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Nestas eleições Presidenciais, mais do que uma escolha entre esquerda e direita, os Portugueses foram forçados a escolher entre moderados e radicais. Por moderados entenda-se os que valorizam o projeto de social democracia Europeia, a liberdade, o conhecimento e a ciência. Por radicais entenda-se os que falam levianamente em ilegalizar partidos, os que desejam um Estado todo poderoso ou os que fomentam um discurso de ódio vago e sem sustentação.

Perante essa divisão, mesmo que muitos tenham votado na revalidação do Presidente de coração cheio julgo que a maioria, tanto à direita como à esquerda, terá votado no Professor com alguma insatisfação. Mas fizeram-no por o considerarem o único candidato moderado verdadeiramente presidenciável, com a experiência, formação e habilidade políticas necessárias para um cargo de tamanha responsabilidade.

Mas essa, diria eu, era a parte expectável. A maior curiosidade destas eleições disputava-se na arena dos radicais e aí Ventura derrotou os candidatos do Bloco e do PCP, nomeadamente no seu território.

Nesse anfiteatro dos extremos, uma parte da esquerda descontente com a Governação penalizou o apoio que o PCP e o BE têm dado ao Governo e mesmo simpatizando com esses partidos decidiu não votar em João Ferreira ou Marisa Matias, preferindo votar em Ana Gomes ou mesmo em André Ventura (como se viu pelos seus resultados no Alentejo). Outra parte do eleitorado, à direita, optou por penalizar o apoio (excessivo) que Marcelo tem dado ao Governo, escolhendo votar em André Ventura ou em Tiago Mayan.

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Tiradas estas conclusões genéricas, mais pragmáticas do que ideológicas, vamos ao futuro. Quais as principais questões que saem destas eleições:

Como vão reagir os partidos da extrema esquerda a esta derrota extrema? Vão cobrar um preço ainda maior para suportar o Governo PS, ou, com medo de eleições, vão aguentar de mansinho até às legislativas, esperando que em 2023 as coisas estejam melhores para os seus lados? Vão preferir ir a eleições contra Rui Rio, Ventura, Cotrim e Rodrigues dos Santos ou vão preferir esperar por 2023? Se esperarem por 2023, encontrarão um PSD e um CDS com lideranças mais fortes ou mais fracas? E o PSD e o CDS vão perceber que não podem deixar a oposição mais dura nas mãos de Ventura e que para isso poderão ter de mudar de líderes? E Marcelo, agora expressivamente reeleito, vai ser mais exigente com o Governo e com as suas muletas, ou atendendo à pandemia vai manter o mesmo registo?

Muitas questões, cujas respostas certamente vão influenciar o nosso destino. Seja como for, seremos nós, o povo, a pagar o preço destas nuances partidárias. Um preço tanto mais alto quanto estas se sobrepuserem ao interesse nacional e quanto falharem na apresentação de uma alternativa política que responda verdadeiramente aos maiores problemas estruturais de Portugal:

  • O colapso do serviço nacional de saúde, já antes da pandemia marcados por enormes filas de espera para consultas e cirurgias e uma desvalorização dos seus profissionais.
  • O endividamento, assinalado por uma divida pública superior a 130% do PIB e uma divida total de cerca de 360% do PIB.
  • O desequilíbrio demográfico, com um saldo de apenas 1,42 filhos por mulher e 161 idosos por cada 100 jovens, fazendo de Portugal o terceiro Pais mais envelhecido da União Europeia, onde quase um quinto da população é idosa.
  • O desemprego jovem, superior a 23%.
  • A baixa produtividade por hora trabalhada, que foi de 23 euros em Portugal face aos 41 euros da média da UE27 em 2019.
  • A desigualdade económica e social, nomeadamente no acesso a um ensino de qualidade, mas também ao nível dos rendimentos, numa sociedade com um grau de mobilidade demasiado baixo.
  • Os baixos níveis de escolaridade, com 25% da população entre os 25 e os 34 anos sem o ensino secundário ou superior (o terceiro pior resultado da União Europeia), e o pior valor de empregadores sem o ensino secundário ou superior (47%) e de trabalhadores por conta de outrem sem o ensino secundário ou superior (40%) da União Europeia.
  • A lentidão da justiça, o conluio e a corrupção.
  • A ausência de um enquadramento propicio para dinamizar a atividade e o investimento empresarial.
  • A falta de qualidade da nossa democracia, marcada por demasiado nepotismo e compadrio e falta de valorização do mérito e da transparência.
  • A ineficiência dos serviços públicos, nomeadamente no capítulo digital, mas também na organização e na formação dos recursos humanos.

Sobre estes problemas pouco ou nada se falou no decorrer da campanha para as Presidenciais. E o que se disse não os resolve. Porque estes constrangimentos não se combatem com declarações bacocas sobre a defesa da constituição, nem alimentando ódios, nem promovendo a célebre discussão vazia entre esquerda e direita, nem passando culpas para Passos Coelho ou para os Portugueses.

Estes problemas resolvem-se com medidas concretas, como por exemplo a criação de creches gratuitas espalhadas por todo o País, a reforma do sistema fiscal para o tornar mais simples e competitivo, a formação de empregadores e trabalhadores, a aposta clara na prevenção na saúde com consultas de check-up incluídas no serviço nacional de saúde e outras tantas medidas que os partidos deviam discutir sem as resumir a contendas ideológicas entre esquerda e direita, olhando para elas como causas comuns dos moderados.