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A única boa herança da divindade dos hipsters – Obama – vai ser a simbólica: o primeiro presidente negro. (Do Irão espero para ver.) Das muitas vezes que digo isto, outras tantas respondem-me que o símbolo não serviu para nada, afinal as relações inter-raciais nos Estados Unidos não se pacificaram e até andam mais explosivas.

Mas eu persisto teimosamente (como de costume) na minha opinião: o símbolo foi importante e as tensões atuais não são novas, estavam apenas latentes à espera de uma brecha por onde se tornarem visíveis. Um exemplo se estrépito e recente foi a discussão sobre o passado escandaloso da bandeira da Confederação (que uniu os estados esclavagistas durante a Guerra Civil).

A causa da discussão não foi nada divertida – o ataque terrorista a uma igreja frequentada por negros – mas algumas reações (os maluquinhos das redes sociais nunca nos falham) foram hilariantes. A melhor veio de um professor de uma obscura universidade de Chicago que sugeriu suicídio em massa aos brancos americanos por serem herdeiros da classe esclavagista. Apesar de bastante incentivado a isso no twitter, não consta no entanto que o dito professor, de pele clara, tenha escolhido oferecer-se para exemplo do ato que aconselha aos companheiros de cor de pele.

Mas houve argumentos mais sólidos em termos de, enfim, raciocínio humano básico. Uns defendiam que os períodos históricos, mesmo os que não são de molde a serem descritos num discurso empolgado de Churchill como a finest hour de um povo, devem ser assumidos e não escondidos em museus. Do outro lado, não custa perceber que a bandeira da Confederação seja ofensiva para um negro americano descendente de escravos.

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Mas onde se para? O livro de Margaret Mitchell, que deu origem ao filme E Tudo o Vento Levou, é claramente racista (e o filme…). Proibir o livro é impensável, mas deve-se bani-lo das bibliotecas públicas dos Estados Unidos? E os venerados pais fundadores do país? Ontem encontrei na Slate este anúncio que George Washington colocou, em 1761, num jornal para recuperar uns escravos fugitivos que considerava sua propriedade. Muda-se o nome da capital do país para corrigir esta intolerável complacência com a escravatura? E a constituição americana, que declarava que um escravo valia três quintos de um branco livre? Devem os originais do documento ir para o depósito de reciclagem de papel?

Do outro lado do charco há debates semelhantes. A nova alcaidessa de Madrid (radical de esquerda, claro) quer mudar os nomes das ruas alusivos ao regime franquista (que, diga-se, não provoca qualquer simpatia ao meu coração de direita). Para, diz Manuela Carmena, cumprir a lei de memória histórica promulgada durante o governo desse lapso eleitoral que foi Zapatero.

Ora eu concordo sempre com o reconhecimento do sofrimento das vítimas de qualquer ditadura e de as compensar. Também percebo a necessidade de um estado democrático repudiar regimes ou atos que não sejam estandarte de respeito pelas liberdades individuais e pela dignidade humana.

No entanto, contudo, mas, não obstante, deixa-me desconfortável um governo decidir uma memória histórica oficial. Vejo como justo reconhecer as vítimas e punir quem as vitimizou. Não me comovem as decisões supostamente magnânimas de amnistiar passados questionáveis. Mas um governo decretar como os governados devem valorizar um determinado período histórico é aberrante e digno das tais ditaduras que causam ressentimentos – donde, é política preferencial de qualquer iluminado socialista.

Em Madrid, da maioria das vezes que lá estive, fiquei num hotel na Calle Hermosilla, mesmo ao pé da Calle Serrano, que foi buscar o nome a um falangista de topo. Vejo agora que perdi uma parte fundamental da vida madrilena, porque nunca dei por grafíti ou protestos de jovens indignados com rastas e ganzas junto às placas com o nome da rua; nem notei qualquer esgar de repugnância quando alguém o proferia.

Se não há incómodo, por que se insiste em agitar ressentimentos? Porque, em boa verdade, se formos passar pelo fino crivo dos valores liberais atuais todos os nomes de rua, toda a imagética do passado, todos os monumentos, o que resta?

Em Madrid, ao lado do hotel também está a Plaza Colón. Ora Cristóvão Colombo é odiado pelos índios nativos americanos que o veem como o primeiro europeu que chegou às suas terras para lhes arruinar o modo de vida. Muda-se o nome à praça em repúdio pela era colonial que Colombo inaugurou? Nós em Lisboa já não temos (e bem) ponte Salazar, mas temos Avenida Álvaro Cunhal, senhor que não ficou conhecido pelo amor à democracia representativa, mas antes pelo apoio a regimes dos mais miseráveis do século XX.

A questão permanece: onde se deve colocar a fina linha encarnada que separa a herança histórica que devemos repudiar e aquela que devemos assumir, mesmo com os seus períodos negros? A resposta não é fácil. E dificulta-se quando extremistas políticos insistem em (des)educar as populações antes contentes e despreocupadas.