O meu terceiro avô do lado do meu pai era galego, nascido em 1837 em San Mamede, província de Orense. Veio para o Porto em 1873, como tantos dos seus conterrâneos que atravessavam a fronteira do Minho para fugir à pobreza ou, mais prosaicamente, para escapar aos “sorteamentos” do serviço militar obrigatório. Sei disso porque, quatro gerações depois, quando eu nasci, a sua história continuava viva na memória da família.

A partir de meados do século XVIII entraram em Portugal dezenas de milhares de galegos. Durante todo o século XIX e parte do século XX esses homens foram aguadeiros, moços de fretes e postilhões. O meu avô foi cozinheiro, conforme consta da autorização de residência que lhe foi passada pelo administrador do “concelho de Gaya” em 1896 e que tenho aqui, diante de mim, enquanto escrevo. Havia profissões piores. Ser aguadeiro, por exemplo, significava carregar aos ombros, suspensos de correias de couro, pesados canecos de madeira com metade do tamanho de um homem, cheios de água, e percorrer com eles as íngremes ruas das encostas do Douro, do lado do Porto e do lado de Gaia, para vender a água aos habitantes. No Norte ainda se diz: “trabalhar como um galego”. Os nortenhos consideravam os galegos uns brutos manhosos e os galegos consideravam os autóctones uns tolos preguiçosos: “A terra é boa, a xente é tola, a auga é deles e nòs vendemoslla”, assim conta Aquilino Ribeiro (em “Lápides Partidas”, 1945) que escrevia um galego emigrado à sua mulher.

Galegos e portugueses do Minho são todos cristãos. Cruzam há séculos a fronteira entre os dois países para casamentos e negócios. Falam praticamente a mesma língua. Comem os mesmos enchidos e bebem o mesmo vinho. Vistos de Lisboa, há cem anos, ninguém os distinguia. Muitos galegos trabalhavam nos restaurantes da Baixa, a servir às mesas, e aí viviam em quartos e partes de casas das ruas mais modestas (Fanqueiros, Douradores, Correeiros). Alguns tornavam-se comerciantes. Uns poucos enriqueceram. Eram galegos os donos do Café Martinho, da Pastelaria Suíça e do Gambrinus. Há até um milionário, Manuel Boullosa: ainda que nascido em Lisboa, a sua ligação à terra ancestral era suficientemente forte para o fazer doar à Xuventude de Galicia o palacete que hoje serve ao grémio de sede em Lisboa, ao Campo de Sant’Anna. Pois ainda assim se podia escrever, em 1912, nos jornais de Lisboa (“O Paiz”, jornal republicano radical), que os galegos eram “ladrões”, cheios de “ronha” e “porcaria”. Gerações de comerciantes honestos e bem sucedidos não tinham chegado para apagar a imagem do galego miserável e analfabeto.

O que sobra desta história é simples. Foram necessárias gerações para esbater mínimas diferenças entre portugueses e galegos. Quantos anos vai demorar a apagar-se a diferença entre nós e as populações do norte de África e do Médio Oriente que estão a encher a Europa e que não partilham connosco a herança cristã, nem a Guerra dos 30 Anos, nem a Revolução Francesa? Isto não vai correr bem.

P.S. – No passado sábado caiu um helicóptero do INEM. Morreram os pilotos João Lima e Luis Rosindo, o médico (galego) Luis Vega e a enfermeira Daniela Silva. Quero render-lhes aqui homenagem e cumprimentar todos os colegas deles que continuam todos os dias do ano, esforçados e invisíveis, a garantir que nenhum doente está demasiado longe para ter ajuda. É disto também e sobretudo que se faz a coesão nacional. Por isso, sim, são heróis. Bem hajam.