Vivemos em Junho o Mês do Orgulho. Os portugueses1 celebraram no dia 10 o seu orgulho2 por Portugal, por Camões e pelas Comunidades Portuguesas. Orgulho por aquilo que somos e demos ao mundo3. Orgulho pelo poeta que exprimiu a glória pátria, na língua que nos une, com um estilo sublime4. Orgulho pelas Comunidades Portuguesas, evidência do universalismo da nossa cultura, da sua expansão multicontinental e da sua aceitação multicultural.

E não será legítimo sentirmos orgulho em sermos portugueses? Quem é o tuga que não tem orgulho nas conquistas feitas pela nossa geração? Da vibrante democracia, que nos une & empodera a todos como se membros do governo5 fossemos, & que garante a prossecução do interesse público sem a mácula de negociatas à conta do orçamento de estado nem de caciquismos que desviam os voos da tap procedentes de Maputo? Na pujante prosperidade atual da nossa economia, com salários altos, carga fiscal baixa, e que sustenta sozinha o orçamento da União Europeia & garante a sua solvabilidade? Ou no temor que as nossas forças armadas inspiram na Rússia, na China, nos EUA e ao exército de todos os vírus Covid? Para já não dizer nada da eficiência e qualidade dos nossos serviços públicos, da justiça à saúde, passando pela educação?

Se não tivéssemos orgulho na nossa Ínclita Geração, que somos todos nós, desde o alm. Vasco Gonçalves ao eng. Costa, e especialmente todos os que votam ps, que deu a Portugal a fama & glória universal de que atualmente goza, teríamos orgulho em quê? Nos feitos dos nossos antepassados, muitos dos quais não deixaram descendência? Na descoberta do Cabo Bojador, na conquista de Goa e na colonização do Brasil, para os quais nada contribuímos pessoalmente? Mas não seria isso pura vanglória6? Esses feitos históricos só são nossos, e deles só nos podemos orgulhar, por apropriação, isto é, na medida em que os conhecermos, no grau em que apreciarmos a sua bondade, e na dimensão em que nos identificarmos com os seus autores & na vontade com que estivéssemos dispostos a neles participar caso necessário.

Assim, como poderíamos ter orgulho na conquista de Malaca se não soubéssemos da sua ocorrência, e do que lá se passou em 1511? Ou, sabendo, não a considerássemos um feito heroico, eticamente justificável & política e estrategicamente importante? Quem é que tem orgulho em ter participado num ato vil, desumano, desnaturado7 ou inútil? Ou, considerando-a heroica, não quiséssemos nela participar se para tal tivéssemos tido oportunidade? Se não quiséssemos ou disparar os canhões que bombardearam a cidade, ou descarregar os arcabuzes contra as tropas malaias entrincheiradas, ou espetar a nossa lança na barriga do elefante do manhoso sultão? Nem correr o risco de sermos baleados ou decapitados por algum malaio durante uma dessas atividades?

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Mas, mesmo estando dispostos a disparar os canhões e a usar as lanças & arcabuzes em Malaca, mas não tendo tido, por motivos óbvios, a oportunidade de o fazer, será que o nosso sentimento pelo que lá se passou será verdadeiramente orgulho? Não será antes agradecimento àqueles que o fizeram por nós, e sem a nossa ajuda? Será que Camões teria orgulho no uso que fazemos da sua língua quando usamos “orgulho” em vez de “gratidão” 8 nestes casos?

E não será que, em vez de termos orgulho naquilo que cada um de nós hoje é, e daquilo de bom que realizou, não devíamos antes de mais é estar agradecidos àqueles que, vindo antes de nós nos criaram as condições e nos deram os recursos para que o pudéssemos fazer? Fica assim a proposta: que tal deixar cair o orgulho, que é associal e antagonístico, & rebatizar Junho como o Mês da Gratidão?

U avtor não segve a graphya du nouo AcoRdo Ørtvgráphyco. Nein a do antygo. Escreue coumu qver & lhe apetece. #EncuantoNusDeixam

  1. Português: espécie de patinho; ave com habitat natural em Portugal, com pouca gordura mas cheio de penas; pássaro a cujo grasnar se chama fado; ave facilmente domesticável quando não voa para outras paragens; quando esganado pelo estado serve de excelente pitéu para alimentar políticos e seus compadres e afilhados, se cozinhado a lume brando com molho de comissão parlamentar e pimentão burocrático.
  2. Orgulho: o florescer do ego; sentença que juiz passa quando é o réu; sentimento de prazer derivado de obra realizada por terceiros; sensação de satisfação na consideração de qualidades que adquirimos a contragosto em casa e na escola; soberba no masculino; consciência de uma dignidade que nos foi conferida por outrem; altivez de espírito, embora sendo o espírito algo de que os materialistas questionam a existência, surge a dúvida se o orgulho verdadeiramente existe; aquilo que procede a ruina & a queda (Prov. 16, 18); virtude que nos ganha o inferno.
  3. Mundo: o estado terrestre da existência humana, especialmente quando sufixado pelo diabo e a carne; estado não-terrestre da existência humana, quando prefixado pelo ‘outro’.
  4. Sublime: algo de semelhante a um granda almoço, bem regado com cerveja; designava antigamente coisas hoje incompreensíveis.
  5. Governo: grupo seleto de pessoas, geralmente políticos9, escolhidas para o desgoverno da nação & do seu próprio governo.
  6. Vanglória: gloria de divã; glória que nos advém daquilo que dizemos e fazemos no divan.
  7. Desnaturado: ato contra a natureza das coisas, como não deixar carnívoros & omnívoros comer carne; pessoa ou organização que, como o pan, pratica este tipo de ações.
  8. Gratidão: sentimento fugaz que esperamos vir a ter depois de receber um favor, mas que desaparece assim que surge a expectativa do seguinte.
  9. Político: classe zoológica de que fazem parte o passarão e vários tipos de invertebrados e parasitas; verme que vive na lama que cobre a superestrutura societária; parasita que quando se contorce confunde a própria vibração com a da estrutura social que, enquanto a ardor da comichão é sofrível, o suporta; sanguessuga fiscal e cuco empresarial; comparado com o estadista tem a desvantagem de ainda estar vivo.