Sempre que, durante a quarentena, falei da dedicação extraordinária dos pais, escutei alguns deles a responderem-me, duma forma seca: “Não fiz mais que a minha obrigação!”. Ora, eu não acho mesmo nada que tenha sido assim. Ser presente e estar atento, e preencher todos os seus gestos de “mil cuidados” e dar o melhor si não é uma obrigação dos pais para com os filhos. É — muito mais — um compromisso. Que vem do “fundo da alma”! Um compromisso com os filhos. Mas, também, consigo-mesmos. E com uma ideia de pais que acaba sempre por ser um testemunho (melhorado) da forma como se sentiram filhos e se “idealizam” como pais. Diante de tanto amor de pais, o “Não fiz mais que a minha obrigação!” tem uma aragem desconfortável, nas “entrelinhas”. Esvaziada de afecto. Muito pouco acolhedora. E quase-nada aconchegante.

Mal o perigo de uma pandemia soou, os pais protegeram os filhos. Assumiram uma “cerca sanitária” — rígida — à volta da família. Reeducaram-nos, rapidamente, para as relações sociais. Assumiram-se como um incansável sistema de alarme em relação a todos os gestos irreflectidos dos filhos que, aos seus olhos, os pudessem colocar em risco. Estruturaram programas diários que preenchessem a vida deles e que os fizessem fugir à televisão e aos jogos de vídeo. Transformaram os grupos de WhatsApp de mães numa espécie de “brigadas de acção rápida” que criaram redes de informação e de troca de sugestões  e de cuidados. Puseram os filhos a conversar uns com os outros através de mensagens, de pequenos vídeos e de lives (às vezes, chorosos) entre eles. Acudiram a uma nova categoria de papões e, por obra do vírus, tiveram “piquetes”, quase diários, de auxílio a uma “epidemia” de insónias que nunca mais acabava. Engoliram em seco um ror de vezes, sempre que eram confrontados com uma cascata de perguntas — duras e directas — sobre a morte e o morrer (dos avós e dos pais) que os filhos foram pondo, em conta-gotas, à sua guarda. Choraram, por vezes, em silêncio e às escondidas. Muniram-se de doses quase inacreditáveis de bom senso sempre que o humor das crianças entrava num loop e elas tão depressa pareciam não se calar como ficavam inflamáveis ou, mesmo, explosivas. Fizeram escolhas de “cortar o coração” entre os seus pais e os seus filhos, e dividiram-se em cuidados para com uns e para com os outros que não lhes deram descanso por “um único minuto”. Desfraldaram os filhos. Aprimoraram dotes para os trabalhos manuais à conta de não sei quantos tutoriais. Circularam por todos os sites e webinars onde puderam estar, para se informarem e para imaginarem ocupações para as crianças. Arrumaram a sala e os quartos em regime “non stop”, sete dias por semana. Mesmo cheios de sombras, dentro deles, contaram histórias, riram, cantaram e brincaram. Puseram as crianças a cozinhar. E, mesmo em layoff, fizeram por pôr as preocupações para “trás das costas” e cuidaram — cuidaram sempre — de forma incansável. E trabalharam; sem horário nem condições de trabalho. E fizeram listas de compras. E cozinharam. E fizeram de explicadores. E de professores. E de curadores da escola. E de cúmplices, cuidadosos, dos professores. E resguardaram, discretamente, tudo aquilo que era, dantes, importante e inadiável para si. Tudo, sobre tudo, em nome dos filhos. Os pais fizeram muitíssimo mais que “a sua obrigação”. Mantiveram as empresas, as instituições e o país a funcionar. Não dormiram. Não pararam. Nunca se puseram em primeiro lugar. E merecem um olhar (comovido) de admiração e de reconhecimento. Os pais – convém que não os esqueçamos nisto tudo – merecem a nossa (ilimitada) gratidão!

Durante a quarentena, nós agradecemos aos médicos, aos enfermeiros e a todos os profissionais de saúde. E agradecemos aos bombeiros, aos socorristas e aos polícias. E agradecemos aos padeiros, aos funcionários de todos os serviços indispensáveis e a todos aqueles que, com sacrifício das suas famílias e com risco próprio, criaram as condições para estarmos fechados, em quarentena, dias a fio. E, à noite, batemos palmas. E elogiámos. E que bom que o tenhamos feito, num mundo que, a espaços, parecia mal educado, egoísta, indiferente e ingrato! Mas era altura de dizermos aos pais: Muito obrigado! Obrigado por terem — como sempre, aliás — feito muito mais que “a vossa obrigação”! Obrigado por serem uma força tranquila! Obrigado por serem fortes! Obrigado por serem a reserva de bom senso de todos nós! Obrigado por serem os heróis em que ninguém reparou! Obrigado por darem um sentido à bondade! Obrigado por nos recordarem que a humanidade começa nos nossos gestos de pais e de filhos! E obrigado por nos darem, pelos vossos cuidados e pela elegância da vossa discrição, motivos inquebráveis para acreditarmos que, se depender do vosso exemplo — sejam quais forem as pandemias e os muros de insensatez que elas tragam consigo– o futuro será um lugar de rosto humano. Feito de pessoas capazes do seu melhor. Obrigado!