A noção segundo a qual só pode haver educação se forem suscitados nos alunos certos sentimentos a respeito dos professores teve origem na Grécia antiga, e em três ideias: a de que as pessoas mais velhas querem seduzir pessoas mais novas; a de que pessoas mais novas querem ser seduzidas por pessoas mais velhas; a de que o conhecimento é essencialmente obtido e transmitido por esses meios.   Sofreu poucas alterações desde essa altura.

Naturalmente, a franqueza helénica repugna hoje à maior parte dos adeptos da noção sentimental: professores e cientistas da educação.   O seu sentimentalismo é igualitário, e não é carnal.   A possibilidade de uma diferença entre professores e alunos ofende os seus instintos antropológicos; e a ideia de que possa existir comércio físico entre as duas classes ofende os seus instintos públicos.

A situação corrente é pois uma situação em que o contacto físico entre novos e velhos tão característico da Antiguidade pitoresca corresponde a uma relação psicológica.   O conhecimento, acredita-se, só pode ser transmitido por meios psicológicos; a única forma de assédio permissível, e aquela que é a cultivada com mais afinco, é a do assédio psicológico.   Acredita-se assim também que a função do professor é a de suscitar nos alunos estados mentais idênticos ao seu, ou pelo menos a de induzir estados mentais que os tornem particularmente receptivos ao que ele lhe tiver para lhes dizer.   Acredita-se finalmente que esses estados (simpatia, cumplicidade, sonolência) são favoráveis à transmissão do conhecimento.

Esta ideia de educação repousa na ideia de persuasão, ou seja, de sedução por meios psicológicos.   Ao contrário do que se pensa é irrelevante que os alunos tenham de ser persuadidos por aquilo que o professor diz; têm porém de ser seduzidos pela ideia de que são sempre capazes de perceber o que lhes está a ser dito.   A educação, num sentido moderno do termo, depende de um modo particular de lisonja que convém a todas as partes interessadas.  A sua expressão estridente é a do professor que declara aos seus alunos o muito que aprendeu com eles.   É encorajado que os professores se imaginem alunos dos seus alunos, visto que os alunos, de qualquer modo, já acham que são professores dos seus professores.

Hoje como na Grécia antiga cultiva-se a ideia de que a educação é uma coisa que nos acontece, como um atropleamento ou uma visitação.  No caso da Grécia antiga era porque se pensava que o amor trazia conhecimento; no caso da escola moderna, menos dada a complicações, é porque se acredita que a lisonja dá resultado.    O que em ambos os casos se nega é que a educação dependa de em algum momento se conseguir perceber que não se percebe nada, outra ideia que terá nascido na Grécia antiga, mas que é menos estimada pelas classes sentimentais.