Li entre o choque e a surpresa o artigo “Quando o estado perpetua o racismo” publicado no Observador pelo meu amigo Alexandre Homem Cristo.

Porque não uma estrela de David na lapela dos judeus? E meia estrela com meio galo de Barcelos nos semi-judeus, seja em que grau for, como seremos quase todos, mesmo, porventura, alguns dos chineses humildes mas laboriosos que vivem connosco? E, sei lá, uma tanga nos africanos e meia tanga e meio galo de Barcelos nos luso-africanos? E uma pinta na testa dos indianos e meia nos luso-indianos? E uma flor de lótus nos chineses e meia com meio galo de Barcelos nos lusos chineses, até agora raríssimos pelas razões que sei? E, sei lá que parte desses símbolos todos nos descendentes de terceira geração? E nos de quarta e quinta? E o quê, por exemplo, no José Manuel Fernandes em que me parece poder vislumbrar-se uma clara ascendência berbere?

Talvez, aliás, um emblema para as “identidades” próprias inumeráveis que abençoadamente somos todos nós, brancos e pretos, meio-brancos e meio pretos, caucasianos e semitas, mistura riquíssima crescente de tudo isso, seja lá o que isso for. Eu, branco – que estranho e que horror dizer-me assim de mim próprio –, louro e de olhos esverdeados, apenas, apenas, com 32% de genes africanos, por ter nascido a Norte do Tejo, mas possivelmente mais parecido com um negro de S. Tomé pela biologia do meu fígado ou pela educação que aquele terá recebido por ter nascido e vivido em Portugal, do que com um filho de beirões como eu nascido e crescido em Angola e com diabetes que felizmente nem eu nem o meu primo africano têm? Percebe? “Todos diferentes, todos iguais”… e agora o quê?

Depois do orgulho gay, o orgulho negro – e portanto, porque não o branco? –, e porque não o orgulho rico, e meio rico? E o orgulho dos filhos de elites, sejam lá elites do que for, dos políticos, dos doutores, dos médicos, dos cientistas, dos grandes industriais, e dos médios? E o INE passar a registar isso tudo.

Fui até à caricatura para se perceber a tolice. Mas o pior, claro, não é a tolice. É o crime, os dramas pessoais e a catástrofe social que essa estupidez desencadearia.

Lembro-me, numa Feira do Livro em que estive no stand da Gradiva com José Hermano Saraiva – que saudades tenho desse amigo admirável – de ele me ir convidando a identificar, na sua maneira de ser lúdica, hiperpespicaz e na sua erudição, para o mosaico caleidoscópio de facto admirável de origem étnica dos leitores que iam passando e com quem ia conversando gostosamente.

Meu caro Alexandre: li o seu artigo chocado e surpreendido. Pois nem mesmo o Alexandre vê, VÊ, a armadilha em que está cair? O delírio – criminoso! – que também o Alexandre está a ajudar a promover, a promover?

A intenção do Alexandre é também boa, não duvido, tal como achou ser bem intencionada a daqueles de quem discorda. Boa mas inadvertida, ingénua, só pode ser isso. É que com essa sua posição está a dar importância e sentido ao que deve ser tratado e enfrentado como a pura ideologice que é. Está a dar “corda” ao que devia saber ser a um delírio cuja natureza devia conhecer, percebendo-lhe as consequências devastadoras, pessoais e sociais.

O delírio das identidades (num país como o nosso ainda mais criminoso), a invenção dessa tolice, pode ser a criação de um problema e de um drama para as personalidades pessoal e educativamente mais frágeis. E sem nenhum sentido. Ora repare. E uso o Alexandre para mais um dos inumeráveis exercícios possíveis na nossa sociedade, repito, abençoadamente geneticamente riquíssima: em que etnia o inscrever a si? É que lhe vislumbro (na sua foto no Observador bem percetíveis) traços de uma distante ascendência africana*. Presente, aliás, no stock genético dos Portugueses ao Sul do Tejo numa percentagem de 72% (dados do último estudo). Por curiosidade, 32% nos Portugueses ao Norte do Tejo.

E se for assim, diga-me em que categoria étnica o colocariam. Que designação? Português/berbere, com ascendência recente?

Nos inúmeros cidadãos que não têm formação intelectual e convicções sedimentadas como felizmente pudemos ter, nos que não sejam elites com somos, que sentimentos desencadearia tal enormidade?

E note bem: no que gente como nós tem de insistir é no seguinte:

Há discriminação(ões)? Há, e são o nosso grande e endémico problema. Mas a mais significativa e nefasta nem é da “raça”. Esta, aliás, no seu feito, sempre ligada à pobreza. O problema real são essas discriminações, pessoal e nacionalmente “despedaçantes” realmente. O problema real é não serem enfrentadas como as devíamos enfrentar e ir erradicando. As nepóticas, de família, compadrio político ou de interesses.

Comunguemos, combatamos por uma sociedade meritocrática. Pela educação, pela liberal igualdade de oportunidades, por um ensino público de qualidade, pela avaliação a todos os níveis, pela justiça. Não é esse o combate que temos travado ou querido travar?

A tal “política de identidade”, que o seu artigo objectivamente alimenta, multiplicação exponencial de racismos, conduziria se o delírio não parasse – e acho que parará por extinção natural — numa espécie de mundo “mad max”… que parece anunciar-se.

Pense nos meus argumentos, meu Amigo. É epifânicio mudarmos de opinião!

* Já agora, gostava de saber de onde é originária a sua família. Se tiver curiosidade em conhecer a origem dos componentes presentes no seu stock genético, diga-me. Falarei ao meu amigo Carlos Fiolhais que o ajudará nisso.

Abraço do amigo e admirador,

GV, descendente sem linha recta do português D. Duarte de Almeida, o herói porta-bandeira da Batalha de Toro. O Decepado de Toro.