E ao décimo-oitavo dia, Deus achou que já chegava de emoções e deu ordens para que o tédio se instalasse e tudo se resolvesse nos penáltis, fraca compensação para o suplício a que os adeptos foram sujeitos.

Quem só vê futebol desde 2008 teve direito a conhecer a Espanha de antigamente, não no estilo, que esse não conheceu grandes alterações nos últimos anos, mas no resultado. Depois de várias saídas nos quartos-de-final, em 2006 “nuestros hermanos” chegaram aos oitavos-de-final cheios de gás contra uma França cheia de dúvidas. Zidane apareceu nesse jogo e a Espanha voltou para casa. Com mais ou menos peripécias, com mais ou menos surpresas, era assim que os nossos vizinhos se portavam nas grandes competições. Então, a partir de 2008, as coisas mudaram e mesmo a eliminação na fase de grupos há quatro anos, no Brasil, foi vista como mais um capítulo na maldição dos campeões e não como o início do declínio inexorável da selecção espanhola. Antes da chegada à Rússia, a Espanha era uma das grandes favoritas e nem o despedimento rocambolesco de Julen Lopetegui abalou a confiança das casas de apostas. A fase de grupos não foi brilhante, mas também não foi vergonhosa. Não foi pior do que a maioria dos outros candidatos e, mais importante, atirou Espanha para o lado suave do torneio. O único elemento que podia atemorizar os espanhóis era a tradição de nunca terem vencido uma seleção anfitriã.

Infelizmente, o jogo decorreu de acordo com as previsões mais pessimistas. A Rússia não entrou em aventuras e a Espanha jogou em piloto automático. O golo dos espanhóis foi marcado de calcanhar pelo central russo Ignasevich. Foi o décimo golo na própria baliza neste campeonato do mundo, um recorde, o que nos diz que a auto-ficção saltou da literatura para o futebol ou que alguém na Malásia está a ganhar muito dinheiro em apostas. O golo dos russos foi de penálti, após falta cometida pelo voleibolista Gerard Piqué. Grandes golos? Nem vê-los.

No final dos noventa minutos, os espanhóis tinham acumulado um total de 809 passes, nenhum deles válido para a zona que interessava, a grande área de Igor Akinfeev. Antes dos penáltis, os espanhóis tinham tocado na bola 1140 vezes. Um leitor do Guardian comparou a experiência de assistir a esta espécie de futebol ao momento em que, no aeroporto, estamos à espera da bagagem sem que ela apareça. Mas quem costuma viajar sabe que há muito mais emoção e incerteza nas imediações de um tapete enquanto se espera pela bagagem.

Os russos ficaram-se pelos 200 passes, quase todos no seu meio-campo e quase todos sem sentido. Se o jogo tivesse sido disputado em Lisboa, de cada vez que chegassem ao campo dos espanhóis, os russos teriam encontrado um novo hostel. À falta de um quarto de hora para o fim, Sergio Ramos já tinha feito mais de cem passes. Isco, o único jogador que tentou combater os efeitos soporíferos do jogo da própria equipa, fez 23 passes-chave (segundo a estatística da FIFA), mas nenhum abriu a porta certa. Ao fim de anos e anos de tiki-taka a Espanha ainda não percebeu que, contra certas equipas, o melhor é dar-lhes a bola. Só quando tinham a bola nos pés é que os russos se sentiam desconfortáveis. A “posesión de balón”, sacramento do culto de S. Guardiola, tornou o jogador espanhol incapaz de passar a bola a um companheiro que esteja a mais de cinco metros. Os poucos momentos em que isso aconteceu foi nas previsíveis variações de flanco ensaiadas por Ramos, que nunca apanhavam o adversário desprevenido.

Já no prolongamento, Rodrigo Moreno teve uma arrancada vertiginosa que baralhou os russos e os seus comapnheiros de equipa, numa clara violação dos princípios éticos espanhóis e dos limites de velocidade auto-impostos pela Roja. Mesmo a acabar o jogo, Sergio Ramos pareceu ter sido puxado na grande área. Percebeu-se logo que o árbitro holandês, que ainda aguardou a indicação do VAR, não iria assinalar grande penalidade. Naquele momento, os nomes Skripal e Litvinenko vieram-lhe à cabeça e, num micro-segundo, teve de decidir se queria mesmo passar o resto da vida a olhar desconfiadamente para maçanetas e chávenas de chá. Fez a escolha sensata. A marcação de penáltis corria bem aos espanhóis até ao momento em que puseram um jogador do Atlético de Madrid a marcar um. Nestes momentos graves, não se deve provocar a sorte com tanta insolência. Como se diz em castelhano, “a la maison”.

O segundo jogo da noite, Croácia-Dinamarca, prometia mais equilíbrio e um pouco mais de emoção, já que menos emoção só seria possível se os jogadores jogassem em coma. Os primeiros minutos foram trepidantes. Ao quarto minuto, já tinham sido marcados dois golos, um para cada lado, ambos com o seu quê de comicidade. Portanto, ou íamos ter um daqueles jogos frenéticos, com alterações constantes no marcador, correrias, expulsões e golos de pontapé de bicicleta ou as equipas, com a súbita consciência de que “a este nível qualquer erro se paga caro”, iriam retrair-se para aquele tipo de disputa mortalmente aborrecido que os especialistas designam de “jogo tacticamente muito interessante.”

O jogo foi tão morno que aproveitei o tempo para ler partes do livro Daily Life in Medieval Serbia. A páginas tantas, pode ler-se que a vida nos eremitérios da Sérvia medieval era dedicada essencialmente à leitura dos Salmos, às orações e à prostração, actividades que, em comparação com jogos como este, se podem considerar radicais. Nesta fase a eliminar, só a perspetiva de um desempate por penáltis ajuda a tolerar a monotonia. O jogo pode ser horrível, mas o caminho conduz aos penáltis, pensa esperançadamente o adepto de sofá. Porém, aqui até esse paliativo esteve quase a ser negado quando, aos 115 minutos, Jorgensen cometeu uma falta para penálti. Os deuses devem ter achado que era demasiado sofrimento para um só dia e Modric, que passou a manhã a estudar a melhor maneira de marcar penáltis a Kasper Schmeichel, atirou para defesa do guarda-redes dinamarquês. Passou a Croácia porque um Dinamarca-Rússia não é jogo que se apresente para lá da fase de grupos.