Lavei três vezes as mãos na última hora, entrei na caça às máscaras e fiquei em pânico quando o líquido desinfetante esgotou no supermercado. Estou com medo e tenho esse direito. Um medo tão básico que me põe ao espelho com o eu mais irracional. Edifiquei mentalmente um sistema elaborado de sobrevivência, mesmo que me repitam estatísticas animadoras e se anulem as probabilidades. É um vírus, parece uma peste e eu nunca vivi nenhuma.

É preciso não estar no sítio e tempo certos para começar 2020 com uma epidemia. Um número com as curvas e a beleza hipnótica de uma capicua não merecia um início tão inquieto e de contornos quase medievais. Mas abrir uma década com uma desgraça global é um feito marcante, que lhe atribui um certo dramatismo e um respeito adicional. Um infortúnio que já não é só dos chineses, dos iranianos, dos japoneses… é também dos europeus, dos americanos, do corretor da bolsa, da vizinha idosa do terceiro esquerdo, do meu filho. É transversal, real e inquieta-nos mesmo quando nos abrigamos sob o guarda-chuva do “isto é um exagero”.

Já percebemos que este Covid-19 não tem fronteiras nem passaporte, não está para referendos muito menos para o Brexit e escusa-se a cumprir qualquer acordo bilateral. Coloca-nos em alerta e num impulso estamos a abrir portas com os cotovelos, fechar móveis ao pontapé, a atravessar a rua sempre que alguém espirra ou diz que foi ver um jogo da Juventus. Entretanto, esquecemo-nos da luta com as palhinhas nos oceanos, da Greta, da seca no Alentejo, do Caso Marquês e ficamos suspensos na contagem dos infetados e dos mortos, enquanto ressuscitamos palavras como quarentena, revemos planos de contingência e o Instituto Ricardo Jorge parece-nos o local mais credível do mundo.

Um vírus moderno, contemporâneo e trendy, que se propaga ao nosso ritmo. Célere e vertiginoso como programado no algoritmo a que estamos habituados a viver, a uma velocidade 5G. Não é informático, mas é absolutamente viral e já não tem piada. Baralha-nos os planos e empecilha-nos a rotina, limita-nos nos afetos e detona as nossas inseguranças. Faz-nos tomar decisões e colocar questões… será que vou poder trabalhar? Onde vou deixar as crianças? Será melhor fazer umas compras online? E aquelas férias no Algarve? Está o Estado preparado para cuidar de mim? Melhor ir a pé do que de metro. Pelo caminho compro uns enlatados….

De todos os comportamentos que se sucedem, da queda do petróleo à crise no turismo, das universidades fechadas aos eventos anulados até ao Marcelo em isolamento voluntário, o que mais me perturba é o idiota que faz troça do prevenido. Daquele que se contém no contacto, do que evita, do se assegura. Civicamente partilha apreensão em vez de germes. Do que teme por si e pelos outros. Que se retrai penosamente nos abraços e nos beijos para que, em breve, possamos dar as mãos, mais fortes e sem medo. Sim, porque isto vai passar.