É frequente ouvirmos apelos a um voto consciente nas campanhas eleitorais. Este jornal desenvolveu um Votómetro para ajudar. Cruza perguntas sobre as nossas preferências políticas com respostas na forma de propostas políticas concretas dos programas dos diferentes partidos. E aponta para uma conclusão sobre qual seria o voto mais racional. Há queixas de que o Votómetro está avariado. As pessoas sabem com que partido se identificam e não é aquele que lhes aparece. O que se passa? Não estamos a falar de voto estratégico ou útil, que passa por alguém admitir que não vai votar no partido que sabe ser ideal para defender as suas ideias, e optar por outro com que só identifica parcialmente, mas que tem mais hipóteses de vencer e governar. Pode ser que possa haver algum problema Votómetro. Pode ser que haja uma ou duas propostas decisivas para uma determinada pessoa que anulam todas as demais. Mas também pode ser que estas queixas mostrem que muito gente vota não tanto em função de políticas analisadas racionalmente, e mais em função de preferências e identidades políticas pré-definidas que vão para além de propostas concretas.

Os tribalistas

Nós, seres humanos, somos naturalmente tribalistas. De Aristóteles na Grécia Antiga até Ezra Klein nos EUA de hoje não faltam pensadores políticos a constatar este facto.  Começou por ser uma questão de sobrevivência. Um ser humano solitário não teria grandes hipóteses contra um tigre de dentes de sabre ou um mamute. Como animais a nossa grande vantagem está na capacidade de nos agruparmos para desempenhar com eficácia tarefas complexas como caçar mamutes. Nós estamos programados para seremos animais sociais. Isso trouxe-nos enormes vantagens. É a chave da nossa capacidade para criarmos Estados complexos e fazer progredir civilizações cada vez mais avançadas tecnologicamente. É fundamental, até, para estarmos filantropicamente dispostos a dar parte da nossa riqueza para ajudar a nossa comunidade.

O problema do tribalismo

O problema não é a importância da identidade do desporto até à política. O problema é a irracionalidade identitária, é o tribalismo extremado dominar tudo o resto e ser usada para ignorar regras, leis, compromissos. Não faltam conflitos identitários nas últimas décadas que nos recordam que o tribalismo levado ao extremo pode ser violento e até mortal. E não estou só a falar da clubite no futebol. O grande problema de Putin com a Ucrânia não é resultado de um cálculo racional de poder se esta vier a somar-se à Aliança Atlântica. Se fosse assim, a Rússia já tinha invadido a Finlândia. O grande problema do tribalismo extremado russo que Putin explora e estimula é identificar a Ucrânia como propriedade sua, e não tolerar que se transforme num país verdadeiramente independente que democraticamente optou por se identificar com o Ocidente e não com Moscovo.

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O papel fundamental dos líderes

O papel dos líderes na gestão do tribalismo identitário em limites toleráveis é fundamental. Ninguém gosta de perder para o outro lado num jogo de futebol ou numa eleição. Faz uma grande diferença se o presidente do clube apela à calma ou aponta o dedo ao árbitro. Faz uma grande diferença se o candidato eleitoral derrotado cumprimenta o vencedor ou alega que a eleição foi roubada, mesmo que seja incapaz de o provar em tribunal. Nos EUA de hoje o grande problema é que a natural tendência para algum tribalismo é abertamente explorada e estimulada, em particular por Donald Trump, mas não só. Mesmo do lado dos Democratas há quem pareça apostar numa política identitária cada vez mais intolerante. Basta recordar Hillary Clinton a referir-se aos eleitores republicanos como deploráveis.

O compromisso a qualquer preço?

Criticar os excessos do tribalismo ou da política identitária não é o mesmo que defender o compromisso a qualquer preço. Nem sempre o compromisso é possível. Não eram possíveis compromissos com Adolf Hitler na política interna ou na política externa. Não é possível confiar num compromisso de paz sério com Putin. O Kremlin violou vários acordos anteriores que garantiam a independência e a integridade territorial da Ucrânia, e Putin deixou bem claro que não acredita que esse país tenha o direito a existir. Nem sempre o compromisso é desejável. É normal que os defensores de uma democracia pluralista não aceitem compromissos com quem a quer derrubar. Mas também é fundamental perceber que uma democracia pluralista não sobrevive se cairmos em tribalismos extremados, se transformarmos todos os adversários políticos em inimigos jurados e se demonizarmos qualquer compromisso.

Tribalismo em Portugal

A acreditar nas sondagens – e convém desconfiar um pouco delas, sobretudo em tempos de mudança – nunca, desde 1976, tantos partidos tiveram a possibilidade de ter tanto peso no parlamento português. Essa fragmentação política pode ser simplesmente o resultado natural de um país mais plural e do facto positivo de mais pessoas estarem empenhadas em fazer a diferença politicamente. Também pode significar caos, incapacidade de governar e novas eleições a curto prazo. Tudo depende dos diferentes partidos se mostraram capazes de negociar seriamente e chegar a compromissos razoáveis. Afinal, os Países Baixos só tiveram governos de coligação desde o final da Segunda Guerra Mundial, e é assim na Alemanha desde 1961. Talvez o tribalismo crescente os venha a empurrar para regimes ingovernáveis ou democracias ineficazes, mas para até agora não foi o caso. O pragmatismo nos compromissos não tem de significar trair princípios. Construir um novo aeroporto, investir de forma séria e sustentável no lítio ou reforçar o investimento em defesa não deveriam ser questões impossíveis de resolver. O novo parlamento será um teste à maturidade política dos portugueses, e em particular dos líderes partidários. Será fundamental, para isso, sabermos resistir ao tribalismo extremado.