Este ano o desfile comemorativo do 25 de Abril contou com a presença de vários convidados estrangeiros que estavam em Portugal devido a uma reunião destinada à construção de listas pan-europeias.

Foi na qualidade de líder desse movimento – o DIEM 25 – que Yanis Varoufakis desfilou na Avenida da Liberdade, entre sorrisos e selfies. Uma imagem bem mais consentânea com a fase inicial, quando foi ministro das Finanças do Governo do Syriza, do que com aquela em que foi destituído do posto.

Uma destituição que, na leitura do próprio e de uma parte considerável daqueles que marcaram presença no desfile, resultou da imposição alemã. Uma abusiva intromissão de Angela Merkel nos assuntos internos gregos.

Quanto à responsabilidade do próprio, designadamente devido à inexistência de um plano alternativo para a eventualidade – um eufemismo que significa «certeza» – de a Grécia voltar a necessitar de ajuda externa, nem uma palavra.

Ora, palavras, mais exatamente o direito à palavra, foi o que não faltou a Varoufakis. Os meios de comunicação social fizeram questão de aproveitar ao máximo a presença em Portugal de tão importante vulto do populismo pan-europeu. Um marxista errante na autodefinição.

Uma sorte para os portugueses porque ficaram a saber que, sem a luta grega, Portugal não teria logrado autorização da Alemanha para colocar a geringonça na estrada. Varoufakis não tem a mínima dúvida de que foi essa luta que retirou capital político a Angela Merkel e a forçou a não abrir uma nova frente tendo a formação do Governo em Portugal como alvo.

Como tal, a fazer fé nas palavras de Varoufakis, António Costa deveria estar eternamente grato ao Syriza da primeira geração. Aquela que ousou desafiar a prepotência teutónica numa conjuntura em que, segundo um número não despiciendo de analistas, o antigo ministro desequilibrava as contas gregas e procedia a alterações semânticas e, como tal, de reduzido ou nulo valor substantivo.

Não é seguro que António Costa venha a fazer publicamente esse agradecimento. Agradecer não é um ato muito consentâneo com alguém que não esconde a dificuldade em pedir desculpa quando tal se impõe. A regra do Costaquistão. Uma República de méritos próprios e de «inconseguimentos» alheios. Mesmo que esses «inconseguimentos» tenham deixado os cofres providos e as contas a caminho da consolidação.

Realidades que não convém publicitar. Não interessa ensombrar o brilho do mérito próprio. O único com direito a honras de primeira página e a abrir os espaços informativos.

Aliás, Varoufakis cometeu um erro de aprendiz. Não conseguiu sofrear a raiva contra Merkel, esquecido que, no Costaquistão, não convém desvalorizar a figura de Mário Centeno.

Voltando ao desfile, diga-se que o 25 de Abril comemora o dia da liberdade. Qualquer que seja a interpretação feita relativamente ao conceito. Por isso, há partidos populistas que fazem questão de a utilizar na designação.

Para fazer jus à data, Varoufakis teve direito a liberdade em dose reforçada. Assim, teve liberdade para, integrado na comitiva oficial do Livre, desfilar na Avenida da Liberdade e liberdade para propagandear nos media o modelo que pretende para o processo de integração europeu.

Um modelo subscrito pelos partidos populistas de esquerda e que faz do centralismo decisório do eixo Berlim-Paris e do populismo de direita os seus inimigos de estimação.

Sendo certo que a posição inicial também colhe junto de partidos não-populistas, não é abusivo afirmar que será reduzida a percentagem daqueles que se identificam com o modelo preconizado por Varoufakis e respetivos aliados. Um modelo cujo lema não andará longe do apelo: Populistas de esquerda de todo o mundo uni-vos!

Modelo que remete para a atual ideóloga de vários partidos populistas, Chantal Mouffe, viúva de Ernesto Laclau, o ideólogo inicial de dirigentes de partidos ancorados em reflexões pós-gramscianas. Uma doutrinação que teve a universidade como palco.

Num evento de caráter científico, curiosamente também realizado em Portugal, Mouffe afirmou que a solução para travar o avanço do populismo de direita passava por apostar no populismo de esquerda.

Um modelo que, a ser posto em prática, implicaria rebatizar a Avenida da Liberdade.