Tradicionalmente, os portugueses aproveitam o mês de Agosto para gozar as suas férias e, até há poucos anos trás, eu também não escapava à excepção. Alinhados com as férias escolares, os serviços e instituições públicas entram em serviços mínimos ou encerram totalmente, proliferam as mensagens de out-of-office, as decisões são adiadas para a rentrée, o país fica em modo off. Quase literalmente corre-se para férias, num crescendo de intensidade até ao último instante, respondendo-se a emails em contrarrelógio, fechando e resolvendo assuntos pendentes tal e qual numa linha de montagem, encaminhando todos aqueles que depois disto ainda persistem, como se o mundo fosse acabar no dia seguinte e o sinal de alarme tivesse disparado… Recordo-me de quão bem me sabia desligar o PC, despedir-me dos colegas e partir para longe (ou para perto, mas longe dali de qualquer forma)! Esquecer as passwords era a expressão máxima de férias bem passadas e, portanto, havia que fazer por isso. E fazia.

Conheci a Susana [nome fictício] depois de um desses Agostos, em que revigorada com a mudança para registo em off estava pronta para um novo ciclo de trabalho. Surge-me assim uma sombra de pessoa: aspecto macilento, olhar inquieto e preocupado, mãos irrequietas que tanto alisavam o cabelo repetidamente como se entrelaçavam até os seus dedos ficarem brancos e, sentada na pontinha da cadeira, me falava do quão cansada e vazia se sentia. A Susana tinha-se separado do seu companheiro há dois anos e desde então se havia dedicado de corpo e alma ao seu trabalho, procurando superar-se intransigentemente e atingir os resultados que justificariam, aos seus olhos, o seu valor. No ano anterior quase não tinha tirado dias de férias e nesse ano manteve a fórmula, nunca desligando o seu telemóvel, saltando a cada notificação e actualizando e percorrendo constantemente o feed das suas redes sociais. Vivia ininterruptamente conectada com o seu trabalho e acompanhava à distância as vidas daqueles que já apelidava de “ex-amigos”, caso o termo existisse… Para além do contacto social que o seu trabalho exigia, poucos momentos existiam para conviver com outros, para o lazer, para relaxar. “Estou esgotada, quando chego a casa já só quero parar o cérebro e mergulhar numa série e ver episódios seguidos” – partilha. Mesmo quando visitava a sua família, ouvia apressada as novidades da semana de cada um sempre com um olho no ecrã do telemóvel o que invariavelmente suscitava o “Já tens de ir embora? Tens trabalho para fazer, não é?” Acenava afirmativamente, escapando-se na aflição de ver a bateria a terminar e não ter o carregador por perto, ignorando a irritação que causava em todos ao seu redor. Estava cada vez mais longe de todos e de si mesma.

O uso problemático da internet pode constituir um problema grave de saúde, relacionado com sintomas de depressão, ansiedade e stress, resultante da incapacidade de uma pessoa em controlar a utilização da tecnologia e com impactos negativos diversos nas rotinas do dia-a-dia, nas relações familiares, no desempenho laboral e nos estados emocionais.

Enquanto grande parte do país “vai a banhos” e beneficia dos efeitos positivos do descanso da rotina e das exigências do trabalho, das actividades ao ar livre, do tempo de qualidade com familiares e amigos neste “meu querido mês de Agosto”, há quem sinta a manifesta necessidade de estar permanentemente ligado, preenchendo um vazio que se intensifica no período de férias. A Susana enfrenta agora o seu estado de exaustão, recebendo ajuda profissional para aprender e implementar estratégias para desligar do trabalho, estabelecer limites e reconstruir as dimensões da sua vida que foi descurando e que a colocaram na trajectória da solidão acompanhada da existência online. Nessa relação de ajuda, escuta-se a si mesma falando-me do que sente e pensa acerca de como se vê, das suas falhas e ideais, do quanto lhe custa aceitar os seus limites. Estou com ela nessa exploração, compreendendo-a e aceitando-a, expressando-me com autenticidade sobre o que escuto e, com isso, ajudando a que a Susana altere a percepção que tem de si mesma, tornando-se mais realista, mais autoconfiante e apta a funcionar efectivamente, enfrentando os problemas da sua vida adequadamente e de forma mais tranquila.

Que o meu (vosso) mês de Agosto, seja mesmo querido.

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicologia da Educação, Psicoterapia e Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira