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Ministro das Finanças

Centeno. O novo herói do Canal Panda! /premium

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Continuaremos vergados pela canga dos impostos, humilhados por um Governo que regula a quantidade de cabelo dos seus guardas florestais mas nos deixa desprotegidos nas funções básicas do Estado.

O sucesso deste Governo é simples. Infantiliza os Portugueses, tratando-os como crianças com menos de 5 anos e usa a comunicação social como um Canal Panda non stop. As histórias são repetidas, as princesas Martins e Mortáguas ganham sempre, o Rei Costa está sempre feliz, o escudeiro Jerónimo controla as tropas e a populaça ri e aplaude.

Assisti, obediente, à apresentação do PEC que Centeno fez no acto final da sua peça em 4 anos. Para herói do Canal Panda está tudo lá e isso explica a escolha feita no casting — um discurso inseguro e simpático, titubeante e lento para que as crianças percebam, desconfiado e trapalhão por causa dos mauzões dos capitalistas, nervoso e temeroso porque fica sempre bem nos heróis dos pequeninos.

No casting a figura parecia até ter potencial, mas correu mal. Acho que desta vez o texto, a encenação e as personagens foram tantas, que a coisa ficou manca. Vejamos:

Momento 1 – Apareceu o Nodi a explicar que a economia vai crescer. Pouco, poucouchinho. Devagar e devagarinho. Como?, pergunta o público. Como é possível o milagre se não há uma medida de estímulo, de rasgo ou de ambição? Nodi responde que com o seu carro encantado se encarregará de reparar a economia alemã que está próxima da recessão, de endireitar a política espanhola evitando a turbulência, impedindo o Brexit e garantindo que Trump não dá cabo em definitivo dos mercados de exportação. Para o carro encantado do Nodi não há impossíveis!

Momento 2 – Aparece o sapo Cocas a dar de comer ao Monstro das Bolachas. Sim, claro que o Estado e os funcionários públicos pesam muito, mas coitados… trabalham tanto (35 horas por semana); ganham mais do que a média; reformam-se mais cedo e têm melhor assistência na doença… Coitados, não podem ser despedidos e por isso temos de os alimentar com mais aumentos e progressões e carreiras e tudo o mais. É que o Monstro tem de comer bolachas senão ruge e a geringonça abana. Por isso, Cocas tem a solução: despejar milhões e comprar os votos dos funcionários obedientes.

Momento 3 – Chega um Vampiro de sorriso maroto e dente afiado, garantindo que a carga fiscal não vai piorar. É certo que os números mostram que a receita fiscal vai continuar a crescer e que o sorriso do Vampiro revela o seu apetite insaciável para nos sugar a todos até ficarmos exangues e reduzidos aos passeios entre Ericeira e Setúbal com o novo passe social que permite esta fantástica jornada no supersónico tempo de 3 horas e 41 minutos. A Rainha Dona Amélia até ficou assustada!

Momento 4 – Vem a Anita a dizer que cresce o investimento público. São mais milhões que dão cobertura para que António Costa possa passear pelo país a anunciar que não haverá Sobral de Monte Agraço que não tenha o seu parque infantil (já agora, façam um oleoduto para o aeroporto de Lisboa… Sei que a imagem de Costa a cortar a fita dum cano não dá grande capa de jornal, mas sempre deixaríamos de ser o único país da Europa cujo principal aeroporto é abastecido de mangueira).

O pior é que todos sabemos que a Anita não vai às compras e, quando vai, o carrinho é muito pequeno e o cão puxa sempre para casa — por isso vamos continuar a assistir à degradação final do SNS e das principais infra-estruturas do país.

Momento 5 e último – Aparece o Ruca. O Ruca é aquele razinho simpático e confiável, bonzinho e que nunca mente. Faz os trabalhos de casa sempre e cumpre as ordens da mamã Merkel e do avô Schauble. Ainda bem. Ruca repetiu a palavra estabilidade tantas vezes que parei de contar às 3 dezenas. Mas sabemos como e sabemos à custa de quem. À custa da economia, das empresas e da classe média. E, como o Ruca não mente, foi neste que eu acreditei.

E é aqui que entra o Financial Times. É que Centeno, quando fala Inglês, tem menos vocabulário e foge-lhe sempre a boca para a verdade. Em reportagem recente do jornal confessou que afinal a linha política escolhida pelo Governo socialista não foi uma alteração “drástica” face às políticas do executivo de Pedro Passos Coelho.

Afinal, não se pôs fim a nenhuma austeridade. Afinal, não se virou página da austeridade nenhuma.

Nem era preciso! Em 2015, “era preciso fazer uma mudança, mas não uma grande mudança”, diz Centeno. “Sou muito desconfiado em relação aos visionários que acham que sabem o suficiente para mexer em grandes máquinas. Tenho medo de grandes máquinas”, confessa Centeno. “O truque foi escolher um caminho a seguir e mantermo-nos nele”, desvenda Centeno.

Continuamos por isso em austeridade. Continuamos a sugar os portugueses mas temos um truque. Fazemos o mesmo mas mudamos o teatro. Aparecemos no Canal Panda com uma cara risonha e de tanto contar histórias de embalar convencemos-los do contrário.

O azar é que Centeno é um mau actor. Lembrou-me até a música de Adelaide Ferreira –“Papel Principal” — e esta parte da estrofe:

“Tu sempre foste um mau actor
Fizeste de herói no papel principal
Mas representaste e mentiste-me tão mal”!

Foi de facto tão má a performance que Costa usou a táctica dos presidentes dos clubes de futebol em dificuldades — veio imediatamente a terreiro defender Centeno, renovando a confiança, dizendo que está para ficar e normalmente isto acaba com o treinador na Arábia Saudita, na China, na OCDE ou em qualquer lugar em Bruxelas…

Somos governados por uma companhia de teatro de circo. Uma espécie de trupe familiar onde até os maus actores são protegidos nos seus papéis principais. E enquanto os portugueses quiserem acreditar nesta comédia e preferirem as mentiras doces da farsa à realidade dos factos têm o que merecem.

Continuaremos vergados pela canga dos impostos, humilhados por um Governo que regula a quantidade de cabelo e o tamanho dos bíceps dos seus guardas florestais, mas nos deixa desprotegidos nas funções básicas do Estado na saúde, na justiça e nas infra-estruturas.

No fundo, continuamos conformados com a triste sina de ir trilhando, ano após ano, o caminho a que este Governo nos tem conduzido — o caminho para o país mais pobre da Europa.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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