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Crónica

Por cá, na Quinta…

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Estes prodígios das finanças criticam tudo e todos, direita e esquerda. Nada lhes serve. O que interessa é o que Estado volte a abrir os cordões à bolsa (e nisso os socialistas são bons, sem dúvida).

Devo começar por informar, que faz 30 anos que passo as minhas férias de verão na Quinta do Lago. Não digo isto por vaidade, mas apenas para melhor entenderem as linhas que se seguem.

Ao longo destes 30 anos, só existiram dois tipos de governantes que, mal ascenderam ao poder, apareceram na Quinta como que a mostrarem a sua – balofa – novel importância. Dois ou três dos governos de Cavaco Silva e uma catrefada dos executivos socialistas.

Este ano temos por cá, a saltitante Ministra da Saúde. É daquelas pessoas que, para passear, anda para trás e para a frente na zona da praia com mais gente. Ninguém lhe liga peva. No dia em que escrevo este texto, não vejo a Senhora Ministra. Deve ter vergonha, pois foi hoje que morreu um recém-nascido, cuja Mãe teve de ser evacuada para Lisboa, já que o hospital central desta região – que é o nosso ex-libris turístico – não tem condições para tratar de casos complicados. Que linda propaganda para aqueles que nos visitam.

Mas, e após este introito, o que me tem “estragado” as férias, são as conversas que oiço à beira-mar, nos toldos vizinhos, nas mesas dos restaurantes. E, o que escuto, mas não entendo, é que a geringonça não foi assim tão má e que – se calhar – uma maioria socialista, nem seria assim tão má já que a direita vai de mal a pior. Por favor, tenham vergonha na cara e tento na língua.

Esta minha irritação – para que o leitor perceba – advém do facto que as pessoas que fazem as declarações que transcrevi, são o “créme de la créme” da advocacia, da banca, da gestão. Ora, estas pessoas, parecem estar mais preocupadas em mostrar aos amigos, o último modelo da Porsche, ou da Tesla, do que colaborar com as campanhas dos partidos democráticos.

Assim, e entre dois carabineiros no Gigi, riem-se com vontade das golas para os fumos e do padeiro que era assessor de um Secretário de Estado. Estes prodígios das finanças criticam tudo e todos, da direita à esquerda. Ninguém lhes serve. O que interessa é o que Estado volte a abrir os cordões à bolsa (e nisso os socialistas são bons, sem dúvida).

Outra conversa, por cá muito repetida, é o mundo que os seus filhos têm (presumo que em comparação com o mundo que eles (não) tiveram). Note-se que eu acho lindamente que os jovens ganhem mundo. Os meus Pais deram-mo e eu tudo fiz para que os meus filhos também o tivessem. Mas, uma coisa é dar mundo, outra é enviá-los para o mundo. Ora, estes jovens não fazem tenções de voltar. Foram cá – muito bem – formados e é lá fora, que irão pagar impostos e constituir família. É por lá que farão a sua vida. Por cá, virão nas férias – desde que as mulheres não estejam grávidas – para reencontrar os amigos de sempre, na praia do costume.

A questão que se coloca é: de onde vem este adormecimento? Nos EUA os (20) candidatos às primárias do Partido Democrata, já angariaram centenas de milhões de dólares, para as suas campanhas. Por cá, os partidos vivem das subvenções do Estado, porque esta elite que não se importa de pagar 500€ num jantar para dois em algum dos bons restaurantes à volta da Quinta, já acha caro pagar quotas num partido político, ou pagar 20€ num jantar de campanha. São muito liberais – ou dizem ser – na economia, nos negócios, mas lá no fundo o que querem é um Estado que lhes apare os golpes, que não ponha banqueiros na prisão e que não os impeça de continuarem a fazer férias na Quinta do Lago, mesmo depois de terem lesado meio mundo.

As minhas sugestões para estes “colegas” veraneantes é que adiem a troca do carro e que jantem menos vezes fora, para que, com essa poupança, possam ajudar os partidos que lutam – com desigualdade de meios – contra as esquerdas encaixadas, por forma a impedir que essa frente consiga os 2/3 do nosso Parlamento. É que, embora muito inteligentes, estas pessoas parece que ainda não perceberam que, com esse número, com essa maioria, as esquerdas relegam para um papel insignificante o Presidente da República (cujos vetos passam a ser contrariados pela dita maioria) assim como têm o caminho aberto para uma revisão constitucional feita totalmente à sua maneira, ao seu gosto! Se isto não chega para acordar os distraídos, sinceramente já não sei o que pode acordar esta “elite” que, por cá, na Quinta, continua bem-disposta, protestando apenas com a temperatura da água do mar.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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