No outro dia comprei três produtos iguais para o cabelo, numa promoção da farmácia. A embalagem dos produtos estava na exuberante embalagem que conto de seguida. Por fora, um plástico a cobrir tudo. Por baixo, uma manga de cartão envolvendo quatro lados da embalagem. A seguir, outra camada de plástico cobrindo nova caixa de cartão que estava por baixo contendo os três produtos. Tirava-se esta caixa e, dentro dela, mais três caixas de cartão (para cada produto), generosamente todas protegidas individualmente por mais outra camada de plástico. Três camadas de plástico e três camadas de cartão para cada um dos recipientes (eles próprios de plástico). Ok, pus tudo para reciclar (sempre fui uma totalitária da reciclagem), mas o excesso – e, ainda mais, o desperdício – de materiais de embalagem foram absurdos.

Há uns meses comprei uma máquina fotográfica. Vinha numa caixa com outra caixa dentro contendo, qual matrioska, mais umas três ou quatro caixas com os vários equipamentos (caixa para os cabos, caixa para a objetiva, caixa para o manual e demais papelada, caixa para o oxigénio). Os perfumes, é certo e sabido, têm caixa de cartão e, depois, plástico a cobrir tudo. Há marcas de chá que têm um saco de plástico com as folhas de chá, dentro de uma caixa metálica dentro de uma caixa de cartão dentro de um plástico protetor. No Natal, depois dos presentes abertos, sobra uma montanha de papel de embrulho que foi usada uma vez e que tem a reciclagem (nas casas mais desleixadas, o lixo) como destino seguinte.

O gosto por camadas em cima de camadas é tal que quando, numa loja, se compram vários presentes, ou presentes ao mesmo tempo com produtos para uso próprio, além do(s) presente(s) ir(em) embrulhado(s), oferecem-me sacos individuais para cada presente (embrulhado e com o devido laçarote). Como se eu fosse oferecer um presente dentro de um saco (exceto se o saco for o próprio do embrulho – ou um saco da Miu Miu, ou coisa parecida, selado, que aí o saco faz parte do impacto). (É caso para perguntar: em quem votam as pessoas que dão presentes embrulhados dentro de sacos? E: como as deixam votar? Pronto. Exagero. Mas pouco.)

Pelo que, caríssimos, está na altura de reconhecer que vivemos num mundo com excesso de embalagem, e irmos a correr para um grupo de ‘Viciados em Excesso de Embalagem Anónimos’.

Nos supermercados, com o plástico, já está toda a gente avisada dos malefícios das embalagens de uso único. Há frutas que não necessitam de um saco individual (peras podem perfeitamente conviver com maçãs no saco reutilizável que se leva para casa). Há materiais alternativos ao plástico que podem ser utilizados.

Porém não é só com o plástico e só nos supermercados. Há um desperdício tremendo dos materiais que se usam para embalagem. Mais de 40% do lixo que se gera com embalagens é de cartão e papel. Na União Europeia, em média cada pessoa produz 170Kg de lixo com embalagens (em Portugal 148Kg per capita). Disto, só 67% (números de 2016) é reciclado.

É certo que o papel não tem os problemas associados ao quase eterno plástico, mas a sua produção é um grande responsável da deflorestação, polui as águas, o ar e os solos, desequilibra habitats com a cultura de eucaliptos, usa químicos para branquear o papel, usa mais químicos para tingir e imprimir no papel e cartão, e usa outra vez químicos para tirar a tinta quando se recicla papel. Além da questão ambiental – que é também uma questão económica – há ainda o desperdício de gastar recursos em embalagem excessiva (outra questão económica). Os próprios produtos são mais caros por este vício de embrulhar tudo várias vezes – sabe que parte do preço de um produto vai para a embalagem, não sabe?

Verdade (e eu tenho alguma experiência no comércio internacional): não se pode embalar peças de vidro que vêm da Mongólia Interior para a Europa num etéreo papel celofane. Estaria tudo partido antes de embarcar. Se se encomenda um bule de chá de grés de Inglaterra, bom, espera-se que venha protegido e chegue intacto. Mas nem tudo precisa destes cuidados.

O que se pode fazer, então? Desde logo, escolher produtos que não tenham embalagens excessivas e, preferencialmente, com materiais reciclados. Preferir embalagens reutilizáveis (eu uso as caixas metálicas de chá para tudo: suporte de canetas, suporte para as maquilhagens, contentor para o algodão na casa de banho – os usos são intermináveis). Aproveitar o número crescente de lojas que vendem produtos a granel onde se podem levar os próprios recipientes para encher. Informar as marcas e os pontos de venda quando notarmos exageros; se houver grande volume de opiniões no mesmo sentido, chegarão aos decisores certos. Escalarmos para menos os embrulhos dos presentes que compramos. (Só no Natal várias florestas médias devem ser consumidas.) E, claro, reciclar os materiais de embalagem. Boas compras.