Que semana inolvidável ao nível da tolerância, sã convivência étnica e respeito pelo ser humano. Tudo começou com um artigo no Público em que a historiadora Maria de Fátima Bonifácio explanou uma versão do clássico “Isto os negros e os ciganos é tudo a mesma corja”. Na sequência deste despautério, Mamadou Ba, do SOS Racismo, exigiu que a senhora seja presa por dizer estas parvoíces. E eu neste momento confesso que estou na expectativa. A confirmar-se que escrever parvoíces dá cadeia, acho que prefiro correr o risco e abraçar o meu sonho antigo de uma carreira no tráfico internacional de orgãos humanos. Em vez de estar em casa sentado ao computador, sempre se viaja para sítios novos e conhece-se imensas pessoas. Algumas delas mesmo muito intimamente.

Acaba por ser pena esta desavença entre Maria de Fátima Bonifácio e Mamadou Ba, porque na verdade creio que se conversassem um bocadinho entender-se-iam às mil maravilhas. A Maria de Fátima acha que os negros e os ciganos são inferiores pelo simples facto de serem negros e ciganos. O Mamadou acha que os negros e os ciganos — só eles e todos eles — devem sentir-se pessoalmente ofendidos por estas estupidezes pelo simples facto de serem negros e ciganos. No fundo ambos concordam que é a dosagem de melanina no organismo de um indivíduo que comanda a vida. E não o sonho, como muita gente pensava, parvamente. Tipo o Martin Luther King, que tinha aquele sonho pateta das pessoas não serem julgadas pela cor da pele mas pela qualidade do carácter e tal.

Enfim, felizmente estão a ser dados passos decisivos no combate ao racismo, nomeadamente na indústria cinematográfica. Agora que Daniel Craig anunciou a sua reforma enquanto James Bond crescem os rumores que a atriz britânica de origem jamaicana Lashana Lynch será a nova agente 007. Claro que isto obrigará a algumas mudanças nos filmes, mas se eu mandasse mantinha as Bond Girls. Estou em crer que uma agente secreta que além de ser mulher e negra fosse também homossexual faria, aí sim, maravilhas pelo combate a toda a sorte de preconceito.

Mas esta será apenas a primeira de muitas novidades na saga 007. Por exemplo, nos próximos filmes protagonizados pela nova agente secreta já não vai haver aqueles gadgets tecnológicos todos, típicos dos filmes do 007. Não que as mulheres não possam adorar engenhocas inovadoras, claro. Isso seria sexista. Não haverá gadgets porque o MI-6, para cumprir quotas de género, teve de contratar uma engenheira para substituir o velhinho Q. Engenheira essa que já tinha entrado no curso de engenharia através de quotas. Depois de ter ido para Letras no 10º ano para fugir à matemática. Resultado: há muita justiça social, sim senhor; jigajogas espectaculares é que nem vê-las.

E esqueçam desde já os mauzões tipo Dr. No e Raoul Silva, ou a vilã interpretada por Grace Jones. O primeiro era um semi-asiático com mãos prostéticas, o segundo resvalava um bocadinho para a homossexualidade e a terceira era uma mulher negra. Ora, nos dias que correm toda a gente sabe que é impossível alguém com estes tipos de perfis engendrar velhacarias. Daqui para a frente o vilão dos filmes 007 será sempre um opressor homem caucasiano heterossexual, passe a redundância. E nem precisa de arquitectar planos maquiavélicos para destruir o mundo. Basta aparecer e estar quieto. Ali, sossegado, ele é o símbolo máximo da malvadez e da perfídia. E agora que penso nisso até sei quem seria o actor ideal para o papel: o próprio Daniel Craig. O futuro ex-James Bond é, nos tempos que correm, o protótipo de vilão do James Bond. Pois é, parece que isto deu a volta. Como as calças à boca de sino, que afinal já são cool outra vez. Agora é só aguardar com calma que as coisas dêem a volta de novo e tudo regresse ao normal.