Votei durante o período de isolamento. É estranho e até incongruente, mas não antagónico. Ficar em casa em isolamento é o dever de protegermos os outros, ir votar é o direito de nos protegermos. Continuo a achar bizarro, mas fui. Lavei o cabelo para tirar o melado de três dias de febre, besuntei-me de creme hidratante na esperança de brilhar de saúde e por cima da camisola verde seguiu um arsenal de dispositivos, duas máscaras, luvas e a minha caneta.

Senti um certo constrangimento pelos outros, os que me receberam na mesa entre as 18 e as 19, na hora prescrita para os isolados, covidados e dos que deixam tudo para a última, mas fui. Não é uma teimosia vã, nem uma opção fútil ou banal. É a única que temos por agora. Um voto em papel que nos obriga a deslocações, contactos e burocracia. No mesmo tempo em que já gerimos o nosso dinheiro a partir de uma aplicação, quando já é possível pedir o divórcio online ou ser atendido por um médico por videochamada. Talvez para votar eletronicamente seja preciso mais do que tecnologia, seja necessária vontade e alguma sensatez.

Votar sempre foi para mim um ato sério e que envolve solenidade. Fico até emocional neste momento. Demoro-me na mesa, gosto de apreciar o boletim, os logotipos dos partidos, há sempre algum detalhe que me surpreende. Quando fiz 18 anos, havia três coisas que ansiava muito: tirar a carta de condução, votar e filiar-me num partido político. Fiz as três. Conduzo mais ou menos, votei quase sempre mas nem sempre bem, pelo caminho ficou o partido. Crescer também tem esta vantagem de podermos mudar de opinião, mantendo os nossos princípios e especialmente acrescentando maturidade às nossas escolhas.

Arrastei-me até à escola primária onde voto. Confesso que preferia ter ficado em casa enrolada em três mantinhas com paracetamol à cabeceira. Mas fui, porque na sexta-feira a campanha eleitoral terminou, mas aquela que derradeiramente precisamos de encetar como país faz-se todos os dias: a campanha contra a abstenção. Porque sempre que um político é corrupto, sempre que não há uma cama de hospital para te cuidar, sempre que um jovem emigra porque Portugal não corresponde aos seus sonhos, sempre que alguém é discriminado quer pela raça, religião, género ou orientação sexual, sempre que a justiça é lenta ou não funciona, sempre que os meios e recursos na educação forem escassos, sempre e sempre que estas e outras falhas persistirem estamos a beneficiar a abstenção. A verdade é que esta não começa nem acaba nas pessoas que não saem do sofá para ir votar, ela é o resultado das promessas e das expetativas que não se cumprem. Virar a história ao contrário não adianta, o que importa é escrever novas linhas. E por isso, eu fui.

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