Estas eleições presidenciais e as ilações que dela têm sido tiradas convocam-me para outros assuntos que se observam na realidade internacional e que vale a pena abordar.

Há um número impressionante de Portugueses que escolheram opções radicais à esquerda e à direita. A coqueluche, neste aspeto, tem sido André Ventura, amigo de Le Pen e Salvini, mas as propostas que apareceram à esquerda (que parece estar normalizada depois de alguns anos de geringonça) também cá andam e em números que não são despicientes.

Ora, esta constatação leva-me à seguinte. Como em Espanha há um ano, Portugal corre o risco de se bipolarizar. Eu explico: com o fim das maiorias absolutas, causado pelo aumento do número de partidos, a tendência é que haja um curto espaço de tempo de fragmentação (votos distribuídos entre vários partidos), mas que rapidamente se forme um bloco dos partidos de direita contra um bloco de partidos de esquerda. É certo que concorrem todos separados, mas precisam uns dos outros para formar governo. E apesar de haver países na Europa onde as coligações governativas são constituídas por partidos de várias sensibilidades políticas, como na Alemanha, em Portugal não é essa a tradição. E duvido que venha a ser.

Quando há uma bipolarização dos partidos, com radicais dos dois lados, quase sempre acontecem duas coisas: os conteúdos programáticos dos governos radicalizam-se, acabando por promover uma erosão das ideias do centro político. Ainda não temos experiências suficientes que nos mostrem as consequências, mas para quem é a favor da democracia e da liberdade, a diminuição, seja de que maneira for, dos partidos que as defendem é uma má notícia.

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Em segundo lugar, a existência de dois blocos únicos conduz, com frequência, à polarização. Passamos a ser binários, de esquerda ou de direita, como se não houvesse nuances. Os eleitores indecisos – em alguns casos – desinteressam-se das eleições; muitos eleitores do centro abstêm-se por preverem a coligação que se segue ao seu voto moderado; os mais ativos, que nunca faltam a uma chamada às urnas, são os mais radicalizados. Aqui já temos exemplos, muito frescos na nossa memória. Vejam o que se passa nos Estados Unidos. A trapalhada que causou a uniformização dos partidos, onde cabiam várias ideologias, e a sua cada vez maior radicalização. Biden pode ter ganho, mas a forma como o centro regressou ao poder em Washington não dá garantias nenhumas de sucesso.

Todo este processo pode levar mais ou menos tempo. Há inúmeras varáveis que ainda não conseguimos prever. Mas há uma, inescapável: estamos em crise. E não há nada mais impulsionador de movimentos radicais e castigador de partidos centristas do que o medo do futuro e a tentativa desesperada, por parte dos eleitores, de tentarem inverter a sua sorte, apostando em quem nunca apostaram e castigando quem podia ter mitigado o que lhes está a acontecer.

Nenhum destes elementos é uma fatalidade. É uma tendência que não é só portuguesa, é europeia. E como todas as tendências negativas, é importante que se comecem a cuidar para que não se tornem realidade. Já foram experimentados vários modelos, mas ainda não há resposta fácil a este dilema. Daí a importância de refletirmos sobre eles.

Os problemas (graves) podem ter chegado primeiro aos Estados Unidos – o sistema bipartidário facilita este fenómeno. Mas não imaginem que a Europa ocidental não enfrenta os mesmíssimos fantasmas, do populismo ao bipolarismo. Desfazer este nó, antes que seja tarde, cabe ao centro partidário; tem de assegurar aos cidadãos que presta atenção aos seus anseios e que tem soluções para eles. Tem de ter coragem para reformar o que precisa de ser reformado. E cabe também aos cidadãos, que precisam de se empenhar se querem que a democracia resista. Como dizem Ziblatt e Lewitsky, secundados por tantos outros, as democracias precisam de quem as “guarde”. São frágeis e podem ser efémeras se não tiverem os cuidados necessários.