Se a hipocrisia é o preço que o vício paga à virtude, a acção simbólica é o preço que a acção política paga à ideologia!

Confesso que não consigo recordar onde li, mas gravei na memória e, por isso, vai em itálico. Usei esta metáfora noutras ocasiões e pareceu-me adequada a este tempo de eleições bem mais decisivas que a indiferença e apatia dos meus concidadãos as múltiplas sondagens parecem sugerir.

A emergência ecológica é uma realidade. Do clima incerto, ao desaparecimento das fontes de água doce na Ásia, na África e Américas, antes locais de atracção turística, à seca da nossa planura alentejana, aos tornados e tufões que flagelam geografias conhecidas e às inundações inesperadas na vizinha Europa, tudo isso são sintomas e sinais de uma doença planetária que é fundamental não ignorar. Mas como na Medicina, mais que o consolo e empatia sempre necessários, importa conhecer as causas para com determinação e eficácia conseguir a cura da doença.

A jovem sueca que mobilizou o mundo – e que exemplo! – fez em New York um apelo notável: não ignorem a Ciência! A evidência parece clara; o aquecimento global, o degelo nos pólos, a redução dos glaciares são realidades que não podem ser ignoradas. E pena é que responsáveis políticos do outro lado do Atlântico se assumam anti-Ciência, um mau presságio para os tempos que se aproximam.

Mas daí às tomadas de posição demagógicas, cujo interesse real é bem mais complexo que o simbolismo da proclamação sugere, vai uma distância enorme.

Sempre entendi que mais que proibições autocráticas, será a criação de alternativas, de novas oportunidades de escolha informada dos cidadãos, sejam eles utentes de cantinas académicas ou de restaurantes da moda, e que é através da educação continuada e baseada em evidência científica, que se poderá alterar a realidade.

A memória é uma maldição, dizia-me um amigo que muito prezo. E recordo os anos 60 e 70, as grandes cruzadas ecológicas, estimuladas e assumidas por quem, do outro lado do Muro de Berlim, concretizou gravíssimos atentados à natureza e ao ambiente que só a cortina de silêncio impedia o seu conhecimento generalizado. Por isso, rendendo-me à admirável mobilização da juventude em todo o planeta, à sua capacidade de organização e à unidade na diversidade de tantos continentes, não consigo evitar que possa emergir in the back of my mind uma preocupação: haverá força ou poder não democrático e menos legítimo aproveitando toda esta admirável generosidade?

Sejamos claros. No essencial estamos todos de acordo, há urgência em retroceder na delapidação dos nossos recursos planetários, tudo tem uma relação custo-benefício e numa sociedade democrática e aberta, é fundamental que a acção seja consequente, determinada por conhecimento rigoroso e por decisões adequadas, sem hipocrisia nem demagogia.

Mas a hipocrisia não prevalece só na questão ambiental, que reafirmo inequivocamente, é uma urgência colectiva e cuja solução que não se compadece com eliminação arbitrária de seres humanos dispensáveis ou desprezíveis, como infelizmente foi sugerido nesse tumulto de arbitrariedade em que se arrisca converter a moderna tecnologia de comunicação.

Existe, também noutras áreas fundamentais da nossa Sociedade, onde pela repetição exaustiva de um discurso optimista se escamoteiam dificuldades e problemas, evitando o debate político sério e informado.

Vejamos a Saúde. Exemplos concretos talvez ajudem melhor a perceber a realidade, do que exposição mais racionalizada e completa. Como diria o meu Mestre, serão como o palito no bolo para apreciar a sua cozedura!

Neste caso o estado do SNS. Alguém informado confidenciava-me ser agora frequente que radiologistas já não integrem diariamente as equipas de urgência nocturna, substituídos pela leitura à distância dos exames, via telemedicina. E acrescentava esse meu amigo, que infelizmente não era só nos hospitais mais periféricos, mas também nos maiores e mais diferenciados.

Confirmei junto de profissionais de Saúde que, nalguns destes hospitais de maior diferenciação, exames mais sofisticados e essenciais à decisão clínica em Urgência, são realizados só por técnico de Imagiologia acompanhado do médico requisitante para administrar o contraste. A alternativa é os doentes esperarem até de manhã.

Que diferença no meu tempo, em que tantas vezes na Urgência, pude discutir casos difíceis com os meus colegas radiologistas, beneficiando duma útil e importante troca de impressões, perante o doente real, ora fazendo mais uma imagem, um outro exame, ou reflectindo sobre as dúvidas suscitadas.

Como é possível que se ignore este valor acrescentado ao serviço dos doentes e do seu tratamento mais eficaz, e se considere aceitável que num serviço de Urgência Central e de referência se possa funcionar, nesta área fulcral, por comunicação à distância?

Há falta de especialistas? Certamente, e algumas áreas estão bem carenciadas e há anos. Que planeamento houve e como foi cumprido? De quem é a responsabilidade última de pensar, dirigir e prever as necessidades dos serviços de Saúde? Culpar eventual corporativismo médico pela restrição do acesso à Formação é hipocrisia, serve apenas como cortina a quem determina e financia os lugares de formação nos hospitais públicos, condicionando a abertura de vagas a outros critérios e não às necessidades. Não foram os sucessivos Ministérios da Saúde que preferiram a sobrevivência do SNS pela contenção de despesas, em vez de um planeamento rigoroso e a coragem para as reformas indispensáveis na sua organização?

E porque não contratar especialistas fora do mercado nacional? Vivemos uma sociedade aberta, a Europa é um mercado comum, outros países reconhecem a qualidade dos nossos profissionais e contratam-nos, noutros, próximos pela cultura e pela língua, há profissionais de qualidade a procurar a segurança e tranquilidade da nossa Sociedade. Porque não se equacionam esse tipo de soluções?

Por uma razão simples, porque não temos ou não podemos disponibilizar recursos para lhes pagar adequadamente. O SNS já não é atractivo para ninguém, nem os nossos conseguimos manter no serviço público e essa é a razão fundamental porque há tanta carência de profissionais médicos e de enfermagem no SNS, e pela qual uma parte substancial opta ou pelo sector privado ou pela emigração, onde o seu trabalho é reconhecido e melhor recompensado.

Pensar que se resolve o assunto com medidas punitivas, restritivas da liberdade de escolha dos profissionais de Saúde é uma pura ilusão, é mais uma hipocrisia com que se pretende esconder a realidade amarga.

Por tudo isto, a discussão política teria que ser diferente, basear-se no Conhecimento profundo dos problemas, numa metodologia de acção assente na Verdade e no Rigor, que fosse determinada e consequente, privilegiando o Bem Público e esse deveria ser o Compromisso que os candidatos eleitorais deveriam assumir com os Portugueses, e não apenas a fidelidade aos slogans e aos interesses circunstanciais de qualquer maioria eleitoral.