Marinho e Pinto foi a grande surpresa das eleições europeias, com o seu partido a alcançar o quarto lugar e a eleger dois deputados europeus. O bom desempenho eleitoral foi visto, por muitos, como o resultado da insatisfação dos portugueses com as políticas de austeridade e com o sistema partidário. Marinho e Pinto fez campanha contra a “austeridade”, contra as “imposições da Europa”, contra o inevitável “neoliberalismo”, e em defesa das pensões e dos reformados. E foi com este discurso que apanhou o avião no aeroporto de Lisboa.

No entanto, chegado a Bruxelas, mudou radicalmente, e juntou-se ao grupo liberal do Parlamento Europeu. Vai sentar-se na mesma bancada dos maiores defensores da austeridade, da ortodoxia monetária e da disciplina fiscal imposta pelo Tratado Orçmental. Os seus colegas serão os liberais alemães, mais ortodoxos do que o partido de Merkel, os liberais holandeses e os liberais filandeses. Marinho e Pinto será colega de Ollie Rehn, até há pouco Comissário europeu para as questões monetárias e financeiras. Por outras palavras, um dos chefes da “troika”.

Como é valente e esperto o nosso Marinho e Pinto. Em Portugal, é eleito a fazer campanha contra os “neoliberais”. Em Bruxelas, vai beneficiar do poder politico e das vantagens financeiras do grupo liberal. Entre os portugueses, ataca as políticas europeias de austeridade. No Parlamento Europeu, senta-se entre os maiores defensores do Tratado Orçamental. Pelo meio, bastou-lhe uma campanha eleitoral e um pequeno voo de pouco mais de duas horas para aprender os truques mais espertos da baixa política. Respeito pelo seu eleitorado? Atenção ao escrutínio democrático? Detalhes que não preocupam minimamente o nosso Marinho e Pinto.