Inicio esta crónica convidando o leitor, que esteja em Lisboa, a fazer uma experiência. Vá de metro à Baixa e na estação Baixa-Chiado saia para a Rua do Crucifixo. Aí, antes de entrar na rua, pare. Olhe primeiro para sua a esquerda e depois para a sua direita. Se for de noite o resultado é mais surpreendente. Porque a Rua do Crucifixo está dividida em duas partes sendo a saída do metro, de frente para a Rua da Vitória, a fronteira entre as duas. Caso possa vá lá o quanto antes que já aqui voltamos no final do texto.

Nasci e sempre vivi em Lisboa. Conheço a zona que vai da Baixa ao Rato e daí até Alvalade como a palma das minhas mãos. Os meus avós viviam nas Avenidas Novas e a minha mãe dava consultas de pediatria na Santa Casa da Misericórdia, no Largo Trindade Coelho. Cresci nesta cidade que envelhecia a olhos vistos. Sabia-o não porque todas as pessoas o dissessem, não porque todas as semanas saísse uma reportagem sobre o estado lamentável em que se encontrava Lisboa, mas porque via. Via uma cidade velha, escura, a cair aos bocados com casas sem condições, umas vazias e outras habitadas por pessoas que deviam ter muito melhor.

As lojas não vendiam e estavam decadentes. Os edifícios não sofriam obras de restauro porque não valiam nada. E não valiam nada porque ninguém queria viver no centro da cidade, como eram poucos os que desejavam habitar nas Avenidas Novas. Não tivessem sido os escritórios e Lisboa teria desaparecido do mapa. Uma cidade vazia é uma cidade onde não se investe porque não há retorno e uma cidade onde não se investe é uma cidade que não se ilumina. Uma cidade sem luz é uma cidade condenada. Este foi o estigma da Lisboa que sempre conheci e que perdurou até há cerca de 5 anos.

Quando o anterior governo liberalizou a lei do arrendamento esta Lisboa começou a desaparecer. Sem entraves legais ao investimento, os imóveis valorizaram, fenómeno que se foi acentuando com o cada vez maior número de cidadãos interessados em investir na cidade. Sejamos justos neste ponto: Ricardo Robles não foi o único a tornar Lisboa melhor. Foram aos milhares os portugueses e estrangeiros que, a partir do momento em que investir em Lisboa passou a dar retorno, se atreveram a fazê-lo. Foi este ‘boom’ imobiliário que tornou possível os arranjos florais, a melhoria dos passeios nas Avenidas Novas e a que se passase a andar de bicicleta. Porque só numa cidade dinâmica vale a pena andar de bicicleta. Já numa cidade decadente as pessoas enfiam-se nos centros comerciais.

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