Nas palavras que se seguem, convida-se o leitor a fazer uma pequena reflexão sobre os efeitos psicológicos e comportamentais, na personalidade das crianças, da quarentena provocada pela pandemia do coronavírus. Uma vez assimilada a interiorização da proibição do contacto físico, com os avós, mas sobretudo com os amigos, como se encontrarão mentalmente as nossas crianças daqui a dois, três meses, crianças entretanto enclausuradas, imobilizadas e asfixiadas em apartamentos em muitos casos com menos de 100m2, onde invariavelmente se vêem submersas – pelos pais e pelas tecnologias imersivas – em notícias, conversas e imagens repletas de toxicidade, nervosismo e medo? Não é fácil responder a esta pergunta, mas temos a obrigação de a fazer e de procurar responder-lhe.

Nós, adultos, alguns já velhos e calejados, e portanto relativamente relaxados porque capazes de vislumbrar um qualquer razoável “ponto de equilíbrio” em relação ao que de pior possa acontecer como o “Covid-19”, muito provavelmente não fazemos a menor ideia de como é que uma criança pode assimilar ordens expressas como estas, recebidas consecutivamente durante meses: “Não toques nas pessoas, nem te deixes tocar por elas… podes ficar infectado e morrer”; “Não se beija ninguém”; “Lava as mãos”; “Não toques…”. Proibidas de tocarem nos corpos umas das outras porque proibidas de brincar umas com as outras, como irão reagir, como irão comportar-se as crianças umas com as outras, quando se voltarem a reencontrar, uma vez finda a primeira vaga desta tormenta viral?

Sentido do tacto

Podemos começar por falar da importância, para a sobrevivência da própria espécie humana, do sentido do tacto. A sua relevância biológica é de tal ordem que a nossa linguagem está inevitavelmente impregnada de metáforas sobre o tacto. Quando algo ou alguém “mexe” com as nossas emoções mais profundas dizemos que nos sentimos “tocados”; se de repente nos deparamos com um problema grave ou sério, dizemos que ele é “espinhoso” ou “bicudo” e que necessita de “ser tratado com luvas de pelica”; de um músico capaz de executar e interpretar com virtuosismo uma “tocata” diz-se que ele possui “sensibilidade ao toque”; na esgrima, mas também numa discussão apaixonada, quem reconhece a destreza do adversário ou o valor dos seus argumentos diz-se “touché”; de uma coisa que em relação a outra funciona como uma medida precisa dizemos que é uma “pedra-de-toque”; para nos referirmos a uma situação de risco e de perigo entretanto contornada dizemos muitas vezes que foi “tocar-e-andar”, “tocar-e-raspar” “tocar-e-fugir”; dizemos também que um certo objecto ou problema é “tangível” se consideramos que ele é real e que tem existência própria; “apalpar o terreno”, “sentir na própria carne”; “sentir na própria pele”, “perder o contacto”, são outras tantas expressões, entre as inúmeras que podemos encontrar na língua, que comprovam que o tacto é o mais fundamental dos sentidos. A utilização profissional deste sentido é, aliás, de tal modo intensiva que no nosso dia-a-dia recorremos a toda a espécie de especialistas do tacto sem que disso quase tenhamos consciência. Todos estes profissionais – massagistas, enfermeiros, médicos, barbeiros, cabeleireiros, calistas, endireitas, ginecologistas, urologistas, dermatologistas, alfaiates, costureiras, etc. – são uma espécie de “mestres-palpadores”, a quem, por razões diversas, solicitamos os respectivos serviços.

É absolutamente extraordinária a quantidade de informação transmitida pelo tacto. O tacto (ou a falta dele) afecta potencialmente tanto o corpo como a mente. Por alguma razão fundamental, o tacto é o primeiro sentido do corpo a funcionar, sendo também muitas vezes o último a desparecer. Imediatamente a seguir ao parto, as mães apertam os seus filhos contra si. E mal um bebé nasce, começa instintivamente a palpar e a procurar tocar o que é quente, sendo que sem os corpúsculos do tacto que existem na sua língua a própria amamentação seria impossível. Em experiências feitas com ratazanas numa universidade norte-americana, os neurologistas descobriram que as mães ratazanas provocam alterações químicas nas crias quando as lambem e as lavam, e que quando estas são separadas das mães as suas hormonas de crescimento diminuem. Outro tanto sucede com os bebés prematuros privados de contacto físico. Numa outra experiência, os médicos concluíram que os bebés prematuros que eram massajados três vezes por dia durante quinze minutos aumentavam de peso a um ritmo muito superior aos que eram deixados sozinhos nas incubadoras. O sistema nervoso dos bebés massajados desenvolvia-se mais rapidamente que o dos não-massajados e os primeiros tinham alta do hospital em média seis dias mais cedo que os segundos. Estas e outras experiências comprovam que se o toque não fosse agradável e útil as espécies não se reproduziriam nem sobreviveriam. Sem palpação a própria vida não teria evoluído. Sem tocar nem ser tocada, a pessoa fica entregue ao isolamento. E quando o contacto físico não existe ou é reduzido a um mínimo a doença faz inevitavelmente o seu caminho. Tocar e ser tocado é muitas vezes o acto terapêutico por excelência, pois aquele que toca e é tocado tem mais probabilidades de ser curado quando se encontra doente. Basta que pensemos nos efeitos calmantes produzidos num doente ou num velho quando lhe seguramos a mão ou tocamos no seu corpo.

