Grécia

Kalimera, Dr. Centeno! /premium

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Mário Centeno prestou-se ao pouco bonito jogo da mentira descarada, mas a ideia foi-lhe certamente vendida com belas palavras, daquelas de que a esquerda tem o segredo.

O vídeo em que Mário Centeno, presidente do Eurogrupo, tece elogios aos efeitos do “programa de austeridade” grego, criou entre nós a polémica que se sabe. A esquerda radical do PS (João Galamba, em primeiro lugar), com a fartura de indignação virtuosa com que costuma apresentar-se ao público, quando não se baba de admiração pelo génio de António Costa, viu no vídeo horrores inomináveis, no que foi logo acompanhada pelo Bloco, dela distinto quase apenas nominalmente, e, de forma apesar de tudo mais sóbria, pelo PCP. Centeno teria defendido políticas injustificáveis, cruéis, destruidoras e selvagens destinadas a confortar os sinistros interesses dos “mercados” e a humilhar o martirizado povo grego. Exactamente o que havia logo dito o fatal Varoufakis, com a diferença que ao desprezo deste último se acrescentava a dor incontida por Mário Centeno, além de presidente do Eurogrupo, ser igualmente o nosso ministro das Finanças, isto é, ministro de um governo do PS, apoiado pelo Bloco e pelo PCP, que desde o primeiro momento não só viu no Syriza revolucionário dos seus inícios uma maravilhosa esperança para o mundo como não deixou de insistir no carácter anti-austeritário (anti-troika) das suas próprias políticas, em tudo contrárias às do precedente governo de Pedro Passos Coelho, notório lacaio desses mesmos interesses de que, para grande desgosto das esquerdas, Mário Centeno aparece agora o grande campeão.

Este drama das esquerdas, que em si é absolutamente desinteressante e que se limita a revelar-nos mais uma vez a irresponsabilidade do seu discurso habitual, tem no entanto um mérito indisputável: o de mostrar a extensão da incalculável hipocrisia em que assenta não só a origem do governo de António Costa como praticamente a totalidade da sua acção governativa. E não só a hipocrisia do governo como a dos seus aliados parlamentares (Bloco e PC), que, para se manterem encostados ao poder, se prestam sempre, sem pestanejar, à cíclica encenação de virgindades recicladas que, felizmente, não impedem a realização de legítimos anseios que a concepção da geringonça desde o início se destinou a satisfazer. Uma hipocrisia que não faz grande sentido condenar moralmente, mas que faz todo o sentido condenar politicamente, porque traz consigo a degradação da sociedade, uma degradação que só se pode avolumar e que iremos todos pagar um dia por um preço difícil de imaginar.

Em tudo isto, Mário Centeno é o menos. É claro que ele andou todo o tempo a fazer o contrário do que dizia e que o recente vídeo é perfeitamente coerente com o que ele fez e faz cá por casa: a “austeridade”, com tudo o que ela acarreta, foi e é necessária e imprescindível à sobrevivência do país. O ele dizer o contrário do que fazia, proclamando alto e bom som o célebre “virar da página da austeridade” e a turpitude das políticas do governo anterior, compreende-se facilmente pela sua decisão de cumprir a estratégia do seu chefe António Costa, que precisou de a inventar para sobreviver politicamente. Centeno prestou-se ao pouco bonito jogo da mentira descarada, mas a ideia foi-lhe certamente vendida com belas palavras, daquelas de que a esquerda tem o segredo e que gozam, por razões que, de resto, conviria explorar, de um sucesso praticamente garantido. Há cinismo na sua atitude? É claro que há, mas é um cinismo que vem de cima.

De António Costa, evidentemente. De Sócrates, quando tudo o que de catastrófico se avizinhava furava os olhos de evidente, costumava-se elogiar, com indisfarçada admiração, o facto da sua “esperteza”. A “esperteza” é uma característica que qualquer um pode compreender, já que não implica nenhuma qualidade rara do espírito e aproxima o poderoso do cidadão comum, que também não desdenha exibi-la, na medida das suas possibilidades, quando necessário. A “habilidade” de António Costa é a legítima herdeira da “esperteza” de Sócrates. Como esta, representa a capacidade de recorrer a ficções sempre que tal recurso seja pagante e de saber apresentar tais ficções como algo de coerente e capaz de sugerir a aparência da realidade. Mais uma vez, algo que o cidadão comum não desconhece por inteiro e cuja necessidade já se lhe apresentou na sua vida privada várias vezes.

A “habilidade” de António Costa residiu desde o princípio na capacidade de proclamar o “fim da austeridade”, sabendo perfeitamente que a dita “austeridade” havia sido inevitável (e em larga medida inevitável em consequência do delírio das políticas de Sócrates, do qual chegou a ser o “número dois”) e continuaria a sê-lo por muitos e bons anos. E de agir, obedecendo ao princípio da realidade, mantendo a “austeridade”, deslocando os meios do seu exercício, como se não existisse uma qualquer contradição entre as palavras e os actos. E não se pode dizer que não tenha sido sucesso. Com o auxílio dos palhaços pobres do seu circo (o Bloco e o PC) e de alguns histriões mais vocais do seu próprio partido, como João Galamba, bem como de uma comunicação social doce e respeitosa, a ficção aguentou-se e aguenta-se. A partida de Pedro Passos Coelho do PSD, bem como, começa a tornar-se palpável, o advento de Rui Rio à frente deste, são os sinais negativos desse sucesso.

A questão, no entanto, merece ser colocada: será que é bom viver assim, na mentira e na duplicidade? Mais: será que se pode viver assim indefinidamente? A resposta parece ser negativa nos dois casos. Há um certo pudor, que é também uma virtude política, que é indispensável manter para que a sociedade funcione de um modo aceitável. E uma das manifestações desse pudor é a procura de, na medida do possível, não procurar envolver o mundo que nos rodeia num manto de ficções e a busca de um discurso político que se mantenha próximo da realidade. Pedro Passos Coelho, para surpresa de muitos, alçou-se, em circunstâncias particularmente difíceis, a esse patamar. António Costa escolheu, por necessidade política, o trajecto inverso: o da ficção e da negação, por palavras, de uma realidade que os seus actos não desmentem, muito pelo contrário. E exemplos disto não faltam.

O vídeo de Centeno tinha, é verdade, algumas particularidades que é impossível não notar. Em primeiro lugar, uma espécie de paternalismo que mostra não só uma falta de jeito sua para aquelas coisas como algo que resulta da própria evolução da União Europeia. Mas é preciso distinguir o essencial do acessório. E aqui o estilo de Centeno e da União Europeia relevam do acessório. O essencial reside mesmo no facto de a “austeridade” ter sido consequência directa, na Grécia como em Portugal, do uso e abuso de políticas suicidárias. E, no que toca a Portugal, na exibição o mais clara possível da mistificação em que o governo de Costa, com a prestimosa ajuda do Bloco e do PC, nos anda a fazer viver. Tudo isto é óbvio? Claro que é. Mas há certas alturas em que repetir o óbvio do óbvio é a única coisa que faz sentido, sobretudo quando ele nos é servido de bandeja num vídeo como este. Sempre que, pela manhãzinha, tivermos notícias de mais problemas com a CP, com os hospitais, com a educação e por aí adiante, não devemos hesitar na cordial saudação: Kalimera, Dr. Centeno! E, já agora, ainda mais simpaticamente: Kalimera, Dr. Costa!

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