Rádio Observador

Fogo de Pedrógão Grande

Sem palavras

Autor
504

Se a sociedade valoriza as florestas, mas o mercado não remunera os serviços florestais, estamos perante uma falha de mercado que deve ser paga com os nossos subsídios.

Não sei o que escrever. Em muitas semanas, acontece-me não saber sobre que escrever. Mas sempre me desenvencilho. E, tanto quanto percebo, o impacto dos meus artigos pouco tem a ver com a certeza de que se trata do tema certo. Mas esta semana é diferente. Tenho muitas coisas sobre que escrever. Podia responder às reacções ao meu artigo sobre barrigas de aluguer, ou falar do projecto-lei das quotas que poderá ser votado esta semana no Parlamento. São artigos que já tinha mentalmente preparados. Poderia, se quisesse irritar a maioria dos que me lêem no Observador, falar sobre a descida das taxas de juro (passaram de mais de 4 para menos de 3% em três meses) ou sobre o outlook positivo da FITCH ou sobre a saída oficial do Procedimento de Défices Excessivos ou sobre as declarações de Schäuble a pretexto do sucesso que é a história do resgate português.

Mas, nesta semana, ao contrário de muitas outras, eu sei sobre o que escrever. Só não sei o que escrever. Não consigo escrever ou pensar sobre nada que não esteja relacionado com o incêndio e a tragédia que se abateu sobre tantas famílias. Desde os que morreram apanhados pelo incêndio a quem morreu combatendo o incêndio — o bombeiro que merece que a sua família seja muito bem tratada pelo Estado português. Mas não consigo dizer nada que não tenha sido já dito. Não tenho um ângulo que me permita analisar o assunto de uma forma original e tudo o que tenho a dizer parece-me banal perante o inferno a que vimos assistindo desde Sábado.

Amigos sugeriram-me que tentasse explorar o ângulo económico. Explicar como sem uma actividade económica sustentável que explorasse a floresta estaríamos condenámos a ter uma floresta ingovernável. É verdade, claro, todos sabemos. Há muito que a floresta deixou de ser o nosso petróleo verde. Sem actividade económica que a explore não é razoável esperar que ela se mantenha limpa, como tantos exigem. Só quem não sabe o trabalho que dá limpar uma mata e os custos financeiros que tal implica pode pensar o contrário. Mas, na verdade, Henrique Pereira dos Santos já escreveu e já falou sobre a Economia da Floresta. E se sobre floresta não percebo nada, sobre economia gosto de pensar que sim. Do que eu li e ouvi, quem deu os argumentos económicos mais coerentes foi Henrique Pereira dos Santos. Já o tinha feito durante a época de incêndios do ano passado e tornou a fazê-lo este ano, num artigo no Público e numa entrevista na TVI-24. Bem sei, bem sei…, quando vêm os incêndios vêm os especialistas instantâneos em fogos e combate aos fogos e em gestão florestal. Mas, na verdade, este autor escreveu sobre o assunto em Fevereiro e em Abril, pelo que se pode dispensar a acusação de que apenas escreve sobre o assunto em épocas quentes.

E vale mesmo a pena ler o artigo de Abril. Foi escrito a pretexto do processo da Reforma da Floresta que estava em curso. Depois de explicar a inutilidade, Henrique Pereira dos Santos acabou o artigo com uma predição: “O resto já sabemos: se o ano correr de feição e a meteorologia ajudar, lá veremos [o Sr. Ministro] a dizer que a reforma está a ser um êxito e a ter os primeiros resultados, e se, pelo contrário, a meteorologia trouxer uma grande área ardida e um grande alarme social com os fogos de Verão, lá o veremos dizer que ninguém estaria à espera de resultados imediatos na resolução de problemas que ninguém quis resolver nas últimas décadas.” O ministro em causa era Capoula dos Santos e já o pudemos ouvir, há uns dias, na SIC Notícias, fazendo questão de confirmar a predição feita.

O argumento económico de Henrique Pereira dos Santos é relativamente simples e perfeitamente correcto. Se a produção florestal não for economicamente sustentável, nunca teremos uma floresta bem tratada. E se não compete ao Estado substituir o mercado quando este existe, compete ao Estado suprir as falhas de mercado quando elas ocorrerem. E se o mercado, ao contrário da sociedade, não valoriza e não paga os serviços de ecossistemas, então tem de ser o Estado a subsidiar quem presta este tipo de serviços. Não faz sentido subsidiar directamente actividades como a produção de leite ou de carne, que são remuneradas pelo mercado, em vez de subsidiar actividades económicas que prestam serviços que contribuem para a limpeza das florestas, como a pastorícia, a resinagem, o corte de lenha, entre outros.

Repito, de florestas e de fogos nada percebo. Mas estes argumentos económicos fazem todo o sentido. Se a sociedade valoriza as florestas, mas o mercado não remunera os serviços florestais, estamos perante uma falha de mercado que deve ser paga com os nossos subsídios. Alternativamente, se, enquanto sociedade, não estamos dispostos a pagar o que for necessário para manter a floresta, mais vale reduzir a área florestal portuguesa. Poupam-se vidas e dinheiro a combater incêndios.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Igualdade de Género

O sexo e a concorrência /premium

Luís Aguiar-Conraria
141

Se até algo como a simplificação burocrática na criação de empresas teve efeitos na redução da desigualdade de género dos salários, percebe-se o absurdo da ideia de que não há discriminação salarial.

António Costa

Três perguntas, três não-respostas /premium

Luís Aguiar-Conraria
307

Os desafios da nossa evolução demográfica não são compatíveis com um discurso puramente conjuntural de “vamos lá fazer com que alguns jovens regressem ao país e diversificar algumas fontes de receita"

Orçamento do Estado

Por um IVA civilizado /premium

Luís Aguiar-Conraria
2.744

Se for a um restaurante de luxo, o IVA que é pago é de 13%. Se beber uma cerveja, paga 23% de IVA, já se beber um vinho de 150€ paga apenas 13%. Ou seja, andamos a subsidiar gastos de gente rica.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)