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Rui Rio

Sem aliados

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Rio está em conflito aberto com o seu próprio partido, vê Cristas reclamar para si a liderança do centro-direita, e está em vias de perder Marcelo. A sua estratégia está a isolar politicamente o PSD.

Não vale a pena perguntar a Rui Rio como lhe correu o fim-de-semana. A resposta é óbvia: correu mal. Dir-me-ão: qual a novidade, se ainda nada correu particularmente bem a Rui Rio? A novidade é que tudo foi ainda pior nestes últimos dias. Rio ficou a saber que Marcelo desconfia da sua capacidade para liderar a oposição ao governo – e que, se for preciso, assumirá ele próprio o papel. Que Cristas definiu como máxima ambição ultrapassar o PSD nas eleições legislativas – soa a meta impossível, mas também assim soava nas autárquicas lisboetas e foi o que se viu. E que o país começa a franzir os olhos perante o descrédito de uma direcção política que só dá maus exemplos – depois das escolhas polémicas de Salvador Malheiro e Elina Fraga para vice-presidentes, agora foi o secretário-geral do PSD a ser acusado de forjar um documento para insuflar o seu currículo.

A soma não dá um resultado bonito de se ver. E tem um significado maior: Rui Rio está a isolar-se num terreno político onde ficará sem aliados. O líder do PSD bem tem tentado desvalorizar as críticas, fazendo passar a ideia de que é uma questão de tempo até todos se converterem à sua visão. Por exemplo, acerca dos ataques oriundos do seu grupo parlamentar, Rui Rio acondicionou tudo a “três ou quatro” deputados mais contestatários que tardarão uns “quinze dias” a estar “completamente alinhados” (lê-se no Expresso deste sábado). Só que o tempo passa e são cada vez mais numerosos os que negam que a aproximação ao PS traga qualquer benefício político. E já não é só dentro do PSD – são também os seus naturais aliados que têm interrogações sobre este novo rumo.

Sim, falar-se-á muito de Assunção Cristas e da forma ambiciosa como esta assumiu querer ser primeira-ministra e ter o CDS à frente do PSD nas eleições legislativas de 2019. Tal como muito se discutirá o modo explícito de como o CDS visa construir as suas forças das fraquezas do PSD. Como escrevi em reacção ao congresso do CDS, onde Cristas coloca ambição de vitória, clareza no posicionamento político à direita e caras novas e jovens, Rio apresenta cenários para sobreviver à derrota em 2019, ambiguidade esquerda/direita, e uma equipa de grisalhos. E, sim, tudo isso tem uma leitura política: o CDS, natural aliado partidário, vê na estratégia de Rui Rio para o PSD um conjunto de erros que constituem uma oportunidade para o seu próprio crescimento eleitoral.

Mas tudo isso é pouco comparado ao aviso de Marcelo: “se Rio não for suficientemente a jogo preenchendo os vazios de oposição, então terá de ir ele”. Perceba-se o que está em jogo: para preservar a sua influência, Marcelo precisa de travar a ascensão de António Costa e do PS. Isto porque, num cenário de maioria absoluta do PS, o presidente ficaria limitado ao papel de espectador, sem real poder de intervenção – e esta hipótese é um pesadelo para Marcelo, viciado em ser o epicentro da política nacional. Ou seja, Rui Rio teria tudo para fazer de Marcelo o seu mais importante aliado, unidos pelo interesse comum de elevar o PSD para travar o PS. E, no entanto, Marcelo já é todo ele dúvidas sobre Rui Rio. Em menos de um mês como líder do PSD, Rio converteu o mais certo, popular e poderoso aliado num eventual adversário.

Toda a gente sabe que Rui Rio abraça os conflitos e gosta de assumir riscos. Está em confronto aberto com o seu próprio partido – e decidido a esvaziar a relevância do seu grupo parlamentar através de estruturas paralelas. Está a trilhar um caminho que se quer equidistante de PS e de CDS, vendo Cristas aproveitar para reclamar para si a liderança do espaço político do centro-direita. E está em vias de perder Marcelo, que aguarda ansiosamente por uma “oposição forte” que não aparece e que ele próprio se dispõe a comandar se necessário. Ou seja, Rui Rio arrisca-se a perder quase todos os seus aliados. É estratégia? Talvez seja. Mas o ponto já não é só se a sua estratégia está certa ou errada, é também que essa estratégia está a isolar politicamente o PSD – e, perante uma esquerda unida, a opção é suicidária para a direita. Sim, ainda é cedo para veredictos. Mas não se percebe como pode esta história acabar bem.

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PSD

Um desenho para Rui Rio /premium

Alexandre Homem Cristo

Numa frase, ao colocar o BE na “social-democracia” e, portanto, a disputar o mesmo espaço político que o PSD, a líder bloquista tornou confrangedora a visão de Rio para o maior partido da “direita”.

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