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Já fomos à Lua, talvez um dia saibamos apagar fogo /premium

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Os americanos foram em Julho porque sabiam que nesta altura do ano, com grande parte do país a arder e na vasta escuridão do espaço, Portugal seria como uma tocha a iluminar o caminho dos astronautas.

Mais um Verão em Portugal, mais uma prova inequívoca de que o paleolítico homo erectus lusitano falhou a aula mais importante logo a seguir àquela em que se ensinou a fazer fogo: a lição sobre como apagar fogo. Das duas uma, nesse dia ou houve greve dos professores, ou houve greve da CP e Soflusa. Quer dizer, também pode ter sucedido o homo erectus português ter-se baldado à aula para pôr em prática o que aprendeu na véspera, indo fumar às escondidas para trás do pavilhão de educação física. O que, embora demonstrativo de interesse pela matéria, resultou expectavelmente em incêndio incontrolável.

Com um currículo destes não admira que o nosso país tenha passado ao lado de eventos cruciais na história da humanidade, como a ida do Homem à Lua há 50 anos. Ao lado, ao lado, não será exactamente verdade. Sim porque não foi à toa que os americanos escolheram Julho para a alunagem, apesar do Presidente Kennedy ter dado até ao fim de 1969 para cumprirem esse desígnio. E também não foi por temerem que os russos lá chegassem primeiro. Nesse caso tinham ido logo em Janeiro. Não, os americanos avançaram em Julho porque sabiam que nesta altura do ano, com grande parte do país a arder e na vastíssima escuridão do espaço, Portugal seria uma espécie de tocha a iluminar o caminho dos astronautas. Naquele momento histórico o nosso país não só era governado por um facho como foi um facho para estes intrépidos exploradores. É que nem precisaram de fazer máximos naquela caranguejola em que alunaram.

Infelizmente não é apenas dos americanos que estamos a anos-luz. Também estamos condenados a invejar os russos, que agora inventaram aquela aplicação de telemóvel que — para nos distrair enquanto furta todo o tipo de dados pessoais — mostra como vamos estar daqui a 40 anos. Enquanto isso, por cá, uma aplicação de alerta de fogos chamada Firerisk, galardoada no prestigioso concurso Startup Simplex da agência para a Modernização Administrativa, fechou este ano por falta de financiamento. Qual a parte boa de tudo isto? É que pelo menos tendo a aplicação russa podemos antecipar o aspecto que vamos ter quando finalmente existir uma tecnologia portuguesa que funcione em caso de incêndio.

Agora, não há dúvida que por estes dias são os chineses que estão mais bem colocados para enviar pessoas à Lua. Parece que copiaram toda a tecnologia dos russos. Não posso dizer que esteja surpreendido. Ficarei admirado, isso sim, se quinze dias depois de porem alguém no satélite natural da Terra os chineses ainda não tiverem feito já meia dúzia de cópias da Lua para porem em órbitas mais próximas do nosso planeta e cobrarem 1 euro por viagem. De ida e volta se as réplicas dos equipamentos soviéticos forem mesmo muito fidedignas.

Quem está na peugada dos chineses são os indianos. O foguetão Chandrayaan 2 – Jessica Filipa 2, em hindi – já descolou e se a missão for bem sucedida a Índia vai tornar-se no quarto país a pousar na superfície da Lua. E esta é a prova definitiva que, ao contrário do que afirmam as teorias da conspiração, a alunagem de 1969 não foi filmada num estúdio em Hollywood. Se tivesse sido os indianos já teriam feito há imenso tempo uma nova versão do acontecimento em Bollywood, transformando por exemplo o pequeno e cauteloso passo de Neil Armstrong numa espectacular cena de dança na superfície lunar com alguma hora e meia de duração.

E a nós, portugueses, afinal o que resta? Eu diria que beber para esquecer é das mais reconfortantes perspectivas, pelo menos enquanto o vinho não é retirado da Roda dos Alimentos. O que dá vontade de perguntar: qual o problema deste país com as grandes descobertas e invenções da história da humanidade? Já tínhamos percebido que o domínio do fogo não é para nós, mas agora também vamos dar cabo da roda? É que retirar o vinho da Roda dos Alimentos é a das ideias mais tristes desde a invenção da pedra lascada.

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