O aperto de mãos

A origem do aperto de mãos é obscura e o seu significado foi até hoje interpretado de diferentes maneiras. Embora alguns acreditem que este gesto não tem mais do que 200 anos e que só se generalizou com o aparecimento das classes médias após a Revolução Industrial, por um lado, e com o rito consagrado do aperto massivo de mãos entre os políticos modernos, por outro, tende-se, contudo,  a considerar que o aperto de mãos será um gesto usado ao longo dos tempos para mostrar que não se está armado e, consequentemente, para significar boa-fé. A expressão “dar uma mão” significa, como sabemos, ajudar. E em Portugal “dar uma mãozinha” tanto é uma expressão usada por banqueiros como pelo povo. E é por isso que recusar apertar a mão a alguém que no-la estende, com a excepção talvez de uma agressão física, é o pior dos insultos que uma pessoa pode fazer a outra, pois é o equivalente a cuspir sobre essa pessoa. As mãos são de tal maneira mensageiras de emoções que durante alguns estados emocionais intensos tocamos em nós próprios tal como gostaríamos que alguém que amamos o fizesse.

“Noli me Tangere”

“Noli me Tangere” (Não me Toques). De acordo com o Evangelho de João, foram estas as palavras proferidas por Jesus, quando Maria Madalena, após a ressurreição do crucificado, se lançou ao seu corpo para o abraçar. Os intérpretes nunca se puseram de acordo quanto à correcta interpretação destas palavras de Cristo. Mas talvez apenas por uma razão bem simples, afinal. Se admitirmos que Maria Madalena só pode ter desejado tanto tocar Jesus estando Jesus ainda vivo, podemos perfeitamente pensar que com aquelas palavras Cristo quis apenas dizer: “estou doente, não me toques”, “estou doente e não me deves tocar”; “estou doente, estou intocável”. No espírito de parábola do episódio, estas palavras proferidas por Jesus significam que Maria Madalena não deve retardar a morte do “mestre”, para não retardar a ascensão do “mestre” ao Pai. “Não me toques”, isto é, “deixa-me morrer em paz; não atrases a minha morte; não atrases a minha ascensão”. Portanto, o sentido efectivo desta história apenas se revela na sua íntegra se suspendermos o próprio dogma da ressurreição e se admitirmos que Maria Madalena se dirigiu ao corpo de Jesus para o tocar, antes, e não após, a sua morte. Os escribas que redigiram este evangelho, servindo-se da obtusidade que atribuem à mulher, pretendem mostrar que a mulher que ama Jesus não é digna da visão da ascensão dele porque ela não é capaz de ver o essencial: “Embora me vejas, eu sou apenas uma imagem, e por isso não me podes tocar; não me podes tocar, porque eu sou intocável”. Numa interpretação rigorosamente ateológica deste relato, o que este efectivamente nos diz é que Jesus agonizava, febril e contagioso, e que não pretendia retardar ou atrasar a sua morte e levar consigo uma única vida que não a sua.

Howard Hughes e Adolf Hitler

Falemos agora da doença de Howard Hughes, que o grande público conhece sobretudo do filme “O Aviador”. Por causa da sua hipersensibilidade e da educação amedrontadora e possessiva da mãe, o produtor de Hollywood ganhou uma tal fobia aos germes, que desde rapazito, ao que parece, obrigava os empregados em casa e os amigos no recreio a usarem luvas brancas, pinças desinfectadas, lenços limpos… e o resto.

Ele, “o aviador”, morreu, na condição de mero passageiro, com um ataque de coração em plena viagem de avião, quando ia em busca de auxílio médico urgente e voava dos bons ares naturais de Acapulco directamente para um hospital climatizado em Houston.  Mas também Adolf Hitler sofreu da mesma doença… e ambos foram apaixonados cinéfilos.

Muitas vezes na História, estas pessoas incapazes de contacto físico, pessoas que sofrem da mania da higiene e do complexo de uma pureza sem mácula, desenvolvem patologias estranhas e altamente destrutivas. De acordo com algumas biografias de ambos, poderia talvez dizer-se que a estes dois homens faltaram “contactos” e “toques” no decorrer da infância, e que a existência de personalidades tóxicas como estas se deve em parte aos efeitos da inibição do contacto físico (necessariamente doentio se demasiado temido…) quando crianças e às consequentes transformações da expressão da violência nas suas tenras cabeças. Uma violência que de física e social passa a psíquica e individual, uma violência que de ameaça exterior directa passa a pressão interior indirecta.

Talvez o medo obsessivo da “Covid-19” hoje, possa induzir, sobretudo nas gerações mais novas actualmente sujeitas a confinamento, comportamentos abertamente anti-sociais e descomplexadamente racistas amanhã… Educados repetidores e obedientes amplificadores de algoritmos quando imersos num ecrã, as nossas crianças comportam-se por vezes como autênticas bestas quando privadas dele.

E você, já abraçou e beijou o seu filho hoje?