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O dia 1 deste mês foi anunciado como da libertação, no entanto parece que ainda não conseguimos libertar-nos do mais importante: do medo.

Continuo a ver pessoas na rua de máscara mesmo que o risco de transmissão ao ar livre seja muito reduzido ou mesmo nulo quando nem sequer estamos a comunicar com alguém. Continuamos a mandar as crianças para a escola de máscara e, em muitos casos, a não as deixar ficar sem ela no recreio: Muitas também continuam a fazer educação de física de máscara, mesmo ao ar livre, e a acabar a aula com ela encharcada de suor. Desde que deixou de ser obrigatório usar máscara em várias superfícies comerciais ainda não vi ninguém sem ela e até vejo pessoas a conduzir sozinhas de máscara posta.

O que é que isto quer dizer? Quer dizer que o medo não é nada racional (porque não é possível que alguém imagine que pode ser infectado ou infectar alguém quando está sozinho no carro ou na rua) e que os portugueses continuam cheios de medo.

No sexta feira 13 de 2020 em que as escolas fecharam pela primeira vez, lembro-me de andar pela cidade já deserta, de ter apanhado o metro vazio para ir buscar o meu filho à escola, onde já só estavam umas dez crianças, e de ter pensado que o medo que estava a ver não ia desaparecer tão cedo.

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Porque o problema do medo é que é muito fácil de ligar, mas bem mais difícil de desligar. O problema do medo é que não é racional. Não depende da lógica e não desaparece com argumentos. E a máscara tornou-se quase uma espécie de amuleto para lidar com o medo. Sempre soubemos que as doenças existem, sabemos que somos mortais. Mas nunca vimos isso usado contra nós e nunca essa nossa fragilidade foi usada para nos fazer sentir culpados de eventualmente podermos provocar a morte de alguém.

Lidávamos com isso com uma certa inconsciência necessária e importante que nos permitia continuar a viver. Sabemos que, como humanos, precisamos de viver perto uns dos outros e com essa proximidade vêm muitas coisas boas e fundamentais, mas também os vírus. Agora há pessoas que querem manter este tipo de restrições para sempre, até para vírus como a gripe. E esse é um caminho perigoso porque é um caminho de desumanização.

Aquilo que une todos os que têm contestado estas medidas é justamente o facto de querermos continuar a ser humanos. Humanos que trocam abraços, sorrisos, beijos e também vírus de vez em quando.

A forma como temos lidado com isto nos últimos tempos parece querer reduzir-nos a todos a um mundo em que somos meras entidades biológicas e em que os ecrãs podem substituir o corpo presente.

E quando entramos neste caminho de desumanização é muito fácil esquecer aquilo de que as crianças precisam para crescerem felizes e saudáveis. Talvez isso explique o facto de estarmos há dezanove meses a pôr de lado o seu bem-estar e a pôr em risco o seu bom desenvolvimento apenas para proteger os adultos. Quando aqueles deveriam ser os primeiros a ver as medidas aliviadas parece que vão ser mesmo os últimos. Porque é que isto acontece?

Esta crise veio tornar visíveis problemas que já existiam antes. A forma como temos desconsiderado aquilo de que as crianças precisam para crescer saudáveis só é possível porque antes de tudo isto esse respeito já nem sempre existia.

As nossas crianças são das que mais tempo passam nas creches. E nessas creches há quase sempre um número demasiado elevado de crianças por adulto, ao mesmo tempo que também há uma tendência para as fechar à família: em muitos desses locais a entrada dos pais já não era permitida ou encorajada, mesmo antes desta crise começar. Também temos uma cultura de sobre-protecção e de grande aversão ao risco, que faz com que as nossas crianças tenham muito pouco tempo para brincar livremente e passem demasiado tempo fechadas.  Nos vários países europeus onde as crianças nunca usaram máscara na escola a verdade é que já havia uma cultura de maior respeito pela infância.

Estes, ligados a outros fatores importantes, contribuem para que tenhamos um elevado número de crianças e jovens orientados para os pares: isto acontece quando as crianças não têm um adulto presente e disponível durante uma boa parte do tempo e torna-as muito mais vulneráveis a problemas de ansiedade e depressão e muito menos capazes de pensar por si mesmas. Os jovens orientados para os pares falam todos da mesma maneira, vestem todos da mesma maneira e pensam todos da mesma maneira. Precisam de se sentir iguais para se sentirem aceites: esta é uma característica da imaturidade que também caracteriza esse fenómeno da orientação para os pares e que, em muitos casos, parece acontecer também nos adultos da nossa sociedade.

Nos últimos dias falei com dois jornalistas estrangeiros que queriam perceber como é que Portugal se tornou no país mais vacinado do mundo. Um deles era da Roménia, em que só 30% das pessoas foi vacinada e com o qual até temos pontos em comum. E tem-me intrigado esta questão: o que é tornou os portugueses tão obedientes nestes últimos tempos e o que é que nos está a fazer ter tanta dificuldade em largar as medidas?

