Crónica

Se eu pudesse ver a minha avó /premium

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Atrás da tela do computador, os olhos avermelhados seguem clamando por uma trégua. O céu escureceu ainda mais. Hoje não vou vê-la. Mas fecharei os olhos por alguns minutos, sem contagem regressiva.

O céu está nublado. A tarde vai caindo, esquisita, sem que se saiba ao certo se o sol já se foi ou não. Tantas nuvens sobrepostas. Os olhos, por trás do computador, já estão avermelhados, implorando pelo fim do dia, dos e-mails, das angústias e dos esforços. Mais um pouco, só mais um pouco.

Daqui umas horas eu saio. E vai ser bom. Minha casa, um banho calmo, um sofá pegajoso, uma garrafa de qualquer coisa proibida para menores de 18 anos, uma série qualquer na televisão. Sim, vai ser bom. Só seria melhor se fosse outra casa. Não uma casa qualquer, mas a dela.

Entraria pela porta da casa da minha avó, deixando para fora qualquer coisa que me atormentasse. Aquela porta, análoga a um detector de metais de aeroporto, simplesmente não permite que entremos com fantasmas, preocupações e urgências. Mesmo sem perceber, deixamos tudo do lado de fora.

E ela estaria lá, com cheiro de lavanda, colar com bolas redondinhas e um sorriso invencível. No abraço dela, nunca há futuro e ansiedade. No abraço dela há uma peculiar mistura de presente com passado, que não há em nenhum outro lugar do mundo. E eu estaria ali, apenas ali, naquele cômodo, naquele abraço, naquele momento. Não haveria notificação de whatsapp, nem compromisso às 21.

E então ela diria coisas boas. Contaria sobre uma fruta madura que comprou na feira, sobre uma vizinha que se tornou avó de um bebê rechonchudo, sobre um livro interessante que está lendo, sobre um casaquinho de tricô que está terminando. Da sua boca não saem desgraças, xingamentos ou navalhas. Saem cachecóis, lembranças e afagos.

E certamente haveria um bolo. Talvez de laranja, talvez um pão de ló. E com o bolo viria o chá, o café, o leite morno. Um pão fresco certamente também surgiria. Manteiga, queijo, geléia de morango. E nos sentaríamos na mesa da cozinha, rasgando os pães sem pressa, comendo coisas boas, sem regras e sem culpa.

E ela poderia reclamar um pouco. Da dor nas pernas, do tempo, dos dias repetitivos, das restrições que a médica impôs. E eu poderia reclamar um pouco. Da dor de cabeça, do trabalho, dos dias caóticos, das restrições que a nutricionista impôs. E tudo bem, faz parte do jogo. O clima não ficaria pesado, nem perderíamos a alegria daquele fim de tarde.

E, por algumas poucas horas, o mundo estaria do lado de fora, impedido de entrar por aquela porta de madeira. E eu estaria ali, e em nenhum outro lugar. Com o corpo, a cabeça e a alma, que, hoje em dia, tão raramente se reencontram. E ela estaria ali, tão certa, tão frágil e tão sólida. Por alguns momentos do meu dia, haveria essa tal de plenitude.

Atrás da tela do computador, os olhos avermelhados seguem clamando por uma trégua. O céu escureceu ainda mais. Hoje não vou vê-la. Mas fecharei os olhos por alguns minutos, sem contagem regressiva. Sentirei seu cheiro de lavanda, seu abraço lento, sua calma constante. Ouvirei sua voz. Ficarei com ela, sem pressa. E onde quer que ela esteja, sei que vai sentir minha presença.

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