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Antes das boas leituras das férias e, nos dias que se seguem, de uma atenção minuciosa à Volta à França, umas últimas palavras sobre a Grécia. Muito indirectas, de resto. Porque, confesso, o que mais apetece agora é desviar o olhar. O pior, está visto, não corre o risco de desaparecer de um dia para o outro. E se é verdade que temos a obrigação de pensar o mal, não faz bem a ninguém ter os olhos sempre postos nele.

A única coisa boa da actual crise grega foi a de nos ter lembrado mais uma vez a extraordinária riqueza da Grécia antiga. Exemplos da mitologia e da tragédia vêm espontaneamente à cabeça a propósito dos últimos seis meses, e continuarão sem dúvida a fazê-lo. O que mostra amplamente como a mitologia e a tragédia, cada uma à sua maneira, mantêm uma intacta capacidade de iluminar as acções humanas.

No caso da tragédia, isso deve-se em grande medida à sua objectividade e imparcialidade. O exemplo mais célebre dessa imparcialidade trágica é o d’Os Persas, de Ésquilo, onde é o ponto de vista dos Persas, derrotados em Salamina, que é adoptado (herdeiro contemporâneo disso é Clint Eastwood em Letters from Iwo Jima). Mas é um traço das tragédias em geral. Um exemplo tão bom como qualquer outro é igualmente a Antígona de Sófocles. A oposição entre Antígona e Creonte não é de modo algum a oposição entre o bem e o mal. Tanto Antígona como Creonte seguem, no conflito que os opõe, percursos que, a partir de certos gestos iniciais, se tornam quase necessários, cada um possuindo uma legitimidade própria e incompatível com a do outro. O que, diga-se de passagem, torna todas as leituras que sofrem do que se poderia chamar “complexo de Antígona”, isto é, que tomam o partido de Antígona, como símbolo da justeza do coração contra o poder representado por Creonte, leituras erradas da tragédia, que falham por inteiro a tal objectividade.

Ajuda a essa objectividade o facto de não haver propriamente culpa nos personagens da tragédia. Há erros, sem dúvida, mas não culpa, no sentido que hoje atribuímos à palavra. E, como lembrou Aristóteles, os heróis trágicos demoram tempo a reconhecer os seus erros. Quando algo, subitamente, se revela passar contrariamente às expectativas, quando se dá a peripécia, dá-se também o reconhecimento do erro. Mas já é tarde demais para voltar atrás. É o desenlace da tragédia. A sabedoria grega dizia que nem os deuses podem fazer que o que aconteceu não tenha acontecido. Os heróis trágicos sentem isso na pele no momento do reconhecimento. É claro que é possível não chegar nunca a reconhecer o erro. Mas isso não é possível num personagem da tragédia. Talvez no de uma comédia.

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E qual a reacção dos espectadores face a isto? Aristóteles – é sem dúvida o momento mais conhecido da sua explicação da tragédia – dizia que ela se compunha de duas paixões: a piedade e o medo. Ambas as paixões supõem uma certa proximidade com os personagens trágicos. É preciso alguma proximidade para nos identificarmos com eles a ponto de sentirmos piedade pelos seus sofrimentos. Tal como é preciso proximidade para termos medo de que nos aconteça o mesmo. A possibilidade de cometermos nós mesmos um erro idêntico ao deles é bem real. Mas essa proximidade não pode ser excessiva. A própria natureza da representação trágica implica que os espectadores se encontrem em segurança, isto é, que seja preservada a distância entre o imaginário e o real. A acção conjunta dessas duas paixões é suposta provocar em nós uma purificação, uma catarse. A descarga emocional que resulta da vivência intensa destas duas paixões deveria colocar-nos num estado de paz. E essa paz teria uma utilidade social e política. Sem ela, as paixões permaneceriam desgovernadas.

Longe de mim pretender que a vida política decorre habitualmente sob o modelo trágico. E mais longe ainda de mim querer explicar o sofrimento humano real a partir da esperteza de uma comparação com alguns textos fundadores da cultura ocidental. Mas, num momento em que as comparações históricas são utilizadas a torto e a direito em referência aos últimos episódios da crise grega (Tratado de Versalhes, etc.), não me parece, francamente, que a analogia com a tragédia seja excessivamente violenta.

