Em três semanas de manifestações, o balanço das centenas de milhares de pessoas mobilizadas em França pelos “gilets jaunes” é de 8 mortos e 996 feridos — 788 entre os manifestantes e 208 entre as forças policiais –, tendo sido efetuadas 1.603 prisões e 1.387 manifestantes colocados em “garde à vue”. Não garanto até às unidades estes números, cuja apuração ainda está a decorrer, mas dão ideia da dimensão do fenómeno.

Num ápice, a França passou de uma das democracias mais estáveis da Zona Euro para um ambiente de revolta nas ruas, carros queimados, enfrentamentos com as forças de ordem, paralisação das infraestruturas rodoviárias e desestabilização nas zonas mais emblemáticas da République, como os Champs-Élysées e o Arco do Triunfo.

Aquilo que começou como uma mera reunião de pessoas em protesto contra aumentos dos preços dos combustíveis transformou-se numa autêntica revolução que se estendeu de Paris a diversas cidades da França. Em poucos dias, passou-se de um protesto contra impostos para um objetivo político bem mais amplo, subordinado a um dos lemas da revolução francesa: “rendre au peuple son rôle souverain“.

Algo de profundamente errado ocorreu em França, assente num enorme erro de cálculo de parte do governo de Macron. Esse erro está relacionado com o diferente sentido de urgência que o Governo e a população colocam nos problemas ambientais.

As manifestações dos coletes amarelos em França foram a primeira movimentação popular significativa contra políticas ambientais. O seu profundo significado político reside precisamente no reconhecimento deste facto. Até agora as políticas ambientais eram consideradas unanimemente como populares entre os países desenvolvidos. Verificou-se, no entanto, que este pressuposto estava errado. Afinal não era assim. A maioria da comunidade científica, com todo o alarmismo que colocou nos problemas ambientais, não conseguiu fazer com que as pessoas se preocupassem mais com a “pegada ambiental” do que com pagar a renda ou ter mais compras no final do mês.

Os coletes amarelos abalaram um dogma, dos mais profundos, entre o politicamente correto: que as políticas ambientais eram unanimemente apoiadas pela população e que esta estava disposta a sacrificar-se por melhorar o ambiente.

Este raciocínio assentava num pressuposto errado, baseado na urgência dos problemas ambientais, que foram colocados acima das preocupações económicas da generalidade da população. Ora só pessoas instaladas na vida e com um certo grau de conforto aceitam que as políticas ambientais se possam repercutir nos seus rendimentos.

É justo que as pessoas com mais rendimentos paguem pelas políticas ambientais, mas profundamente injusto que estas impactam sobre setores populacionais que lutam pela sobrevivência.

No respeitante aos automóveis, são sem dúvida as classes mais afluentes que lideram a luta contra a poluição, simplesmente porque são as únicas que podem comprar carros de cerca de 50 a 80 mil dólares, como os Tesla, por exemplo. E estes carros são subsidiados: não deixa de ser injusto que os governos subsidiem automóveis que só os ricos podem comprar.

Muito pior e mais dramático é aumentar o preço da gasolina para financiar políticas ambientais, como fez Macron, porque afeta indiscriminadamente toda a população e coloca muita gente com dificuldades económicas perante a situação inaceitável de ter de comprar menos bens no supermercado para financiar carros elétricos que nunca poderão pagar.

Há outro fenómeno que se conjuga com a situação anterior para criar uma “tempestade social perfeita”. Está relacionado com a baixa do preço do petróleo verificada nos últimos 10 anos. O barril desceu para cerca de um terço desde 2008 – em junho de 2008 estava a 161,28USD e, em 14 de dezembro deste ano, a 51,25USD — sem que o consumidor europeu tenha beneficiado desta tremenda descida da matéria prima no preço dos combustíveis. Nos EUA, a gasolina vendida ao consumidor baixou cerca de um terço desde 2008, acompanhando muito de perto o preço do petróleo, mas na Europa o sistema em vigor impediu que o consumidor beneficiasse de uma descida significativa dos combustíveis. Pelo contrário, em Portugal, escandalosamente, a gasolina aumentou desde 2008, de 1,381€ para 1,507€.

Nos EUA, o preço médio atual da gasolina é de 0,64€ por litro. Em França, a gasolina está a 1,44€ por litro. Em Portugal, está exatamente ao mesmo nível da França (GlobalPetrolPrices.com), embora a diferença de salário médio entre os dois países seja brutal: em França, o salário médio está em 2.255,00€, e em Portugal é de 925,00€. O que significa que uma empresa como a GALP, para além de beneficiar de metade do preço da matéria prima dos combustíveis sem ter diminuído proporcionalmente o preço de venda dos combustíveis – pelo contrário, ainda os aumentou – paga metade do salário da sua congénere francesa aos seus trabalhadores. Alguém está a ficar multimilionário à custa dos consumidores, ou seja, à nossa custa.

Contra este estado de coisas se manifestam os “gilets jaunes”. E como têm razão, é previsível que as suas atividades se estendam a toda a Europa. Em Portugal já está marcada uma manifestação para o próximo dia 21. Eu só não vou se não puder.