descobrimentos. E o Brasil já nasceu de forma violenta. Desde a primeira missa, celebrada na Bahia, a coroa portuguesa tentou (e quase conseguiu) dizimar os indígenas e — com a valiosa ajuda da Igreja Católica — converter os restantes ao catolicismo. Além da trágica associação entre a Espada e a Cruz, começou a mestiçagem forçada: não só os colonizadores brancos, mas também os padres se deitaram com as índias e fizeram mestiços.

Outro ato vergonhoso e violento: Portugal sozinho foi responsável pela (quase) metade do tráfico mundial de escravos negros para a América. Como mostrou o sociólogo Gilberto Freyre, neste caso, a mestiçagem dava-se na Casa Grande, com o branco-colonizador-coronel deitado na rede com as mulheres negras, as mais bonitas, tiradas à força da Senzala.

Resumindo, o Brasil foi construído desta forma: dominado por uma elite (social, económica e política) branca, violenta, racista, discriminatória, classista e corrupta.

E a famosa tendência para a corrupção? Assim como a mestiçagem – que, ao contrário do que pensa o vice-candidato do Coiso, o General Mourão, é antropologicamente uma coisa boa — a corrupção é também herança dos portugueses, desde o tempo da colonização e fortalecida com a transferência da família real para o Brasil, em 1808, sob a ordem do ‘amigo’ império britânico, para fugir das tropas de Napoleão.

Em 1822, o reino do Brasil torna-se independente, de forma pacífica, sem violência, resultado de uma zanga entre o filho (D. Pedro I) e o pai (D. João VI). Em 1888, os negros escravos foram ‘libertos’; na verdade, expulsos das senzalas e sem nenhum apoio, vão criar/engrossar os bairros miseráveis das grandes cidades. Em 1889, chega a República: o Brasil renova-se politicamente e também etnicamente, com a chegada de imigrantes europeus e asiáticos. Mas mantém os velhos problemas: concentração de riqueza e de poder político nas mãos dos coronéis brancos. Os excluídos são sempre os mesmos: trabalhadores pobres, índios, negros, mestiços e mulheres. Oprimidos, mas, apesar disso, emotivos e alegres.

Saltando alguns momentos históricos — o Estado Novo de Getúlio Vargas (1930-1951), por exemplo — em 1964, o país republicano (mais ou menos) democrático conhece a barbárie da ditadura militar, que dura até 1985. Os militares, homens corruptos, torturaram e mataram sem pudor e consciência, mas tudo isso se tornou invisível por causa da forte censura. Insanamente, é esta tropa que os apoiantes do Coiso, querem de volta — democraticamente, é importante referir.

Com a queda da ditadura, o Brasil torna-se democrático e uma elite política de centro-esquerda assume o poder. A corrupção leva ao impeachment de Collor de Mello, em 1992. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) controla a inflação e melhora a economia.

Começa a era-Lula: um operário, figura do povo (macunaíma), assume o poder; através dos seus mandatos, e incluindo os de Dilma, fica no poder até o impeachment de 2016. É um novo projeto de Brasil? A expectativa do povo brasileiro é enorme. Lula fez inegáveis avanços sociais e económicos, tirando milhões de pessoas da miséria, mas cometeu erros gravíssimos: a) forte líder-carismático, estrela, do (seu) PT, secou tudo à sua volta, eliminando os opositores críticos internos – a Dilma, por exemplo, foi imposta ao partido e ao eleitores brasileiros; b) metaforicamente, enquanto distribuía migalhas (Bolsa Família) aos pobres, moradores das novas senzalas (bairros/favelas das periferias e do interior miserável do país), ele banqueteava-se na corte (Brasília) com a velha e corrupta elite branca oligárquica do país; c) com 80% de aprovação popular (e do Obama – that’s my man), Lula não aproveitou (talvez) o momento único de mudar radicalmente o Brasil e criar uma nação mais desenvolvida, coesa e socialmente igualitária — pela educação; d) a aliança com a elite política, económica e financeira teve um custo altíssimo ao país e ao próprio: a histórica corrupção profissionalizou-se e Lula, ingenuamente, achando que já era da elite, foi por esta traída e colocado na prisão.

Como vimos, os líderes políticos de centro-esquerda, com grande culpa do lulismo, uma (quase religião), criaram um solo fértil onde iria germinar e desenvolver-se a semente do mal – a Besta da extrema-direita. E o gigante Brasil chegou a esta gravíssima e triste situação: partido ao meio e cheio de ódio; metade anti-petista e outra (quase) metade contra o Coiso. A situação é tão insana que um eleitor afirmou numa rede social: “sou negro e gay e voto Bolsonaro”. Como é isto possível? Um negro e gay votar num candidato declaradamente racista e homofóbico. Como afirmou o poeta Tom Jobim, “o Brasil não é para principiante”.

Uma das explicações possíveis para esta atual demência coletiva brasileira é o mito lusitano-messiânico-sebastianista: sustentado na crença de que, nos momentos críticos da história, o rei D. Sebastião (morto na batalha de Alcácer-Quibir, em Marrocos, no ano de 1578) irá voltar e ‘salvar’ o seu povo.Com base nisso, podemos considerar que este é o momento sebastianista brasileiro. Jair Messias Bolsonaro: destaco o nome do meio – Messias, ‘o que tem o desígnio de salvador’. Mas o mito da Besta cega o discernimento político. Por isso, é muito provável que no dia 28 de outubro, (mais da) metade dos eleitores irá eleger, para presidente do Brasil, uma figura da extrema-direita, violenta, misógina, racista, homofóbica, impreparada, anunciando “a morte da nação brasileira”.

Ainda há tempo: acorda Brasil!

Professor de Sociologia da Universidade da Beira Interior