Desde há algum tempo que, fazendo abstracção de vários detalhes, tenho o sentimento que todos os personagens desta crise agem segundo uma espécie de necessidade que lhes é própria e que, sendo quem são, não poderiam agir diferentemente. Quando muito, poderiam adiar o momento do reconhecimento. Nalguns casos, mesmo indefinidamente. Num artigo publicado na New Statesman, Slavoj Zizek elogia Varoufakis – é mesmo, para ele, um elogio – por este se ter livrado da pressão do superego, isto é, segundo a boa lógica freudiana, das regras necessárias à vida em sociedade. Por acaso, até acho uma excelente descrição do personagem, e lamento não me ter lembrado nunca dela. Mas não me parece que seja um predicado muito útil a um ministro das Finanças. De qualquer maneira, é um caso típico onde o reconhecimento do erro trágico, por mais peripécias que haja, é impossível. Ignoro se Tsipras também é assim, embora desconfie que a ideologia, como dantes os deuses, o tenha enlouquecido. Pelo lado do resto da Europa, o reconhecimento que o euro se tornou algo como um leito de Procusto, amputando ou esticando tudo para nele lá caber, também tem sido adiado por bom número de gente. Mas a necessidade que preside às acções não é menor. E o adiamento do reconhecimento produz, como no outro caso, um cruel efeito de comédia. De má comédia, é claro.

Até as paixões que sentimos são as mesmas, piedade e medo, e sensivelmente pelas mesmas razões dos espectadores da tragédia. Piedade pelo sofrimento alheio e medo que nos possa acontecer o mesmo. Dito isto, há uma óbvia e enorme diferença. Ninguém são de espírito busca aqui nenhuma catarse. A catarse, se Aristóteles tem razão, verifica-se apenas na condição de sabermos que estamos em face de uma representação. Se estivermos face à realidade, salvo uma patologia qualquer, ela não pode ter lugar.

Ou então ela só pode ser pensada de uma forma diferente daquela que Aristóteles a pensou. E nesse caso temos de avançar muitos séculos, até ao final do século XVIII, até Kant. Kant, em coerência com os bons princípios do Iluminismo, viu na Revolução francesa um sinal histórico da vocação da humanidade para progredir para o melhor (a posição de Kant face à Revolução francesa evoluiu sensivelmente depois das suas primeiras declarações no capítulo). E Kant teorizou a Revolução exactamente do ponto de vista dos espectadores, daqueles que (como os espectadores da tragédia) se encontram em segurança, à distância, embora a simples expressão do seu ponto de vista os pudesse de algum modo pôr em risco. O que era verdadeiramente significativo na Revolução era a maneira de pensar dos espectadores, uma maneira de pensar que confinava com o entusiasmo e que exibia uma declarada parcialidade.

Neste caso sim, nós encontramos analogias com a situação presente: um investimento passional que mostra uma enorme parcialidade. Lamentavelmente, e apesar de todas as aparências em contrário, tal investimento passional afasta-nos da realidade concreta do sofrimento dos indivíduos, como acontece com quase todas as patologias revolucionárias. A jornalista grega Xenia Kounalaki – conhecida, entre outras coisas, pela campanha, com ameaças de morte, que o Aurora Dourada lhe moveu – escreveu um admirável artigo, “Revolution by Proxy”, no Ekathimerini. Nele fala do “júbilo voyeurístico” que jornalistas e intelectuais estrangeiros sentem face a um “desastre iminente”: o “não” no referendo, a saída da Grécia do euro. Esses imitadores recentes de Lord Byron – Kounalaki refere o jornalista Paul Mason, que associa os votantes do “sim” aos colaboracionistas gregos durante a Segunda Grande Guerra, Paul Krugman, Joseph Stiglitz e Wolfgang Munchau, “a partir do conforto dos seus escritórios em Nova Iorque, Bruxelas e Londres” – são espectadores entusiastas que pedem aos gregos “que se suicidem em nome da resistência”.

Estamos, com a catarse revolucionária, nos antípodas da imparcialidade da tragédia. O Coro trágico (que, é verdade, tem características distintas em Ésquilo, Sófocles e Eurípides) é, na sua objectividade, mais recomendável do que o entusiasmo dos espectadores perpetuamente dados ao complexo de Antígona. O que diria um poeta trágico nos tempos presentes? Arrisco-me ao valente ridículo de o imaginar. Talvez: “O euro é um deus cruel”.