A verdade é que os portugueses nunca foram muito bons a cumprir regras, sempre gostámos mais de as contornar, por isso sempre me surpreendeu que nos transportes públicos, que nunca deixei de usar, nunca tenha visto uma única pessoa sem máscara, à exceção de uma visivelmente alcoolizada. Em todos os países europeus as pessoas têm saído à rua em massa para contestar as medidas e aqui muito poucos o fizeram. Uma das nossas caraterísticas é a preocupação constante com aquilo que os outros pensam de nós.

Isto explica também o facto de tantas pessoas não conseguirem livrar-se da máscara mesmo quando ela deixou de ser precisa. Porque a máscara nos ajuda a mostrar aos outros que levamos isto a sério. Também é comum as pessoas perguntarem umas às outras se já foram vacinadas e ninguém quer assumir que ainda não foi, porque isso nos coloca imediatamente numa posição desconfortável com o trabalho que a comunicação social tão bem andado a fazer de rotular como ignorantes e egoístas todos os que não aceitam ou não cumprem as medidas.

O medo que a comunicação social ajudou a espalhar e a manter também tem uma grande dose de culpa. Uma boa parte das pessoas que respondeu a um inquérito feito em tempos julgava que a taxa de mortalidade da covid era bem superior à real. Temos uma tendência inata para registar mais facilmente o perigo e as ameaças do que as coisas neutras ou positivas.

Também não podemos esquecer que temos uma das maiores taxas de consumo de psicotrópicos e isso significa que temos uma sociedade com graves problemas de saúde mental, de pessoas insatisfeitas, infelizes e com altos níveis de ansiedade. Mattias Desmet é um psicólogo belga que explica que o vírus pode ter ajudado a dar algum sentido à vida dessas pessoas. Quando usamos uma máscara em público estamos a transmitir uma mensagem: que nos importamos com os outros. Quando ficamos em casa e nos privamos de certas coisas temos a ilusão de que estamos a salvar vidas e isso dá-nos um propósito e um sentimento de missão e de união que nem sempre são fáceis de encontrar no dia-a-dia. Algumas pessoas sentem-se quase heróis por tomar a vacina, acreditando que este é um gesto de altruísmo. E talvez por isso também as pessoas não hesitem em sacrificar as crianças: acreditando que as estão a ensinar a ser altruístas e a pensar nos outros. Mas tudo o que ensinamos a uma criança que passa os dias de máscara na escola e tem de desinfetar as mãos sempre que lá entra é que ela é perigosa, que os outros são perigosos e que tem de reprimir os seus impulsos de tocar, de brincar livremente, de se aproximar das pessoas e até de se sujar porque existe um perigo no mundo.

Estamos a criar uma geração de crianças bem mais egoístas ao ensinar-lhes que precisam de desvalorizar os sinais do próprio corpo (ignorando o desconforto que a máscara provoca), ao fazer com que se sintam desconfortáveis com os outros porque não têm um bom acesso às suas expressões faciais e porque há sempre a mensagem no ar de que eles podem ser perigosos, fazendo com que não aprendam a reconhecer nem a expressar emoções, porque a máscara as impede de o fazerem.

As crianças só podem ser altruístas quando não têm medo, quando se sentem respeitadas, acolhidas e seguras, coisa que tem sido bem mais difícil de acontecer nas escolas neste último ano e meio. Também não ensinamos respeito e altruísmo quando desrespeitamos a saúde dos adolescentes submetendo-os a uma vacina que lhes traz mais riscos que benefícios.

Muitas pessoas não querem voltar ao antigo normal porque pela primeira vez se sentiram a contribuir para o bem comum e sentiram que tinham algum propósito na vida. Mas estamos a criar muito mais problemas com as medidas do que com o vírus. Estamos a prejudicar gravemente toda uma geração de crianças com problemas que, em muitos casos, se farão sentir só daqui a uns anos. Porque quando estamos a viver a crise, nem sempre os efeitos são visíveis. As marcas que o trauma deixa só aparecem depois de sairmos da situação que o criou.

Muitos pais dizem que os filhos não se queixam, mas isso não quer dizer que não lhes esteja a fazer mal. Já tive adolescentes que me disseram que não querem tirar a máscara porque se sentem feias. Então aquilo que estamos a fazer é dar a estes jovens um conforto temporário que só servirá para trazer outros problemas mais tarde, porque algum dia terão de mostrar a cara alguém, e como se irão sentir nessa altura?

Como podemos acreditar que educar crianças e jovens neste mundo desumanizado sem sorrisos, sem toques e sem emoções lhes trará alguma coisa de bom? Neste momento é altura de tentar corrigir os estragos que já foram feitos, não podemos continuar a perpetuá-los. É altura de nos libertarmos do medo e de deixarmos as crianças viver com abraços, com partilhas e, acima de tudo, com humanidade.