Quando o seu país mais precisou dele, Neymar Jr. não desiludiu e apresentou ao mundo um novo penteado. Não sou dos que julgam um atleta pelo penteado, pelas tatuagens ou por outros acessório, mas quem aposta tudo na estética capilar e descura os dotes fuebolísticos arrisca-se a ser crucificado quando as coisas não correm bem. Em abono do jogador do Paris Saint-Germain, diga-se que é injusto usá-lo como bode expiatório, prática que os brasileiros usam amiúde para explicar o insucesso, desde os tempos do malogrado Barbosa, aquele infeliz guarda-redes de 50 que, segundo a lenda negra (no pun intended), pôs uma nação inteira a chorar.

Por muito boa vontade que se tenha para com Tite, qualquer adepto honesto deveria começar por reconhecer que o Brasil continua em convalescença. Não é desde o Mineiraço e os traumáticos 7-1. Não é desde o colapso de Ronaldo, o Fenómeno, em 98. Não é desde a equipa-maravilha de 82, a melhor de sempre a não ganhar nada, dizem os mais reputados especialistas em derrotas de elevado teor de pureza estética. Não é desde o já referido Barbosa e do carrasco Ghiggia que fez todo um povo caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro como se as duas bombas de Hiroxima e Nagasáqui tivessem atingido em simultâneo o Maracanã. Não, o Brasil está em convalescença desde que D. Pedro deu o Grito do Ipiranga.

Mas não é altura para discussões sobre história. O Brasil está em convalescença futebolística desde que se convenceu que o mundo lhe deve sempre mais estrelas do que aquelas que ostenta na camisola, ou seja, desde que o futebol é futebol moderno. E como insiste em cobrar essa suposta dívida, todas as vitórias são triunfos da humanidade e todas as derrotas são catástrofes irremediáveis. Que eu me lembre, só uma derrota do Brasil em Mundiais foi aceite com resignação, tal a superioridade do adversário e magnificência do homem que o liderava. Foi em 2006 e o homem era Zidane. De resto, a derrota do Brasil é sempre entendida intimamente pela torcida como uma violação das leis naturais do desporto, um erro cósmico para o qual é necessário encontrar um responsável humano, como se agora resolvêssemos processar pelo degelo do Ártico um motorista da Câmara de Águeda.

Barbosa, Serginho, Carlos, Ronaldo, Júlio César, a reunificação da Alemanha ou Neymar podem ser boas desculpas mas não escondem a realidade. O Brasil é um eterno convalescente. O atropelamento de Belo Horizonte foi há quatro anos. Em 2014, o espírito à volta do escrete era de governo de salvação nacional. Recuperou-se o último treinador campeão do mundo, o Felipão com o seu arsenal esotérico constituído por analfabetismo táctico, Murtosa e Senhora do Caravaggio, e os jogadores, com David Luiz e Thiago Silva à cabeça, entravam em transes pentecostais no final dos jogos. Dessa seleção aziaga restam quatro ou cinco jogadores. Júlio César, Maicon e outros reformaram-se. Coutinho, Firmino e Gabriel Jesus despontaram. Scolari deu o lugar a Tite. O medo, esse, continua lá, com contrato vitalício com a CBF, no lugar que devia ser da alegria.

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